<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022</id><updated>2012-01-02T07:23:28.817-08:00</updated><title type='text'>CAIXA DE CONTOS, por Roberto Schultz.</title><subtitle type='html'>Estes são contos velhos (ou gastos) de quem já parou de escrever, porque acha que fazer literatura no Brasil é uma tarefa inútil. O que você vai ler aqui é só o resultado da minha inefável ilusão perdida, que estava guardada numa CAIXA DE CONTOS há alguns anos.São apenas OBJETOS, como os meus charutos; o meu cinzeiro; o meu isqueiro; o meu relógio; a minha caneta ou os meus óculos, que também estão aqui.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>31</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-894538453915003491</id><published>2011-07-24T16:27:00.000-07:00</published><updated>2011-07-24T16:27:27.045-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-1vhbxWNzG7I/TiylS5dcQ3I/AAAAAAAAEMo/AKcOekawfAU/s1600/10237415.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="211" src="http://1.bp.blogspot.com/-1vhbxWNzG7I/TiylS5dcQ3I/AAAAAAAAEMo/AKcOekawfAU/s320/10237415.jpg" t$="true" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-_0_OZp2K2qQ/TiylvbCB8zI/AAAAAAAAEMs/NIbzBw41ztI/s1600/rosilene-miliotti_censo-na-rua-_5-8.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://3.bp.blogspot.com/-_0_OZp2K2qQ/TiylvbCB8zI/AAAAAAAAEMs/NIbzBw41ztI/s320/rosilene-miliotti_censo-na-rua-_5-8.jpg" t$="true" width="213" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;CACHORROS NO CERCADO.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: x-small;"&gt;Conto de &lt;strong&gt;ROBERTO SCHULTZ&lt;/strong&gt;, escrito em agosto de 2004. Parte desse conto, aqui suprimida, foi utilizada num dos capítulos do Romance &lt;em&gt;&lt;strong&gt;SEGREDO E FIM&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;. Uma frase desse conto, &lt;strong&gt;&lt;span style="color: #cc0000;"&gt;grifada em vermelho abaixo&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;,&amp;nbsp;foi escrita﻿ por &lt;em&gt;&lt;strong&gt;LÍVIA RIBEIRO&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;, na época com &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: x-small;"&gt;nove &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: x-small;"&gt;anos de idade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Vinha pensando, pela rua, que não poderia esquecer-se de ir até uma daquelas casas de material elétrico que há na Rua Vigário José Inácio para comprar uma tomada de luz, fêmea. E trazia enfiada no braço esquerdo uma sacola de plástico, dessas de supermercado, cheia de gibis velhos para vender a um cara que os compraria por um dinheiro razoável, na Galeria do Rosário.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;O movimento nas ruas era uma onda grossa de gente muito feia e também muito pobre, mas ainda assim era uma gente feliz com a sua feiúra e satisfeita com a sua pobreza, pois nunca puderam imaginar alguma coisa que fosse diferente daquilo e não conheciam nada além. E até riam, alguns daqueles mortos-de-fome, encostados nas portas das lojas. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Um feirante singular e de unhas sujas, desses que se instalam na calçada com uma banquinha feita de aramados e de lata, anotava meticulosamente à caneta, com a sua letra trêmula de semi-analfabeto, os preços das frutas que vendia, nuns cartões de papelão pardo, recortados em retângulos. Dedicava-se àquilo com atenção e afinco, como se aquela fosse uma tarefa intelectual das mais complicadas. Ao seu lado, respeitoso e atento, um homem gordo, cuja barriga saltava para fora da camiseta curta e lhe caía por cima das calças, prestava atenção e, de vez em quando, fazia algum comentário boboca ou apenas ria.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Então entrou num boteco, sentou-se perto do balcão e pediu um guaraná e um pastel. Vieram ambos. Nas prateleiras empoeiradas que ficavam atrás do balcão, havia várias garrafas de conhaque e de martini ensebadas, jamais abertas. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Comeu e bebeu.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Depois levantou-se, deu um “boa tarde” que ninguém respondeu, e saiu. Chovia. Deixou a tomada de luz para um outro dia. Tomou a Voluntários da Pátria numa longa e molhada caminhada até o Largo Glênio Peres, dobrando à esquerda na Borges de Medeiros.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Subiu a Borges esgueirando-se sob as marquises e entre os guarda-chuvas das pessoas que fugiam da chuva e que ele considerava uns covardes; pois mesmo protegidas, andavam sobre as marquises. Perto da esquina com a Rua dos Andradas foi abordado por uma moça – dentre as várias que estavam ali – que trazia numa das mãos uma prancheta e na outra uma caneta e que, assim, lhe pediu alguns minutos do seu tempo. Estava irritado.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- &amp;nbsp;Como tem gente covarde nesta Cidade&lt;/em&gt;, ele disse à moça.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Como?&lt;/em&gt; Ela.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- É isso aí ! &lt;/em&gt;disse, irritado, como se a outra não tivesse concordado com ele e agora o enfrentasse, - é uma cidade de covardes, repetiu, - eles se protegem com os guarda-chuvas mesmo debaixo das marquises ao invés de irem pela rua, deixando elas para quem está desprotegido, atrapalhando os outros. É gente que tem medo desta vida. Vivem se protegendo de tudo, até da porcaria dos pingos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- É, né?&lt;/em&gt;, ela falou, sem entender direito a indignação do outro, estava acostumada à maluquice das pessoas que passavam. E tinha de prosseguir no seu questionário aos passantes. Estavam lhe pagando mais de cem reais para fazer justamente aquilo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Ele, no entanto, sem se importar em que houvesse ali tantas moças fazendo a mesmíssima coisa, deixou a irritação de lado e passou a se comportar como se ela lhe tivesse abordado de uma forma sedutora, flertando com ele, tendo escolhido ele pelo seu aspecto físico e não pelo seu potencial de trouxa comprador de qualquer coisa, como todos os outros. E, por isso, ele olhava para ela fazendo uns olhares adocicados, sorrisos preparados, uma tentativa de sedução.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- O senhor tem interesse em conhecer línguas estrangeiras?&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Ele riu, pois mal tinha terminado o curso primário, e sentiu-se importante com a pergunta, pois a moça achou, decerto, que ele tinha a aparência de alguém com condições, alguém inteligente, &lt;em&gt;viajado&lt;/em&gt;, de nível.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Quem sabe uma hora dessas?&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- O senhor poderia responder a algumas perguntas?&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Olhou para o pulso, procurando um relógio que não usava, a demonstrar que tinha compromisso. Homens importantes sempre têm compromissos. Ele não tinha para onde ir, estava andando a esmo pelo Centro até se enfiar no seu quarto alugado que ficava lá embaixo, quase na Ponta do Gasômetro. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Se for rápido...&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- É bem rapidinho.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Aquilo mexeu com a sua vaidade. Então ele se postou na frente dela apoiado com a perna direita ligeiramente adiantada ao corpo e com a mesma mão na cintura, numa postura galanteadora meio antiquada, dessas próprias de um conquistador ordinário. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Com a mão esquerda, em cujo braço estava enfiada a sacola de plástico com as revistas velhas, coçava o cavanhaque e continuava a fazer os seus melhores olhares e sorrisos para a moça. Comportava-se como se estivesse durante um flerte, uma aproximação.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Qual o seu ramo de trabalho?&lt;/em&gt; Ela perguntou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Deu uma pegada involuntária no saco com a mão direita e, pensando um pouco, refletiu que não poderia falar em banheiros. &lt;strong&gt;&lt;span style="color: #cc0000;"&gt;Mas se fosse o caso iria sair dali e falar em outro lugar, para não ficar feio, desde que os outros não ouvissem&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Sanitários. &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Ele disse, e discretamente levou a manga da camisa ao nariz, para conferir se nela não havia impregnado o cheiro doce de mijo que sentia o dia inteiro. Era o mijo choco e morno daqueles velhos que seguravam a bexiga na viagem. O mijo represado dos motoristas dos ônibus que chegavam de toda parte do Estado. A bosta fedorenta de sujeitos que desciam apressados dos ônibus, se fechavam nos cubículos, e depois de dois ou três estalos do reto defecavam com estrondo, emporcalhando a louça branca dos vasos, deixando neles os rastros das enormes lesmas de barro que lhes escapavam dos intestinos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Qual a sua função?&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Sou o responsável.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- O responsável?&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Isso. Por vários assuntos de lá.&lt;/em&gt; Disse, vago, não querendo estender a resposta.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Gerente, então?&lt;/em&gt; A moça demonstrava que não tinha muito discernimento para imaginar funções além daquelas que ela própria via no seu trabalho. &lt;em&gt;Gerente de vendas, chefe de promoções, promotor de vendas, entrevistadora&lt;/em&gt;, ela. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Ela era tão simplória quanto ele. Era um diálogo entre dois iguais. Como se uma inteligência ou uma classe superior, querendo beneficiar-se disso mas não querendo se envolver e nem relacionar-se com eles, tivesse posto dois cachorros de uma mesma raça ordinária num cercado para que se entendessem entre si.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- É, bota aí: gerente.&lt;/em&gt; Ele nunca havia se dado conta, mas pensou satisfeito que ele era mesmo o gerente do banheiro da Rodoviária.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- O senhor utiliza alguma língua estrangeira no seu trabalho?&lt;/em&gt; Ela sorriu, sedutora e falsa. Olhando melhor, ela era meio gorda e as raízes pretas apareciam na base dos cabelos pintados de loiro. Estava toda de preto e a sua blusa era rendada e transparente mas por baixo havia um sutiã enorme, donde pendiam adiposos peitos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Ele acabara de dizer àquele propagandista de laboratório sentado no boteco que ajudava os outros a limparem o fiofó.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Às vezes até uso.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Uma vez oferecera um rolo de papel higiênico a um uruguaio que desceu de um ônibus da Pluna. Na verdade não falou nada, apenas apontou o rolo para o estrangeiro e, sendo a dor de barriga uma língua universal, o uruguaio passou a mão no papel e correu para dentro de um dos reservados. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Na saída, o uruguaio não entendia porque precisava pagar. Na sua cidade e em boa parte do seu país o papel era de graça. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Então ele falara gritando &lt;em&gt;“pagar-papel!”&lt;/em&gt; ao uruguaio, como quem argumentasse com um índio daqueles do cinema ou com um surdo e não com um estrangeiro.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- O senhor possui automóvel?&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;A pergunta era traiçoeira. Ela lhe perguntara antes se ele tinha interesse num curso de língua estrangeira porque identificara nele alguém de gabarito, não um zelador de banheiro na rodoviária. Em alguns dias mal tinha dinheiro para o ônibus, que dirá “possuir automóvel”. Mas o interesse que a moça demonstrara por ele autorizava uma mentira.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Tenho. Até dois.&lt;/em&gt; Exagerou, rindo e acreditando na própria mentira.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Dois?&lt;/em&gt; Incrédula &lt;em&gt;– E de que ano?&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Deste.&lt;/em&gt; Sorriu, apontando com o indicador para o chão. Como se este ano estivesse lá embaixo, no chão, onde os seus sapatos velhos de solas sintéticas estavam pisando.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Ah, deste ano.&lt;/em&gt; Ela não acreditou, mas mesmo assim anotou. – E o senhor passa as férias na praia, no campo ou na serra?.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Uma vez, no verão, ele ficara só de calção na beira do Guaiba, em plena Avenida Beira Rio, entusiasmado com algumas mulheres de procedência duvidosa. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Elas provavelmente trabalhavam nos vários bordéis improvisados que funcionam em apartamentos antigos na Bento Martins, Duque de Caxias, Fernando Machado, Demétrio Ribeiro ou em outras ruas do Centro. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Elas improvisavam, ali, um veraneio urbano, todas de biquínis, na prainha poluída que fica na margem da Avenida. Elas, naquela vez, aliás, não deram a ele a menor importância.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Geralmente na praia&lt;/em&gt;, disse, aproximando bem o seu&amp;nbsp;rosto do rosto dela.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Qual o seu endereço?&lt;/em&gt; Ela perguntou, com o seu sorriso-arapuca que ele, claro, apoiando-se ora numa ora na outra perna, não percebera. Estava enlevado pela sua posição de galanteador.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Ela precisava do endereço para mandar para aquele pé-rapado, que mentia descaradamente, um folheto oferecendo, de graça, um audiovisual onde mostrariam a ele e mais uma meia dúzia de néscios as vantagens de um curso de inglês ou de espanhol que jamais teria a eles qualquer utilidade. Ao final do filme, empurrariam em todos eles um carnê com quarenta e oito prestações mensais do intensivo de conversação em língua estrangeira.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Endereço?&lt;/em&gt; Devolveu a pergunta a ela, sentindo um frio no estômago.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- É, o seu endereço residencial ou comercial.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Chamar o quarto sujo e cheio de mosquitos onde dormia, com um penico de plástico cor-de-rosa debaixo da cama, de residência, ou o banheiro da Rodoviária de &lt;em&gt;endereço comercial&lt;/em&gt;, era algo com o qual ele não contava. Quem teve desde sempre um endereço colado num cartão de visitas ou num talão de cheques não pode compreender a angústia que é jamais tê-los tido de uma forma decente. O constrangimento. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;O enlevo e o galanteio deram lugar, nele,&amp;nbsp;ao &lt;em&gt;desespero&lt;/em&gt;. Igual àquele que sentia no colégio quando, não tendo um calção moderno igual aos outros alunos do colégio público onde estudava, fugia das aulas de educação física. O seu calção além de velho era abalonado, como o calção de uma bicha, que ganhara porque não servira mais em alguém. Isso quando não cagava nas cuecas, de nervoso. Rodou no terceiro ano por faltas, mesmo saindo de casa para ir ao colégio, todos os dias em que havia educação física. Num dia o professor lhe chamou na frente de todos e humilhou-lhe de forma fragorosa. A mãe, hoje já velha, nunca soube disso.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Preciso ir, estou com pressa, tenho de resolver isso aqui&lt;/em&gt;, apontou para a sacola cheia de &lt;em&gt;Tio Patinhas&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Homem Aranha&lt;/em&gt; velhos, como se aquilo fosse algo importante. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;A moça deu uma olhada para tentar ver o que havia na sacola, mas ele a impediu, estalando a boca, como quem diz: "não seja indiscreta".&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Mas agora é só me dar o seu endereço e já termina!&lt;/em&gt;, ela segurou no braço dele.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Ele puxou o braço com força, grosseiro; ficou confuso, não sabia o que fazer.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Não posso, hoje estou com pressa&lt;/em&gt;, apontou de novo no seu pulso o tal relógio que não existia. E arrematou: &lt;em&gt;- Amanhã passo aqui mais descansado e te procuro&lt;/em&gt;, saindo apressado e empurrando o bando de covardes que, segundo ele, desciam a Borges no contra fluxo e por debaixo das marquises, com os seus guarda-chuvas abertos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;A moça ficou parada e incrédula, olhando para ele se afastar, sem saber o que fazer com o questionário incompleto que tinha na mão esquerda.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Daquele dia em diante, sempre que passava por ali, ele atravessava a rua.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-894538453915003491?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/894538453915003491/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=894538453915003491&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/894538453915003491'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/894538453915003491'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2011/07/cachorros-no-cercado.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-1vhbxWNzG7I/TiylS5dcQ3I/AAAAAAAAEMo/AKcOekawfAU/s72-c/10237415.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-8543544243040343505</id><published>2011-07-10T10:28:00.000-07:00</published><updated>2011-07-10T10:28:12.046-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-MmIt5J4bfRs/Thnen4Wu6hI/AAAAAAAAEKM/WAsKt_7x6r4/s1600/casa_azul%255D.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" m$="true" src="http://1.bp.blogspot.com/-MmIt5J4bfRs/Thnen4Wu6hI/AAAAAAAAEKM/WAsKt_7x6r4/s1600/casa_azul%255D.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-yuI8MsFcEMA/ThnerphN4zI/AAAAAAAAEKQ/NGvKukaSRZw/s1600/gordin-suado-.gif" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" m$="true" src="http://2.bp.blogspot.com/-yuI8MsFcEMA/ThnerphN4zI/AAAAAAAAEKQ/NGvKukaSRZw/s1600/gordin-suado-.gif" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-Fb8gbB1Bs0U/ThnesKnutvI/AAAAAAAAEKU/bjGN5QTfT8A/s1600/porco.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" m$="true" src="http://3.bp.blogspot.com/-Fb8gbB1Bs0U/ThnesKnutvI/AAAAAAAAEKU/bjGN5QTfT8A/s1600/porco.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-C-QAk551s-Y/ThnevdXK51I/AAAAAAAAEKY/aRcFuPLDuLQ/s1600/COL276Homem-com-faca-enferrujada-agride-policiais-militares.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="213" m$="true" src="http://4.bp.blogspot.com/-C-QAk551s-Y/ThnevdXK51I/AAAAAAAAEKY/aRcFuPLDuLQ/s320/COL276Homem-com-faca-enferrujada-agride-policiais-militares.JPG" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;SARRABULHO&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: x-small;"&gt;por &lt;strong&gt;ROBERTO SCHULTZ&lt;/strong&gt;﻿ (escrito em meados de Agosto de 2004).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Míquei.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Hã?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Míquei.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Como o ratinho?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- É, o camundongo. Como o camundongo, só que com “q” de queijo e com acento.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Eu acho falar “ratinho” mais simpático. “Camundongo” é meio nojento.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Não acho, prefiro “camundongo”. Gosto do som da palavra, principalmente da parte que fala “mundongo”. É mais forte.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- É um nome...diferente, né?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Gozado. Se você fosse homem teria me dito que é um nome “gozado” ou “esquisito”. Não tem problema, todo mundo fala. Meu pai tinha uma banca de gibis usados, na Galeria do Rosário.O nome do meu irmão mais velho é Píter Parquer, como o Homem Aranha.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;“Ah, que interessante”, a moça disse, mordendo a caneta de plástico que já estava toda desfiada. As canetas dela não deviam durar muito. Nem os dentes dela deviam durar muito. Gente pobre dificilmente se cuida.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Detesto esperar, sabe? Ele vai demorar?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Acho que não, ele disse para você que ainda vinha aqui hoje de tarde &lt;em&gt;Michel&lt;/em&gt;, não disse? Ele ligou para o seu celular?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- É “Míquei”, o meu nome. Ligou, sim.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Mentira. Se o outro ligou, não completou a ligação, pois Míquei mudara o número do seu celular. Sempre mudava. No máximo um mês, e um novo número. Ah, as facilidades da tecnologia para beneficiar sujeitos desconfiados como Míquei. Agora se tornara fácil, bastava chegar numa loja com o CIC, o endereço, e pronto, se poderia sair dali falando numa nova linha. E depois, hoje nunca se sabia que barbaridades as pessoas poderiam fazer com o número da gente, ele pensava. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;As pessoas se irritavam, às vezes, porque o número de Míquei estava sempre mudando.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Eu liguei, caralho, mas o seu número nunca atende, está sempre desativado ou entra na caixa postal. Você parece que está sempre em fuga, Míquei, como um rato...rá-rá-rá...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;“Fui assaltado. Esqueci o aparelho numa lotérica. Caiu da minha pasta, no ônibus.” &lt;/em&gt;As mentiras se sucediam. Quando Míquei achava que o número estava ficando manjado, punha um calção, uma camiseta, calçava os tênis e ia de bicicleta até a ponte. Tirava o aparelho do bolso e &lt;em&gt;vupt&lt;/em&gt;, jogava ponte abaixo até que &lt;em&gt;ploft,&lt;/em&gt; caísse lá embaixo no rio e fosse afundando &lt;em&gt;blu-blu-blu&lt;/em&gt;. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;No inicio, jogava o aparelho fora, pensando que a linha estivesse grudada nele. Por causa dessa ignorância, perdeu uns quatro aparelhos. Sempre comprava aparelhos usados e, além de usados, os modelos mais simples. Mas sempre era um prejuízo. Foi só depois é que descobriu que poderia manter o mesmo aparelho e mudar apenas a linha.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Na carteira, carregava um retângulo de cartolina onde escrevia os números de todas as linhas que havia usado. À medida em que ia deixando de usá-las, riscava os números no cartão. Míquei se considerava um homem organizado e lhe dava uma certa aflição; uma espécie de coceirinha, não ter o controle disso e nem saber que números ele havia espalhado por aí. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Era um controle meticuloso e detalhado, o que a seu ver era de muita utilidade. Míquei herdara do pai, que era um pateta (“rá-rá-rá”), o gosto por listas e anotações. As anotações que o pai fazia ficavam ensebadas pelo manuseio. E tinham aquele cheiro rançoso que havia dentro das malas velhas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Enquanto Míquei esperava por Mendes (“Imobiliária Mendes”), sentado na recepção da imobiliária, olhava para as paredes recém pintadas, para os móveis baratos ainda novos, para a cara alegre e burra da recepcionista, que tinha as unhas pintadas de cor de vinho. Passara ali há duas semanas e vira o próprio Mendes, todo suado e com estimados centro e trinta quilos, dando ordens a dois arigós de construção, que esticavam sobre a fachada da pequena loja uma faixa de pano que dizia: &lt;em&gt;“abriremos sob nova direção”&lt;/em&gt;. Um lugarzinho mixo que nenhuma ou pouca diferença faria ser aberto sob nova direção. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Naquela ocasião a gordura de Mendes chamara a atenção de Míquei. Só depois é que Míquei deu-se conta de que, também pela empolgação do gordo, e não apenas pela sua gordura, aquela seria a pessoa de quem ele precisava agora. Abrindo um novo negócio, Mendes era todo sorrisos e o que mais desejava naquele momento da sua vida era agradar à nova clientela. Mendes parecia tomado pela soberba de acreditar-se um empresário e, nesse ponto, moldara a sua influenciável personalidade e arrancava na frente, destratando os obreiros que reformavam a loja, portando-se com pompa ou rindo alto ao telefone. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;“Eu agora sou um empresário. Gente... que responsabilidade!”, pensava Mendes. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;O fato de abrir a imobiliária sob nova direção ou, sob a sua direção, davam a Mendes a certeza de que em breve ele estaria abrindo uma outra loja ou várias. Sequer pensava, Mendes, na possibilidade de que milhares de outros pequenos iludidos como ele naufragavam todos os dias nas águas da Economia, como aqueles telefones que Míquei jogava dentro do rio, batendo na lama do fundo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Míquei adorava comer sarrabulho, de colher. Pouca gente sabia o que era sarrabulho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- O que é isso?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Aquele negócio que as pessoas põem dentro do peru, no Natal, explicava, para facilitar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Ih, mas o Natal ainda está longe...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Eu adoro, não espero pelo Natal. Como sarrabulho o ano inteiro.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Míquei encontrara a receita num velho livro amarelado que, misteriosamente, estava no meio dos gibis do seu pai. Era uma edição portuguesa, e aquilo dava um frio na barriga de Míquei, pois a ele parecia uma coisa misteriosa escrita naquela língua arrevesada, cheia de palavras que no inicio não compreendia muito bem, como se fosse um feitiço, uma poção, uma cabala.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Aos poucos foi decorando aquele texto de tal forma que passou a interessar-se pela sua “tradução para o brasileiro”. Foi perguntando, pesquisando. Uma vez foi até o consulado de Portugal e saiu de lá satisfeito, pois um funcionário português ofereceu-lhe vários esclarecimentos sobre aquelas palavras que Míquei, na sua ignorância, acreditava serem medievais, de um outro tempo. Ali ele teve duas decepções. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;A primeira decepção foi que o tal funcionário, Gonçalo, muito delicado e solícito, ao invés de ser um velho de cabelos brancos e dentes amarelados, tinha uns trinta e cinco anos, usava uma gravata. Embora fosse pálido e afável, não parecia alguém misterioso ou bruxo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;A segunda decepção foi que numa outra ocasião, Gonçalo convidou Míquei para ir ao seu apartamento ver uns livros semelhantes que foram do seu avô. Chegando lá, após alguns rodeios, perguntou se Míquei não &lt;em&gt;“gostava de ir-me à peida”&lt;/em&gt;. Aquilo causou espanto, pois Míquei não entendera direito o que o outro queria. Gonçalo perguntou se Míquei gostaria de comer-lhe o cu. Gonçalo nem era bruxo e nem era homem; era um puto. Míquei aceitou-lhe a oferta, andava mesmo sem mulher. Mas serviu-se de Gonçalo uma única vez, depois nunca mais o visitou. Gonçalo certamente tentou telefonar-lhe para um &lt;em&gt;replay&lt;/em&gt;, mas não teve êxito na sua tentativa sodômica.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;O livro de receitas amarelado recendia a papel velho, ou a mofo, mas era um cheiro bom. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Num tacho, põem-se as carnes todas a ferver em 3 litros aproximadamente de água fria, juntam-se um pouco de louro, cravinho, noz moscada, sal e pimenta. Deixam-se cozer as carnes muito bem, retirando a espuma que se forma na superfície. Logo que as carnes estejam bem cozidas, retira-se tudo do lume. As carnes depois de arrefecidas são desfiadas. À calda de cozer as carnes, depois de rectificados os temperos, é retirada a gordura que porventura esteja a mais, leva-a novamente ao lume e deixa-se levantar fervura, tendo já acrescentado a água necessária. &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Míquei adorava ler “retira-se tudo do lume” e achava bonito “as carnes depois de arrefecidas, são desfiadas”, ficava horas lendo aquilo em voz alta. O “lume” parecia uma lanterna, um lampião. E as “carnes arrefecidas” lhe pareciam carnes cansadas, com falta de ar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Mendes chegou e reconheceu Míquei, que estava sentado numa cadeira na recepção da Imobiliária, cochilando, com a sua pastinha preta de couro sintético sobre as pernas. Despertou com a entrada do outro e o tilintar dos Sete Sinos da Felicidade que estavam presos no alto da porta&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Demorei muito? Eu tentei ligar naquele número de celular que você me deu aqui na porta da imobiliária, no dia em que nos encontramos na obra, está lembrado? Deu uma mensagem dizendo que a linha está desativada, mudou?. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Mudou, ontem. Mentiu. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Mendes vestia uma calça social cinza com os fundilhos caídos e tinha um molho enorme de chaves dependurado na cintura. Os sapatos dele eram muito pequenos e as solas estavam gastas nos lados de fora, como se ele fosse perder o equilíbrio e tombar a qualquer momento. Sob os braços da camisa azul de mangas curtas, havia duas rodelas de suor.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Então depois você me dá o número novo. Peguei as chaves do sítio. Essa azul é do cadeado da porteira. E essa daqui é da casinha. É uma casa bem pequena, não vou lhe mentir. Mas é bem simpática. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Corretores de imóveis adoram chamar muquifos de “simpáticos” e blocos de apartamentos que parecem pombais de “torres”, pensou Míquei.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Foram na caminhonete de Mendes, que se desculpava o tempo todo pela batida das portas laterais, do painel do carro, da porta traseira. Mendes, o empresário. Mendes, o gordo próspero que certamente investira todo o seu dinheiro na imobiliária “agora sob nova direção” e não tinha mais nem um puto para comprar um carro decente. Viajaram trinta minutos num asfalto esburacado, e à margem da estrada havia várias e pequenas bancas feitas de caixotes, com sujeitos suados e de unhas imundas, vendendo melancia ou abacaxi.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Você gosta de sarrabulho?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Como assim? Mendes perguntou achando que fosse alguma &lt;em&gt;sacanagem&lt;/em&gt; de Míquei, a palavra era estranha. - Tinha ali atrás para vender?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Sarrabulho, é o recheio do peru. Não se vende na beira da estrada.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Ah, o recheio do peru? Mendes ainda achava que Míquei estava lhe sacaneando com uma piada de duplo sentido, mas fingiu não entender.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Não gosto muito, jogo o sarrabulho fora e fico &lt;em&gt;com o peru na mão&lt;/em&gt;, e agora? O que eu tenho de dizer? perguntou Mendes, acreditando ser uma charada sobre "peru" e suas alusões ao pênis, e ensaiando uma risada, até perceber que Míquei estava falando sério.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Nada. Eu prefiro o sarrabulho. Eu como sarrabulho o ano inteiro, não apenas no Natal.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Isso é bom, o Natal ainda está longe, disse Mendes, olhando para o marcador de combustível no painel da caminhonete (chegando perto da &lt;em&gt;reserva&lt;/em&gt; do tanque)&amp;nbsp;&amp;nbsp;e ligando a seta para a direita, entrando numa estrada de chão batido. Todo mundo dizia para Míquei “o Natal está longe”, por causa do sarrabulho, e ele não tinha uma resposta boa para isso.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Andaram mais uns quinze minutos e a cada cocuruto de terra batida onde a caminhonete tropeçava, Mendes gritava “puta que o pariu”, esquecendo-se de que Míquei era um cliente da imobiliária (“agora sob nova direção”) interessado na compra de um sítio. Mendes não acreditava muito no potencial comprador de Míquei, e parecia arrependido de ter trazido para aquele fim de mundo um besta que falava só em “recheio de peru” e que talvez nem tivesse todo o dinheiro para comprar o sítio.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Chegamos, olha só a calma deste lugar, disse Mendes, aspirando o ar pelo nariz com força, com a afetação daqueles ecologistas chatos, que querem mostrar como o ar é puro, como o ar é bom, que a Natureza é a “nossa Mãe” e a puta que os pariu.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Mendes parou a caminhonete na estradinha de terra deserta, abriu a porta e desceu, olhando em volta. A sua camisa tinha uma mancha de suor nas costas, do pescoço até a bunda. De fato, o lugar era tranqüilo. Um matagal do qual subia uma porção de gafanhotos marrons e outros insetos, além de um cheiro de capim queimado. Cinco e meia da tarde. Dois quero-quero, percebendo a aproximação de Mendes da porteira do sítio, começaram um alarido irritante, dando sinal de que estavam protegendo os seus ninhos. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Míquei pensou que seria bom poder comprar um sítio como aquele. Ficou dentro da caminhonete cuja porta do motorista ainda estava aberta, vendo Mendes tentar abrir o cadeado que trancava a porteira de madeira, por onde passava uma corrente grossa e enferrujada. Ao fundo, por detrás da porteira, uns trinta metros adiante, havia uma pequena casa de alvenaria caiada, suja, meio escondida pelo mato, com porta e duas janelas verdes. Míquei pensou que, cortado o mato e pintada a casa, poderia sentar-se na varandinha da frente, quem sabe numa rede, olhando os passarinhos e comendo sarrabulho, de colher. Viver num lugar assim aumenta o apetite. Pena que Míquei não tinha um tostão para comprar o sítio. Nem para dar uma entrada, por menor que fosse.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Junta-se o arroz. Quando estiver meio cozido, juntam-se as carnes desfiadas e o sangue liquefeito. Rectificam-se temperos e deixa-se ferver até o arroz estar cozido completamente. Juntam-se-lhe, então, sumo de limão, cravinho e cominhos em pó. Serve-se, de imediato. Em travessa à parte vão os rojões e as frituras de belouras, chouriça de verde e tripa enfarinhada. Os rojões levam também batata loura, cortada em cubos. As travessas vão guarnecidas com limão às rodas e salsa em ramo. &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Mendes deu-se conta de que o outro ainda permanecia sentado dentro do carro, no banco do carona. Até então ele suara, sozinho, tentando abrir o cadeado.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Não vai descer? Preciso da sua ajuda aqui com esse cadeado.Desculpe, mas não decorei o seu nome...”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Míquei.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- Isso, Míquei, como o camundongo. Gozado, hein? Desculpe.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;- É, como o camundongo, você acertou.Todo mundo acha gozado. Míquei então abriu a sua pastinha preta, de couro sintético, e tirou de dentro dela um embrulho de pano sujo, no qual havia uma faca enferrujada que fora do seu pai, bem fininha e comprida. Uma faca antiga, em cuja lâmina havia o desenho de um coqueiro. O cabo era de madeira, escurecida pelo uso.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Para um bom sarrabulho, o ideal é que o bofe, as costeletas, e a metade de um coração, sejam de um cachaço selvagem, mas se o animal for caseiro, já supre bem. A quantidade de sangue é de um quarto de litro. É, assim como o coração e os outros, o sangue também deve ser de porco, ao que se junta um pouquinho de vinagre, para não coagular.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Míquei abriu a porta da caminhonete e desceu, com a faca enferrujada embrulhada no pano. Ele percebeu, pelas costas, que a camisa de Mendes estava ensopada de suor.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-8543544243040343505?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/8543544243040343505/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=8543544243040343505&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/8543544243040343505'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/8543544243040343505'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2011/07/sarrabulho-por-roberto-schultz-escrito.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-MmIt5J4bfRs/Thnen4Wu6hI/AAAAAAAAEKM/WAsKt_7x6r4/s72-c/casa_azul%255D.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-2809442497617778598</id><published>2011-06-26T21:11:00.000-07:00</published><updated>2011-06-26T21:15:36.609-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-QSyhFFZYtfw/Tgf-Jn8xWAI/AAAAAAAAEJQ/WjGhtBEtgIA/s1600/velha_assustada.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" i$="true" src="http://1.bp.blogspot.com/-QSyhFFZYtfw/Tgf-Jn8xWAI/AAAAAAAAEJQ/WjGhtBEtgIA/s320/velha_assustada.jpg" width="211" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-4ZGJENdslmU/Tgf9nhj4gwI/AAAAAAAAEI8/AxR4vefVPSA/s1600/DSC04423.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="213" i$="true" src="http://3.bp.blogspot.com/-4ZGJENdslmU/Tgf9nhj4gwI/AAAAAAAAEI8/AxR4vefVPSA/s320/DSC04423.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-HNWrkZ9keOo/Tgf95o6dHLI/AAAAAAAAEJE/gTVs314MBv8/s1600/hahaha.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" i$="true" src="http://1.bp.blogspot.com/-HNWrkZ9keOo/Tgf95o6dHLI/AAAAAAAAEJE/gTVs314MBv8/s320/hahaha.jpg" width="237" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-Ck3zgW399ns/Tgf90fK5iOI/AAAAAAAAEJA/vyfRIXpxTj8/s1600/grito.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="214" i$="true" src="http://1.bp.blogspot.com/-Ck3zgW399ns/Tgf90fK5iOI/AAAAAAAAEJA/vyfRIXpxTj8/s320/grito.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: x-large;"&gt;GRITOS&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;conto de &lt;strong&gt;ROBERTO SCHULTZ&lt;/strong&gt; escrito em agosto de 1999.﻿&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Essa sim; essa não. Esse sim; esse não. Eu adorava brincar de escolher pessoas na rua. Essa sim; essa não, esse sim, esse não. Vítimas. Vítimas de mentirinha. Me agradava pensar na reação que elas teriam, se eu chegasse por trás, devagar, e berrasse no ouvido delas. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Um berro desesperado, lancinante, como se alguém tivesse arrancado um dedo do meu pé, com um machado, a sangue-frio. Como se eu misturasse, no grito, ao mesmo tempo, a dor e também o meu susto pelo sangue jorrando, quente e doce. Qualquer que seja a sensação do sangue, ela sempre causa espanto. O sangue ainda é um tabu para nós. O calor dele; ou a sua cor vermelha num exame de laboratório; ou a falta dele num acidente – aí precedendo a falta de consciência do dessangrado – ou o rubor; ou o susto; ou os corpos cavernosos se enchendo dele - o sangue - na cabeça do pau de um homem antes do gozo; ou a ausência temporária dele no rosto e a palidez que a segue; e a ausência permanente dele no corpo e a anemia que chega.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Berrar de um jeito como eu ensaiava, geralmente sozinho, em voz baixa, cá comigo. Sempre quis berrar, com os famosos “plenos pulmões” que todo mundo fala, mas nunca tive oportunidade ou lugar para isso. E a minha maior fantasia sempre foi berrar no ouvido de alguém, de surpresa. Deixar a pessoa sem ação, gelada, cagada de medo. Dar um berro daqueles de arrepiar a nuca do assustado, fazê-los apertar o cu, de susto. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Uma única vez isso aconteceu: vinha uma velha sozinha pela rua e eu fiz – gritei - de verdade. Estávamos apenas eu e ela, no final de uma tarde de domingo, no Centro da cidade vazio. Quando a escolhi como minha presa, tudo o que eu queria era vê-la gritar apavorada, mas o que consegui dela foi só um ranger de dentes, um grunhido rouco. Grunhiu, a velha, no seu murmurar de bicho acuado, um xingamento &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;em&gt;“Louco! desgraçado! Jesus...”&lt;/em&gt;, ela disse para mim. As velhas e os evangélicos sempre chamam por Jesus, quando estão com medo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Eu disse a ela &lt;em&gt;“me desculpe, eu pensei que fosse a minha vizinha”&lt;/em&gt;. Não conheço vizinha alguma. Falei isso porque fiquei com medo de ser preso ou algo assim. Disfarcei e saí dali com o rosto vermelho e rindo, rindo muito, rindo sozinho. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Tive de parar sob uma marquise e me encostar numa parede para rir. Tomei um táxi lotação e, sentado no último banco, continuei rindo sozinho, ria descontroladamente, engasgava. Sou uma pessoa muito idiota para rir. Rio bastante e fácil. Uma mulher no lotação me viu rindo daquele jeito e no inicio também riu para mim. Depois ficou séria e no final foi se sentar num banco mais à frente, com medo. Eu não parava de rir.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;O problema é que, sem perceber, aquela puta velha do Centro me rogou uma praga, pois agora tenho medo de estar, mesmo, ficando, meio instável. &lt;em&gt;“Louco”&lt;/em&gt;, ela disse que eu era, e depois chamou Jesus. Talvez ele tenha atendido ela.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Eu, nessas minhas investidas, imaginava sempre o desespero, a sensação que a pessoa ia ter de que algum maluco pulava no seu pescoço, feito uma fera que se soltara do zoológico ou do circo. Não foram poucas as vezes em que fiquei parado na porta do Bar e Lancheria Treviso, na Rua Marechal, escolhendo as vítimas. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Eu trabalho como autônomo, sempre tive bastante tempo livre. Faço os meus próprios horários, mas hoje eu tenho um pouco de medo, principalmente de apanhar de alguém. As pessoas andam violentas, esse é um mundo de gente muito revoltada. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Hoje esse medo, além de me assustar, me empobrece cada vez mais. Porque eu simplesmente quase não consigo mais sair para trabalhar. Essa sim, esse não. Antes eu ficava ali, na porta do Bar e Lancheria Treviso; cujo dono é meu conhecido, o Sebo. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Parado, escolhendo os assustados, rindo sozinho, imaginando a reação deles. Ria, ria, ria, sozinho, só imaginando. Uma vez o Sebo me perguntou &lt;em&gt;“está rindo sozinho”&lt;/em&gt;? E fiquei imediatamente sério, não quis que ele pensasse que eu estava batendo pino. Mesmo assim ele me olhou com estranheza.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Até hoje acho graça, nas raras vezes em que consigo relaxar, do medo que eu próprio pensava em provocar nas pessoas. Mas também acho que é mesmo um castigo de Deus, tudo isto que acontece comigo hoje. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;E eu tenho a certeza de que não foi por acaso nem simbólico que tudo isso tenha começado dentro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, naquele final de tarde abafada de inverno, num intervalo entre o frio que viria e o outro, que ficou para trás. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Um dia cinzento e feio, daqueles em que a gente se enche de casacos e passa o dia suando, pois frio não há; só há umidade. As paredes da Igreja também suavam, coalhando de gotinhas os desenhos, de antiguidade duvidosa, que mostravam a &lt;em&gt;Via Crucis&lt;/em&gt;, pintada sobre os azulejos azuis vagabundos. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Tive, como mantenho até agora, a nítida impressão de que os três homens, sentados na primeira fila à esquerda do altar, no sentido de quem olhava do púlpito para a nave, estavam lá me esperando, embora o mais baixo simulasse estar, de fato, rezando, e não conversasse com os outros dois. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Esses dois trocavam informações entre si. Ao se iniciar a coleta do dízimo, a caixa de madeira que guardava o dinheiro, recoberta por uma capa de veludo bordô, começou a passar de mão em mão e o que fingia rezar, ainda uma vez simulou não estar junto com os outros. Fingiu também estar sozinho. Alguma coisa nele me denunciou que ele estava acompanhando os dois fascínoras , assim como alguma outra coisa - o Destino? - me obrigou a prestar atenção àqueles três caras, coisa que normalmente eu não faria, assim, de graça. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Quando o terceiro apanhou a caixa do dinheiro, ao invés de passar para o banco de trás e dar sequencia à coleta, ele se levantou e olhou direto para mim, que estava a uns dez metros de distância. E veio em minha direção, decidido, não sem antes olhar para o padre e enfiar algum objeto entre o forro de veludo e a caixa de madeira. Provavelmente um punhal ou um revólver, dos pequenos. O padre estava conivente, não tenho dúvida. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Eles &lt;em&gt;desejavam muito&lt;/em&gt; me matar, isto para mim esteve claro desde o início. Apertei a boca, em desespero. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Aquele foi o meu primeiro baque; acreditei mesmo que fosse desmaiar, senti uma dor insuportável no peito, um medo de gritar dentro da igreja, suor frio; suor nas mãos, um medo terrível e - até aquela hora nunca experimentado - um medo terrível de morrer. Antes de sair correndo da igreja ainda tive a impressão de que o padre percebia a minha fuga e que fazia um gesto, rápido e seguro, para o terceiro, que continuou a vir em minha direção decidido, provavelmente, a me matar naquela hora; com a faquinha ou me estrangulando. Ele parecia ser forte. Consegui despistar os três, apesar do pânico que praticamente me impedia de andar. De andar. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Entrei numa estação subterrânea do metrô, viajei uns 15 minutos e desembarquei em outra estação de superfície. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Tomei o metrô em sentido contrário e por 20 minutos contados no relógio eu via a paisagem das janelas passar correndo: luzes, pessoas, prédios. E não foram poucas as vezes em que eu imaginei um daqueles sujeitos atrás de mim ou alguém enviado por eles, disfarçado, me olhando. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Especialmente um negro velho, com um pequeno rádio de pilhas colado ao ouvido esquerdo, cujo olhar brilhante parecia muito esperto, ou maligno, para ser apenas um velho ouvindo um programa no rádio. E sempre que eu olhava para ele, estava me olhando. Mas fingia que não estava prestando atenção em mim.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Apenas um casal estava acima de qualquer suspeita, no trem. Eles também pareciam escondidos de alguém, mas estavam submersos em algum assunto que era só deles. Eles estavam juntos; pela proximidade dos corpos se via. E trocavam olhares cúmplices. Vez ou outra se roçavam as mãos, aproveitando a redução de marcha do trem nas curvas. Em momento algum se abraçavam ou seguravam, um, a mão do outro ou beijavam-se, na frente dos demais passageiros. Em momento algum. Estavam juntos naquela viagem, mas se via que não podiam, por alguma razão que era só dos dois, mostrar a todos que estavam um em companhia do outro. Estavam solidários e próximos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Os tremores nas minhas mãos se repetiam, um atrás do outro. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;E acho que as pessoas prestavam atenção em mim, provavelmente, assim como faziam os meus carrascos, me atribuindo também elas – as pessoas que estavam no metrô - uma culpa qualquer, que eu sequer imaginava qual fosse. Penso também que talvez me julgassem - os outros, não o negro velho ou o casal que dissimulava a sua união – como sendo mais um daqueles drogados que viajam nos trens. Nunca experimentei qualquer tipo de droga, temendo sair da realidade. E agora a realidade foi quem saiu da minha vida. Tenho medo. E de certa forma eu grito, mas ninguém atende aos meus pedidos de socorro. &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-2809442497617778598?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/2809442497617778598/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=2809442497617778598&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/2809442497617778598'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/2809442497617778598'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2011/06/gritos-conto-de-roberto-schultz-escrito.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-QSyhFFZYtfw/Tgf-Jn8xWAI/AAAAAAAAEJQ/WjGhtBEtgIA/s72-c/velha_assustada.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-6181898314651870188</id><published>2011-06-19T14:40:00.000-07:00</published><updated>2011-06-26T21:35:40.819-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: left;"&gt;&lt;/div&gt;&amp;nbsp;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-F0OSqma2lfU/Tf5sJVHovSI/AAAAAAAAEIY/p3oPKcAYnGw/s1600/judeu_e_islamita.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" i$="true" src="http://4.bp.blogspot.com/-F0OSqma2lfU/Tf5sJVHovSI/AAAAAAAAEIY/p3oPKcAYnGw/s1600/judeu_e_islamita.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-jQfzU8ulOdM/Tf5sKu3svTI/AAAAAAAAEIc/LrY55llhZzo/s1600/th_piscina_casa2_52635154349009e9532fd7.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" i$="true" src="http://3.bp.blogspot.com/-jQfzU8ulOdM/Tf5sKu3svTI/AAAAAAAAEIc/LrY55llhZzo/s1600/th_piscina_casa2_52635154349009e9532fd7.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-jn_qVK33yDI/Tf5sMd5uCVI/AAAAAAAAEIg/YeXkaMce8Ww/s1600/tiara52.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="213" i$="true" src="http://2.bp.blogspot.com/-jn_qVK33yDI/Tf5sMd5uCVI/AAAAAAAAEIg/YeXkaMce8Ww/s320/tiara52.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;&lt;em&gt;AMICHAI&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;Um conto de &lt;strong&gt;ROBERTO SCHULTZ﻿.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Senti um pouco de mal estar e, mais, uma ponta de humilhação que me esquentou o âmago na chegada, ao perceber que o Perez não recebeu-me na porta da frente da sua casa. Ele deveria fazer-me entrar e receber-me no sofá da sala, como conviria à cerimônia cabível a uma pessoa educada, decente, que recebe uma visita. Entrei pelo portão da frente e fui conduzido pela moça que me atendeu por um corredor lateral da casa até o fundo, onde havia o pátio grande e uma piscina de azulejos brancos e meio limosos, antigos, com umas flores e desenhos azuis imitando azulejos portugueses. Talvez eles fossem mesmo portugueses; Belém tem centenas de casarões coloniais do tempo do Ciclo da Borracha. A piscina estava cheia e limpa. O vento suave e até meio frio fazia uns frisos na água.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Fui recebido como se fosse um jardineiro ou pedreiro a ser entrevistado pelo dono da casa, antes de começar a trabalhar para ele. Sentei-me numa das duas cadeiras brancas que havia em torno de uma mesinha, perto da piscina e no sol, que naquela hora ainda estava fraco, esperando que a moça fosse chamar o Perez. Ela me disse &lt;em&gt;“o seu Perez já vem”&lt;/em&gt;. Por causa do tempo de chuvas, e provavelmente porque ali não morasse gente jovem, se via que a piscina não estava sendo usada. E no entorno tudo era meio antigo. Um passarinho pousado no alto de uma mangueira cantava insistentemente, o que passava longe de ser uma coisa boa de &lt;em&gt;“se escutar com as orelhas”&lt;/em&gt;, como dizia o meu tio.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Havia, perto da piscina, outras cadeiras de madeira com algumas ripas quebradas e com as ferragens já enferrujadas, ao invés das habituais cadeiras de plástico ou até feitas de algum material mais moderno e caro. Ricos novos não compram cadeiras de piscina em supermercado como fazem os pobres que moram em condomínios remediados. Ricos velhos mantém o que já tinham antes, no auge da riqueza.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;A grama, nos pontos em que ela deveria representar o ajardinamento da piscina, estava crescida. O bonito ali eram as folhas caídas das árvores, espalhadas pelo chão como numa foto daquelas de banco de imagens ou de um cartão de felicitações. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Não era um lugar decadente, mas andava perto disso. A casa antiga e revestida de velhas placas de granito acinzentado – embora ainda seguramente grande e refinada - ajudava naquela impressão de que alguém um dia botaria tudo aquilo abaixo e construiria ali um edifício, desses que há aos montes em Belém; todos bem estreitos, e que balançam com o vento que vem do Guamá.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Perez chegou vestindo uma calça de &lt;em&gt;moleton&lt;/em&gt; cinza e um robe bordô por cima dela. Calçava (e arrastava) uns chinelos ridículos que muito bem poderiam ser de mulher, feitos de veludo ou de um material parecido, com uma borda de pelos sintéticos no peito do pé. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Atrás dele vinha a mesma moça que me atendeu. Ela carregava, sem bandeja, uma garrafa transparente de um licor amarelo-queimado &lt;em&gt;(“brandy espanhol”&lt;/em&gt;, eu soube depois, Perez me disse) e dois copinhos minúsculos de cristal. Faltavam-lhe mãos para carregar os copinhos e a garrafa, mas Perez não fez qualquer menção de ajudá-la na tarefa. Eu, que já estava humilhado naquela condição de alguém que fora recebido pela porta dos fundos, também não me mexi para auxiliá-la. Ela era a empregada dele, e não eu.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Perez vinha com aquele seu esgar habitual no rosto; com os dentes arreganhados, à mostra, mas com a boca enrugada, de canto; de modo que não se soubesse se aquela merda era um sorriso ou um lamento de dor ou de descontentamento por interromper o que quer que ele estivesse fazendo quando eu cheguei. A voz dele era sempre baixa e vinha das profundezas do seu pulmão, ou do inferno. Era uma tosse, um riso. Não sei direito.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Estendeu-me uma mão pesada, enrugada e fria. Uma mão de unhas amareladas pela nicotina, como as mãos de um morto. Apertei-lhe a mão. Aliás, a pele das mãos dele era cheia de manchas róseas; as chamadas “flores-de-cemitério”, como dizia um amigo meu que se suicidou. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Segundo esse meu amigo, que morreu ainda jovem; não tinha cinqüenta anos - e que se matou porque provavelmente abominasse a simples idéia de ter aquilo nas mãos um dia - quando o sujeito tivesse “flores-de-cemitério” na pele já podia comprar a sua gaveta.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;“Perez” era um prenome, embora todos pensassem tratar-se de um sobrenome e por isso sempre lhe perguntavam pelo seu “primeiro nome”. Ele ria com a boca fechada e pelo nariz, quando acontecia. Odiava a “ignorância dos índios”, como se referia de forma um tanto racista ou superior às pessoas mais simples, principalmente nesta Região onde a Amazônia compôs a descendência indígena como sendo uma boa parte da sua população. Parecia contraditória a existência de um judeu racista. Mas ele demonstrava sê-lo. Seu sobrenome era &lt;em&gt;Amichai&lt;/em&gt;. &lt;em&gt;Perez Amichai&lt;/em&gt;. Orgulhava-se da sua origem judaica e nos anos em que convivi com ele não esqueci que o seu sobrenome Amichai significava &lt;em&gt;“meu povo está vivo”&lt;/em&gt;, em hebraico. Ele repetiu-me esse significado várias vezes.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;O Norte abriga a maior parte dos descendentes de judeus do Brasil. O primeiro cemitério deles em terras brasileiras foi inaugurado aqui. Fugindo da Inquisição, judeus espanhóis (os &lt;em&gt;sefarditas&lt;/em&gt;) migraram para a Amazônia desejando fazer grana e querendo liberdade de culto, isso ainda antes da borracha. E como eram, na sua maior parte, homens, acabaram se misturando com as índias ou outras mulheres locais. Mas só é considerado judeu legítimo quem tem a mãe judia e quem pratica a religião deles. Perez era um judeu legítimo.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Sem dizer uma única palavra, Perez colocou um dos dois copinhos de cristal na minha frente e o outro na frente de si próprio, entornando com calma a bebida amarelada e&amp;nbsp;enchendo até pouco mais da metade cada um deles. Fiquei olhando o sol atravessar os copos e me encantei com a beleza do quadro, esquecendo-me até do que eu fui fazer ali. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;O sol ficou mais forte e já cobria tudo. Perez usava um anel grande com uma pedra vermelha; provavelmente um rubi, na mão esquerda. Um anel retorcido e meio macabro, de ouro branco ou prata pura, como um daqueles usados pelos feiticeiros, ou piratas, dos filmes. A pedra vermelha e o &lt;em&gt;brandy &lt;/em&gt;amarelo nos copos, atravessados pelo sol, pareciam duas raridades roubadas da caverna de &lt;em&gt;Ali Babá e os Quarenta Ladrões&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Perez tinha duas cicatrizes perpendiculares na traquéia, ou no pescoço. Diziam, maldosamente, que ele as tinha porque havia sido engolidor de espadas num circo. Ele nunca desmentiu isso; o que podia ser verdade ou apenas uma cortina para criar mistério em torno de si mesmo. Todo mundo gosta de um pouco de mistério. É como escrever palavras em romeno, ou em búlgaro, ou em turco, cheias de consoantes e de tremas. Ninguém as entende, mas parece que aquelas palavras encerram, por si sós, mistérios cinzentos e antigos.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Bebemos, sem brindar.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Por causa da lembrança do brinde, ou da ausência dele, eu lembrei-me imediatamente de Marília e do seu cabelo incrivelmente loiro, quase branco. Sobretudo quando estava amarrado num pequeno rabo-de-cavalo, ainda que fosse curto. Dos seus olhos azuis e dos seus lábios grossos para alguém tão loura. Sua pele branca e lisa como um bombom &lt;em&gt;Ouro Branco&lt;/em&gt;. Uma vez vi uma foto de Marília, ainda criança, num perfil seu feito para o jornal e me espantei e enterneci com o que vi. Os olhos dela eram perplexos e incrivelmente puros. Os olhos de todas as crianças são puros. Mas os dela - não apenas por serem azuis, como um estereótipo estrangeiro – naquela foto de criança eram expressivos da sua absurda inocência.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Marilia que não bebia nem água mineral sem fazer um brinde, ao que quer que fosse, mesmo sem um motivo. Fazia questão do brinde. Eu, da minha parte, nas poucas vezes em que bebia em companhia dela, tinha todas as razões do mundo para erguer e chocar o meu copo contra o dela. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Aguardava, ansioso, pelas palavras que ela punha todas as semanas na sua coluna do jornal em Ananindeua. Suas palavras, embora devoradas com os olhos, eram percebidas e sentidas por mim como se estivessem caindo direta e lentamente sobre as minhas papilas gustativas, tamanho era o prazer que me causavam. Demorava a me chegar aquele texto. E sempre valia a pena esperar, porque eu o lia e relia com o entusiasmo da primeira vez.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Das palavras que saíam dela eu retirava, para meu próprio consumo, coisas belas, ou ácidas, ou que eu simplesmente julgava importantes. Não sei se aquilo lhe saía de chofre, num ímpeto, ou se ela ia construindo tudo com dedicação e esmero, minuto a minuto, refletindo e reescrevendo. O fato é que eu, lendo, tinha a certeza de que as aproveitava bastante, como se elas me nutrissem o corpo. Era como se Marília elaborasse a jóia e eu lhes desse o acabamento final, polindo-as, com os meus olhos ávidos e não destituídos de paixão.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Perez teve a descortesia, como sempre, de tirar-me daquele idílio em poucos segundos. E fez isso usando um assunto espinhoso. Embora eu reconheça que ele estivesse tentando, com aquele assunto, me igualar a ele; tentando uma aproximação, um ponto em comum. Não era sem um interesse próprio que aquilo ocorria. Não seria burro de pensar que ele queria apenas me agradar. Mas, do seu jeito, isso representava uma transigência.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;- &lt;em&gt;Sabe que nós, os judeus, somos perseguidos há séculos? Não estou falando desse drama todo que os americanos, no cinema, fizeram com o Holocausto. Esse foi apenas o mais recente; talvez o maior, dos nossos dramas, mas não o único. E além do mais, os grandes estúdios de cinema são todos comandados por judeus. Então essa é uma visão unilateral e paternalista, dos meus patrícios.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Riu. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Eu não olhava para ele, prestava atenção a uma fileira de formigas pretas que carregavam folhas e pedacinhos de outras coisas e de outros insetos, pelo chão. Uma delas carregava, com bastante esforço, um toquinho de madeira. Parecia um desses fragmentos de árvores.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Nas minhas brincadeiras de infância, as formigas pretas eram as boazinhas, porque não picavam (dizíamos que elas “mordiam”) a gente. Na verdade picavam, mas não doía, acho que elas não tinham um veneno forte como as vermelhas que eram do mesmo tamanho delas ou que as temidas saúvas, maiores que as duas e que matavam a ambas. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;As bem pequenas, minúsculas, que construíam grandes formigueiros, também tinham uma picada terrível. Com essas, antes que elas nos picassem, realizávamos uma espécie de vingança prévia. Movidos pelos filmes de guerra, onde víamos os aviões americanos despejando o devastador &lt;em&gt;napalm&lt;/em&gt; sobre as aldeias do Vietnã, queimávamos um tubo plástico de água sanitária, cuja matéria derretida íamos despejando sobre o formigueiro das pequenas vermelhas, as &lt;em&gt;vietnamitas&lt;/em&gt;. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;O efeito visual dessa crueldade contra os insetos era bonito, pois o plástico queimado ficava com uma chama azulada e ia fazendo um ruído crepitante de lava vulcânica derramada sobre as atônitas formigas. Aquilo destruía o formigueiro, matava “o inimigo” e ao mesmo tempo petrificava algumas, já que o plástico, ao esfriar, endurecia.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Essas formigas pretas enfileiradas no chão do pátio de Perez eram as boas. Como elas, na minha infância, não se defendiam, e sequer brigavam com as vermelhas de mesmo tamanho, nós atiçávamos umas contra as outras, ajudando às pretas. Bastava pegar uma das vermelhas “pelo pescoço”, a fim de que não nos mordesse, e, tendo ela imobilizada, abrir as pinças das pretas sobre o “pescoço” das vermelhas. Do resto, o instinto do inseto se encarregava, pois obviamente a formiga preta fechava suas pinças e “mordia” o pescoço da outra, quase sempre decepando a cabeça da formiga vermelha, a bandida.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Eu era capaz de ficar por horas fazendo isso. Tinha alguns amigos, mas, de um modo geral, eu era um menino solitário. E interferir na vida e na paz das formigas era um dos meus passatempos contemplativos.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Perez notou o meu interesse pelas formigas.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;- &lt;em&gt;Faz tempo que eu tento eliminar elas daqui. Acabam com a minha grama. Você sabe se tem alguma coisa que seja bom para matar esse tipo de formigas?&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;- Napalm -&lt;em&gt; &lt;/em&gt;eu respondi -&lt;em&gt;&amp;nbsp;mas essas são as formigas &lt;/em&gt;boas&lt;em&gt;.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Boas? E onde vou arranjar &lt;/em&gt;napalm&lt;em&gt;?&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Perez riu, com seu riso-tosse encatarrado. Ele não me parece alguém que tenha brincado com as formigas na infância e provavelmente achou que eu estivesse falando do explosivo utilizado pelos americanos no Vietnã e não de um tubo derretido de água sanitária.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;- &lt;em&gt;O assunto da minha mãe...Perez. Eu queria resolver isso logo.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;&lt;em&gt;- Sabe quanto custou enterrar a sua mãe no Líbano como ela e você queriam?&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;- &lt;em&gt;Nem quero saber.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- Pois é. Você não quer saber, não é? &lt;/em&gt;Tossiu.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;- &lt;em&gt;Não.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;&lt;em&gt;- Pois é. O meu povo, mesmo que você não queira saber, me cobra muito caro por esse tratamento que a sua mãe recebeu da minha parte. Esse tratamento que você não reconhece. E esse “caro” não foi só em dinheiro, muitos dólares. Não. Foi em prestígio, amizades. O “jeitinho” como dizem aqui no Brasil. Só que o “jeitinho” foi dado lá no Oriente Médio. O belo tratamento que eu dei para a sua mãe.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;- &lt;em&gt;Para a minha&lt;/em&gt; mãe morta&lt;em&gt;.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;&lt;em&gt;- O que?&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;em&gt;- O seu tratamento foi para a minha&lt;/em&gt; mãe morta&lt;em&gt;. Não foi para a minha mãe. Foi para o cadáver dela.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;- &lt;em&gt;Dá no mesmo. Em vida, eu paguei o mesmo preço por ela...para conviver com ela, perante os judeus da minha comunidade. Dá no mesmo.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;&lt;em&gt;- Não dá no mesmo, não. Porque um judeu filho de uma puta como você...&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;- &lt;em&gt;Olha a porra do respeito. Cala essa sua boca suja !!! Cala essa boca suja na minha casa !! Quem é você para falar mal dos judeus? Quem?Para me ofender aqui dentro da minha casa?Ofender o meu povo? Você acha que é diferente de mim? Esqueceu, né? Esqueceu do que você é. &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Ele gritou e a voz dele, gritada, era ainda mais cavernosa. Era uma voz que vinha das profundas do Inferno. Ele tinha um hálito de terra úmida, cheia de vermes. Um cheiro igual ao de algum lugar onde havia um filete de água permanentemente pingando e umedecendo tudo, vertendo das pedras e se infiltrando nas frestas. Uma vez vi um cara falando a outro sobre o “caldo do morto”. O caldo que escorre da sepultura quando o morto está se decompondo. O caldo do morto escorria da garganta de Perez, quando ele falava.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;- &lt;em&gt;Muito dinheiro para o “jeitinho”, né, Perez Amichai? Fichinha para um representante do tal Mr. Rabinovich.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Ele torceu a boca e olhou direto para as formigas.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Um artigo do jornal americano &lt;em&gt;New York Times&lt;/em&gt;, de 1997, amarelado, que encontrei guardado dentro de um livro na antiga casa de Perez, no tempo em que eu convivia com ele (como se fosse o seu capacho), falava sobre o tal Rabinovich.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Esse Rabinovich, que não sei se hoje está morto ou se está vivo, pelo que dizia o jornal, era um milionário judeu ucraniano que passou uma temporada em cana nos Anos 80 por roubo e que tinha ligações com a máfia judaica da Ucrânia. Esse negócio de máfia sempre parece coisa de filme, e geralmente envolve italianos. Mas ela existe de verdade e não são apenas os italianos, os mafiosos.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Perez, no Pará; e desconfio que em todo o Brasil e na América do Sul, apresentou-se mais de uma vez na minha frente, ou por telefone, a outras pessoas, como sendo o &lt;em&gt;“representante de Mr. Rabinovich”&lt;/em&gt;. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Não sei se isso era um blefe ou se era verdade, e sequer sei se ele falava sobre o mesmo Rabinovich da noticia do jornal. Mas pelo padrão de vida de Perez, que aparentemente não fazia porra nenhuma na vida, desconfio que fosse verdade. Por minha dedução lógica, Perez era um servo fiel da máfia de judeus da Ucrânia, atuando por aqui. Quem sabe por se tratar de um lugar estratégico, na beira desta imensa e sagrada&amp;nbsp;Floresta.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Depois da minha menção ao ucraniano, Perez largou de vez o copo do seu &lt;em&gt;brandy&lt;/em&gt; espanhol &lt;em&gt;sefardita&lt;/em&gt; e passou a remexer, meio nervoso, no bolso esquerdo da calça de &lt;em&gt;moleton &lt;/em&gt;que vestia. E tirou lá de dentro o &lt;em&gt;masbaha&lt;/em&gt; que era da minha mãe. Eu reconheceria aquele objeto, mesmo que estivesse no meio de outros iguaizinhos. Aquele &lt;em&gt;masbaha&lt;/em&gt;, meio gasto pelo uso, era sagrado para ela, pois com ele ela fazia sempre as suas orações. Perez teve o cuidado de não jogá-lo em cima da mesa, mas de depositá-lo com cuidado, certamente para não ofender-me ainda mais do que eu já lhe parecia ofendido. Ele, cético como sempre foi, certamente enxergava num objeto sagrado como aquele uma bobagem. Depois tirou do dedo o seu anel retorcido de bruxo e pos ele em cima da mesinha, provavelmente com isso também o entregando a mim.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Do outro bolso ele tirou um papel e uma caneta. Os empurrou na minha direção.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif;"&gt;- &lt;em&gt;Anota o banco e a sua conta. O seu CPF e o RG. O Endereço completo. Telefone. &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;&lt;em&gt;- Pra que o meu endereço?&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;&lt;em&gt;- Pode botar o verdadeiro, não vou lhe incomodar. É para a escritura. Vamos lhe adiantar uma parte em dinheiro e o resto vai ser escriturado, por doação. Uma escritura feita no cartório. O Efraim vai te ligar no dia em que marcarem a assinatura no cartório.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Anotei no papel os dados que ele me pediu. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;, sans-serif; font-size: large;"&gt;Peguei o &lt;em&gt;masbaha&lt;/em&gt; da minha mãe, uma honrada mulher árabe, que teve um filho bastardo com um judeu. Um filho que foi criado como se fosse um empregado desse judeu. Uma história comum. Levantei-me e fui embora, sem pegar o seu anel retorcido com a pedra vermelha. Ele ficou sentado lá. Nunca mais vi o meu pai. Nem sei se está morto ou vivo, ainda que provavelmente carregando aquele seu hálito úmido da Morte. &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-6181898314651870188?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/6181898314651870188/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=6181898314651870188&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/6181898314651870188'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/6181898314651870188'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2011/06/amichai-um-conto-de-roberto-schultz.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-F0OSqma2lfU/Tf5sJVHovSI/AAAAAAAAEIY/p3oPKcAYnGw/s72-c/judeu_e_islamita.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-1529353632158690192</id><published>2011-06-04T19:14:00.000-07:00</published><updated>2011-06-04T19:14:25.388-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-zU5b9V910Qk/TermYPs451I/AAAAAAAAEEE/-G-9iGm4VRA/s1600/pai.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="232" src="http://2.bp.blogspot.com/-zU5b9V910Qk/TermYPs451I/AAAAAAAAEEE/-G-9iGm4VRA/s320/pai.jpg" t8="true" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: #274e13; font-size: x-large;"&gt;NÃO FAZ MAL&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;(conto publicado na Antologia &lt;strong&gt;&lt;em&gt;TRAVESSIAS SINGULARES&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;, Editora &lt;em&gt;Casarão do Verbo&lt;/em&gt;, Bahia)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: #134f5c; font-size: large;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Roberto Schultz&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Pouco antes do meu pai morrer, foi o tempo que eu mais convivi com ele.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Eu chegava meio agitado do trabalho e ele estava lá, parado. Sempre com a mesma cara séria. Acenava com a cabeça, olhava-me e expressava um sorriso rápido, que não queria dizer nada, acho. Significava um “oi”, talvez. Sem aperto de mão; sem beijo. Nunca fomos de muita beijação. Culpa dele. Não nos acostumou assim, com carinhos, como a mãe fez.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Dormia no quartinho da empregada, o meu apartamento era pequeno. E, mesmo sozinho em casa, enquanto eu trabalhava fora o dia inteiro, ele não saía daquele quarto. Eu sempre lhe pedia que dormisse na minha cama, maior e mais confortável. Quis ceder-lhe o meu quarto; eu dormiria no menor. Que assistisse à minha televisão de tela plana e de muitas polegadas. Ligasse o ar condicionado. Usasse as minhas coisas; as minhas roupas até, caso sentisse frio. Não adiantava. Esquentava a comida numa pequena panela de alumínio amassado que trouxera de casa e a comia. A isso se resumia o seu dia. Talvez dormisse o dia inteiro, não sei.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Quando eu chegava em casa, no final da tarde, ele estava sentado na porta do quarto, encostado na soleira, num banquinho de madeira, olhando para fora, pela janela da área de serviço do apartamento. Vestia um casaco de pijama gasto e amarelado, puído nas mangas. Trazia sempre o mesmo pente de tartaruga no bolso. E o cabelo, ainda preto para a sua idade, cuidadosamente penteado para cima. Com &lt;em&gt;Trim&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Ultimamente, na minha chegada, eu o surpreendia com o rosto levantado, olhando para o alto. Trazia sobre a fronte, na altura das têmporas, duas fatias de batata inglesa. Aquilo aliviava-lhe a dor. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;No pescoço mal barbeado, cheio de cabelos grisalhos, incomodavam-me aquelas suas trilhas cor azul de metileno, como que pintadas por um pincel atômico, demarcando os limites da aplicação de radioterapia. Eu sei que aquelas marcas também o constrangiam; era mais um motivo para não sair à rua.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Sentiu dor, hoje?”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Pouca. Alivia, com as batatas.”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“O senhor me lembra de comprar mais batatas, então...”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Tem bastante.”&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;No chão da área de serviço, enfileirados como carros num estacionamento, estavam todos os meus sapatos que ele encontrara no armário. Brilhando, engraxados. Ele se achava um estorvo para mim e, por isso, tinha de retribuir a hospedagem que eu lhe dava engraxando os meus sapatos ou passando um pano de chão molhado no piso da cozinha.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Pai, você engraxa os meus sapatos em um mês muito mais vezes do que eu os engraxei em dois anos. Não precisa”.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Não faz mal.” &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;E mudava de assunto. A nossa família era toda assim, evitava-se os confrontos mudando de assunto.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Porque o senhor não desce, pra conversar com o Tranquilo na portaria, ao invés de ficar engraxando sapatos? Ele gosta de conversar com o senhor, falar de futebol. Agora mesmo ainda estava lá, com o rádio ligado na jornada esportiva, fica até as sete e meia. Perguntou pelo senhor. Convidei-lhe para ver o jogo com a gente, aqui, amanhã.”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Mudou de assunto de novo, para que eu não o impedisse de engraxar os meus sapatos.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Viu o que é esse Governador eleito? Um sujeito sem eira, sempre enfarado, com aquela cara de cheira-peido, parece que não gosta do povo. Ele que mexa com a aposentadoria. Ele que mexa! Já tem milico se coçando de novo no quartel, com o dedo no gatilho da parabela”.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Não tem perigo pai, eu já lhe expliquei. Na aposentadoria só quem pode mexer é o Ministério, em Brasília. O Governador só mexe com os funcionários do Estado. E os milicos estão ganhando menos do que o senhor e mesmo assim estão todos borrados.”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Não faz mal. Quer mexer com os velhos aposentados, esse bosta!”.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Eu morava sozinho, depois da separação. Meus filhos moravam com a mãe. Meu pai, doente e fazendo exames num hospital da capital, ficava por uns tempos comigo. Câncer.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Ele sentia saudade dos netos e pedia que eu os levasse para vê-lo. Eu explicava, todas vezes, que os horários de visitas tinham sido divididos entre mim e a minha ex-mulher, na frente do juiz. Ele não entendia.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Os meninos vêm amanhã de novo? Tem o jogo na televisão”.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Não dá. Amanhã é quarta, pai, e eles já vieram no domingo. Não pode. Têm de ficar com a Trudi.”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Você tem medo dessa mulher. Sempre teve.”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Não é verdade. Tenho medo é do juiz. Ele pode mandar me prender.”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Com muita insistência eu o levava, vencendo o meu próprio cansaço, a passear na praça, nos finais de tarde, depois do trabalho. Por uma boa parte do tempo em que ele esteve hospedado na minha casa, vigorou o horário de verão. Ficávamos na praça até escurecer e escurecia tarde. Sentávamos, um ao lado do outro, num banco que era duas muretas de concreto atravessadas por tábuas duras, assento e encosto.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Dói a bunda, né?”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Não faz mal. Aqui é bom. Tem cheiro de eucalipto e sabiá cantando”.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Ele nunca me disse o quanto reprovava aquela vida de quartinho e apartamento, radioterapia e o rosto riscado com trilhas azuis arroxeadas. Mas resignava-se com ela. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;E não porque fosse um conformado, mas porque era um ansiado como eram todos os da nossa família; tios, primos, eu. E aquela resignação que ele nunca teve, vinha justamente da ânsia de ficar curado logo do câncer que lhe rasgava pacientemente a garganta e cuja dor ecoava por toda a sua cabeça.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Sentado sob os eucaliptos ele suspirava, disfarçado, de olhos fechados, e fingia que não estava numa cidade que lhe oprimia e incomodava. Ouvia os sabiás e os bem-te-vi faceiros e decerto imaginava-se sentado na sua cadeira com assento de lona, debaixo da parreira que havia na sua casa no interior; onde eu também morei até me casar com a Trudi. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;O pó, que com o vento se levantava do chão da praça e nos entrava pelo nariz; as folhas fininhas e secas dos eucaliptos que caíam sobre as nossas cabeças; o cheiro sutil e familiar da fumaça de grama queimada que vinha de algum lugar perto dali, tudo isso por certo dava a ele a sensação do pátio de casa. Faltavam um cachorro latindo ou um galo intempestivo cantando.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Um dia, no calor da conversa, segurei a sua mão por alguns instantes. Aquilo deixou-lhe tenso, mas ele pareceu deixar que eu a segurasse até entender o que o ato significava. Ficamos de mãos dadas por um ou dois minutos, enquanto os carros passavam. O meu coração estava disparado; o dele também devia estar. Eu, tanto quanto ele, não tinha a naturalidade que o gesto exigia. Num arranco, ele a puxou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“O que houve, pai?”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Vão achar que nós dois somos uns &lt;em&gt;putos&lt;/em&gt;, de mãos dadas.”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Que achem. Eu sou seu filho, porra!”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Então me respeita!”, firme, mas com a sua voz vacilante e rouca de velho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Tá certo, pai.”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Meu pai limitava o seu afeto unicamente à gentileza ou ao provimento da casa. Ser pai era não deixar faltar nada material na vida dos filhos. Comida, roupa, colégio, remédio, Natal, Páscoa e aniversário. Não bater, não gritar. Tudo sem mãos dadas ou beijos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Ele havia sido garçom por muitos anos, no Clube Comercial de São Gabriel. Uma cidade pequena, cuja nata era formada por fazendeiros e militares. Atender bem, não puxar conversa com os clientes. Pentear o cabelo, se barbear. Vestir um casaco branco limpo e engomado. A gravata borboleta desbotada, porém limpa. Unhas aparadas. Não reclamar. Servir. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Passou uma mulher caminhando devagar e olhou-me, discreta mas firmemente.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Mulher bonita é outra coisa”, disse-me, apontando com o queixo, depois que ela passou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“É verdade”, concordei. “É outra coisa”. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;As mulheres bonitas não faltaram na minha vida. Nem as feias. Aquela que passou não era bonita. Era uma gordinha lustrosa, cheia de badulaques dependurados. O perfume dela chegou até onde estávamos. Perfume barato, desses de catálogos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“E bem cheirosa”, suspirou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Uma rosa”, comparei. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Nem pensei no perfume que ela estaria usando. Ele não entendeu.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Alfazema”. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Hã?”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Isso não é rosa, é alfazema.”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“É verdade pai, eu não reparei direito. Alfazema mesmo. Acertou na bucha.”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;O único perfume que ele conhecia era alfazema; perfume mais usado por homem do que por mulher, água de colônia barata. Em nome disso todo perfume, para ele, era alfazema. Não me custava concordar. Ele ficava feliz com a esperteza do seu faro.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Um dia as rodelas de batata deixaram de causar-lhe alívio e ele começou a sofrer, dia a dia, com dores lancinantes, na garganta e na cabeça. Milhares de pontas se cravavam, impiedosas, na sua pele. O tratamento já não adiantava mais. O câncer venceu até mesmo a morfina. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Descrevia a dor que sentia do seu jeito interiorano. “Parece que eu engoli carrapicho”.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Foi hospitalizado. Essas coisas sempre acontecem com os outros; nunca com a gente. A esperança, como acontece com todo mundo, era agora uma mão adormecida, formigando; ela estava lá mas eu não a sentia direito. Até que ela se acabou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Um dia o médico ligou-me do hospital e disse “venha agora, as coisas não estão muito fáceis por aqui.”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Cheguei. Os olhos do meu pai estavam embaçados e pequenos, pareciam duas uvas sem casca. O médico e duas enfermeiras estavam ao lado da cama, anotando alguma coisa. Ele estava meio sentado, com a ajuda deles. Uma das enfermeiras aplicava-lhe uma injeção peridural contra a dor. A morfina deixava-lhe bobo e a sua língua, que provavelmente ele nem sentia mais, estava engrolada; difícil. Ele deitou-se novamente. O médico pediu-me que falasse com ele; qualquer coisa.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Aproximei-me da cama e fiquei de pé, ao lado dela. Cumprimentei o meu pai, perguntei como ele se sentia. Ele me olhava, fraquinho, sem responder. A morfina recém aplicada certamente se espalhava no seu corpo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;O homem que me punha no mundo; a força que me sustentou; o remédio e a solução para tudo, quando se é criança. A defesa contra o medo do perigo; do ladrão e do desconhecido. A primeira e também a única segurança que eu jamais reencontrei depois de cair sozinho na vida. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Meus braços estavam ao longo do corpo, quase ao lado da mão esquerda dele. Ele mexeu a mão uma vez, roçando a sua aliança de ouro na minha mão. Não fiz nada. Mexeu a mão de novo. Afastei a minha, de leve. Mexeu uma vez mais. Eu, nada. Uma das enfermeiras viu e ficou impaciente com a minha aparente indiferença.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Ele quer segurar a sua mão!”, ela me disse, meio aflita. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Fiquei um pouco nervoso, temendo a reação dele. Eu suava frio. Mas segurei a mão fria e enrugada do meu pai. Olhei para ele. Ele me disse alguma coisa, que eu não entendi. Pedi-lhe que ficasse calmo. Menti que a dor ia passar logo. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Ele tentou me dizer alguma coisa de novo, agitado. Provavelmente reclamava de eu estar segurando a sua mão na frente do médico e das enfermeiras; iam achar que nós dois éramos putos, aquelas coisas. Afrouxei um pouco a mão e ignorei o que ele tentava me dizer, mas ele não largava a minha mão. Tentou falar, mais uma vez.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Pressionado pela cara implacável da mesma enfermeira e pela apreensão dos demais, aproximei o meu rosto do dele e finalmente consegui entender o que ele me dizia, com a sua língua de chumbo, cuspindo a saliva com um cheiro azedo de remédio e de morte:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;“Não faz mal”, disse baixinho em meu ouvido, apertando-me a mão mais um pouco. Morreu naquele dia.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-1529353632158690192?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/1529353632158690192/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=1529353632158690192&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/1529353632158690192'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/1529353632158690192'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2011/06/nao-faz-mal-conto-publicado-na.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-zU5b9V910Qk/TermYPs451I/AAAAAAAAEEE/-G-9iGm4VRA/s72-c/pai.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-7246018541848741470</id><published>2011-05-19T11:33:00.000-07:00</published><updated>2011-05-19T18:40:19.183-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-5Kh-j-Nvrfc/TdVd8zrA9yI/AAAAAAAAD-8/0C24Ki5_iRw/s1600/100730fogorussia_f_019.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="213" j8="true" src="http://1.bp.blogspot.com/-5Kh-j-Nvrfc/TdVd8zrA9yI/AAAAAAAAD-8/0C24Ki5_iRw/s320/100730fogorussia_f_019.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-0ugWw0Bqb18/TdVeCcXEvTI/AAAAAAAAD_A/1yl7fQGmdUU/s1600/RUINAS-EM-SAO-CAETANO-MG.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="240" j8="true" src="http://2.bp.blogspot.com/-0ugWw0Bqb18/TdVeCcXEvTI/AAAAAAAAD_A/1yl7fQGmdUU/s320/RUINAS-EM-SAO-CAETANO-MG.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-bLqND-jubwI/TdVhmX1h_HI/AAAAAAAAD_E/yyp4IBnZfJY/s1600/AVidantimadePippaLee1.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="213" j8="true" src="http://1.bp.blogspot.com/-bLqND-jubwI/TdVhmX1h_HI/AAAAAAAAD_E/yyp4IBnZfJY/s320/AVidantimadePippaLee1.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;﻿&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;O que eu sou hoje é terem vendido a casa,&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;É terem morrido todos,&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;(Aniversário, FERNANDO PESSOA)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;strong&gt;INCOMPREENSÃO DIANTE DAS RUÍNAS DA CASA.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: x-small;"&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;Por &lt;strong&gt;Roberto Schultz&lt;/strong&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;O homem estava diante do portão; estático e com um olhar opaco feito uma uva sem casca, olhando para as ruínas da casa. Não, diante do portão não -&amp;nbsp;que o portão ficava mais à direita, no outro extremo -&amp;nbsp;e sim&amp;nbsp;diante de onde fora uma das portas&amp;nbsp;por onde se entrava nela e que davam direto na calçada da avenida. Era um dia carregado, cinza, soturno e vazio de qualquer brilho. Era um dia de imensidão; um dia de eco e de gritos não ouvidos; de vento, quando nem os passarinhos piavam e nem as crianças brincavam pela rua. Era um dia daqueles nos quais alguém mete uma bala na cabeça, por conta da insuportável ausência de uma pessoa ou mesmo de uma vida que esse alguém já viveu e que se foi embora, perdida no ralo indiferente do esquecimento dos demais. As pessoas, nesse dia, não queriam estar nos parques passeando com os seus cachorros ou com as suas crianças. As pessoas queriam estar encerradas em si mesmas, quietas e sem assunto. Sem motivos e sem intenções. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;E ali estava o homem parado no portão, olhando para as ruínas da casa. Olhando, somente, como se ele fosse uma alma foragida do cemitério que voltasse anônima e invisível - como só acontece às almas - à casa onde havia morado, mesmo que nesse caso isso não fosse verdade: ele não era uma alma errante e nunca morou ali. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Ou, estando ali, mesmo vivo, porém como um daqueles viventes que pensa na mãe morta, e irremediavelmente morta, porque só os espíritas acreditam que podem comunicar-se com os mortos. Ninguém mais. E os mortos, de fato, não voltam e as suas almas, em regra, se esvaem como fumaça da chaminé; não vão e nem voltam de lugar algum, ao contrário do que muita gente pensa e até espera.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;A ruína da casa era feita de madeira e de tijolos. Ali &lt;strong&gt;eles&lt;/strong&gt; habitaram. Junto com parte dos sonhos do homem, &lt;strong&gt;eles&lt;/strong&gt; - dos quais ele nunca fez parte - habitaram de verdade naquela casa onde ele jamais pos o seu par de tênis, mas onde de certa forma sempre esteve, clandestino e não-autorizado, por vários anos. Mesmo nunca tendo se sentado à mesa da casa, ou caminhado naquele resto de piso que agora era apenas um pedaço de cimento quebrado com um amontoado de tijolos e de cavacos de madeira, era vertiginosa a sua sensação de perda. A casa não existia mais. Só havia duas ou três paredes de tijolo que foram um dia o amparo do resto daquela morada, que um dia fora quase&amp;nbsp;toda construída em madeira. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;A casa que foi, por anos, a sua referência na avenida e no bairro, em todas as vezes em que passava por ali, de fato não existia mais. Essa casa pela qual, por tantas vezes, mediante elaboradas manobras, ele evitou cruzar a pé pela frente, na sua calçada, já não lhe oferecia o risco antes existente; o risco de ver o que não desejava, emanando das vidas que ali habitavam levando a normalidade da sua existência. Pela simples razão de que agora vida alguma habitava ali: nem casa havia mais.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Antes, só ousava passar na frente da casa de automóvel ou de condução e, mesmo assim, muito rápido, quando a casa estava erigida e &lt;strong&gt;eles&lt;/strong&gt; ainda se movimentavam no seu interior. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Agora não. Dava-se ao luxo não apenas de passar na frente dela caminhando; como caminhando bem devagar e até - o que teria sido uma extrema ousadia em outros tempos - a de parar na sua entrada e ficar contemplando o terreno, como fazia naquele exato e estático momento. O homem somente dava-se conta da &lt;em&gt;exatidão&lt;/em&gt; daquilo ao materializar essa ausência estando parado na entrada da casa, que agora estava destruída e exposta ao público e à indiferença que recebe uma casa demolida. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Em breve construiriam ali um prédio impessoal e virgem de vivências, algo que soterraria irremediavelmente a seiva que daquela terra, e daquelas paredes derrubadas, e de uma pessoa que ali morou, o homem teve um dia. A seiva. A seiva vibrante de gente que, muito pior do que ter morrido, continuava bem viva. Em outro lugar e vivendo outras coisas que não lhe diziam respeito, como se fossem corpos não devolvidos pelo mar e dos quais não se tinha a absoluta certeza da sua sobrevivência e tampouco das suas mortes.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Não era a primeira vez que se quedava, ali, estático, olhando a ruína. E dentre os escombros procurava a compreensão do que se passara. Do que fora e do que vivera com aquela outra alma que agora, distante dali, não imaginava nem por segundo sequer que ele, o homem, estivesse tão fisicamente próximo do que restou daquela casa. Parado, olhando, tomado pela incompreensão de tudo.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;O mais estranho, refletia o homem, era que embora apenas uma daquelas pessoas que ali vivera tinha a ver consigo e com a sua experiência tão forte, não pensava com rancor, ressentimento ou mágoa em relação a todos &lt;strong&gt;eles&lt;/strong&gt;, mesmo que sequer conhecesse os demais, a não ser de uma maneira permitida pelas circunstâncias e puramente superficial. Convenientemente distante. Antes da compreensão, procurava um resto do vivido por &lt;strong&gt;eles&lt;/strong&gt;, todos, e não apenas pela pessoa que lhe interessava, porque não queria deixar morrer aquela vivência. Tão forte e tão pura e em alguns momentos; tão boa e ao mesmo tempo tão ruim e tão destrutiva como as marretas que certamente derrubaram a casa, comandadas por alguém contratado para fazê-lo.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Procurava apenas, com os olhos e sem se mover, um porta-retratos esquecido no meio das coisas velhas que foram deixadas para trás. Um elástico de cabelo, verde-limão ou rosa-choque, desses de prender o cabelo das mulheres, que -&amp;nbsp;por sua cor extravagante - &amp;nbsp;se enxergasse de longe no meio do entulho. Um bibelô; um pano de chão que um dia fora uma blusa. Um pé de sapato feminino. Escavaria a terra preta com as unhas e removeria os cacos de cimento, e de tijolo, e os fragmentos de madeira, enfim, caso não temesse a reprovação ou a censura das pessoas que eventualmente passassem por ali e o vissem fazendo isso. O tomariam por um morador de rua, ou por um papeleiro, ou por um louco, simplesmente.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Foi com melancolia que percebeu que um cachorro fuçava o chão daquele que foi o segundo piso da casa. E que esse cachorro o fazia impune, sem que alguém o enxotasse, o que lhe deu a ainda mais exata dimensão do abandono do lugar. Era irrelevante como o cachorro havia conseguido subir até lá, já que a escada havia sido derrubada e, da mesma forma, era irrelevante interessar-se em como o bicho desceria sozinho daquela altura. O relevante, para o homem que olhava, era que ninguém se importava em que um cachorro ocupasse aquele que foi um cômodo da casa, um dia. E o tanto mais que isso significava no sentido de que ninguém voltaria a morar naquele lugar, ou que &lt;strong&gt;eles&lt;/strong&gt;, sobretudo, não voltariam a ocupar aquele lugar, e nem a reconstruir a casa. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Aquela era, de todo, mais uma confirmação da perda daquela referência na sua vida. E tudo aquilo era apenas mais&amp;nbsp;um pensamento, dentre tantos outros corriqueiros, como pagar a conta da água ou cortar o cabelo, porque irremediavelmente nada mais daquilo tudo poderia ser vivido novamente um dia. Pensamentos vãos, daqueles que se tem com o olhar parado; na verdade olhando para lugar algum.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Não havia, ali, nem muro, e nem portão e nem as paredes, ou havia apenas uma parte delas, com seus cacos de madeira esparsos pelo chão. Não havia mais um resto de móvel, a perna de uma cadeira. O trapo de uma cortina, uma boneca sem cabeça. Não havia livros rasgados e cobertos de pó de tijolo, sequer uma revista. Acontece que &lt;strong&gt;eles&lt;/strong&gt; já não estavam mais ali, e nem os seus rastros deixaram naquele sitio.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Estranho era, de fato,&amp;nbsp;que o homem pensasse, naquele momento, sempre - e inquietantemente -&amp;nbsp;em &lt;strong&gt;eles&lt;/strong&gt;, quando o que lhe interessava naquele momento era apenas lembrar-se &lt;strong&gt;&lt;span style="color: #0b5394;"&gt;dela&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;. &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-7246018541848741470?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/7246018541848741470/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=7246018541848741470&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/7246018541848741470'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/7246018541848741470'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2011/05/o-que-eu-sou-hoje-e-terem-vendido-casa.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-5Kh-j-Nvrfc/TdVd8zrA9yI/AAAAAAAAD-8/0C24Ki5_iRw/s72-c/100730fogorussia_f_019.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-7115094351871092880</id><published>2011-05-14T13:27:00.000-07:00</published><updated>2011-05-14T13:27:02.819-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-bRYlqIbHx4A/Tc7lE_U84RI/AAAAAAAAD-A/IgHOfGVTE3c/s1600/DSC00278.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="240" j8="true" src="http://2.bp.blogspot.com/-bRYlqIbHx4A/Tc7lE_U84RI/AAAAAAAAD-A/IgHOfGVTE3c/s320/DSC00278.JPG" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-drg8EsOuwhU/Tc7lPHWN5ZI/AAAAAAAAD-I/Lr5jkW0NnT4/s1600/restaurant-alone.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="213" j8="true" src="http://4.bp.blogspot.com/-drg8EsOuwhU/Tc7lPHWN5ZI/AAAAAAAAD-I/Lr5jkW0NnT4/s320/restaurant-alone.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: x-large;"&gt;&lt;strong&gt;BELMIRO&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: x-small;"&gt;(conto de &lt;strong&gt;ROBERTO SCHULTZ&lt;/strong&gt; escrito por volta de &lt;strong&gt;2006&lt;/strong&gt;)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Deixe estar que o tal Belmiro (um nome antiquado, sem dúvida), que se encontrava sentado calmamente naquele recinto - um lugar que cheirava a pano grosso molhado - com a sua perna esquerda e gorda cruzada sobre a direita; que também não era mais magra do que a outra, acendeu uma cigarrilha mentolada que sacou da caixinha de papelão com um critério exagerado, teatral, embora a encenação não fosse para ninguém em especial, mas para si mesmo. Havia, claro, algumas pessoas irrelevantes no entorno. Mas justamente por sê-lo, nenhuma delas justificaria o esforço dramático de um gesto daqueles. Justificar até justificaria, pois sempre fora prazeroso para ele atribuir alguma importância a si mesmo, especialmente diante do vendedor de alguma loja sofisticada ou da besta de um gerente de banco que se achasse grandes coisas. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Aliás, esse seria um gesto muito mais de agressão contra tipos como aqueles, do que de auto-importância por parte de Belmiro. Eram todos uns mal havidos na vida, que se tornavam afetados pelo contágio da subserviência a pessoas que se julgavam nobres. Porque ele nunca tolerou gente que, trabalhando, tentava parecer mais importante do que as pessoas às quais serviam, como vassalos. E nos lugares sofisticados sempre foi assim. Os vendedores ou atendentes daquelas lojas aço-e-marfim dos shopping center atribuíam mais importância a si mesmos do que aos próprios clientes. Na verdade, para o tal Belmiro ninguém prestava muito, nem os falsos nobres e nem os verdadeiros vassalos a serviço dos primeiros.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Mas não era isso o que ocorria, ali, naquele momento. E, no entanto, mesmo sem público ou sem alvo, deu azo àquela interpretação da forma mais rebuscada possível: o público seria ele mesmo. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Aliás, ultimamente vinha muito mais se contentando consigo mesmo do que com os outros, desde que ainda houvesse “os outros” para prestigiar a sua solidão assistida. Chegou a pensar, um dia, e riu-se sozinho da idéia, que se o ato de masturbar-se lhe bastasse e tivesse a intensidade suficiente e desejada, já não precisaria das mulheres. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Mas ao menos esse ato solitário ainda não lhe bastava de todo: quem sabe um dia? Os outros atos sim, até mesmo o exercício de comer em grupo, ao qual as pessoas sempre dedicaram normalmente uma reverência inexplicável, ele o praticava na solidão. Cada vez mais se distanciava daquilo que todo mundo cultuava num insistente ritual familiar: “aos domingos é sagrado, todo mundo almoça juntos”. Bobagem. Nem segunda e nem domingo e nem feriado e nem Natal. Muito menos naquele espaço que havia entre esses dias.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;O ato de comer, por isso, estava se tornando uma novidade interessante. Ele escolhia a dedo um restaurante muito freqüentado, que tanto poderia ser um boteco cult de surradas tendências esquerdistas quanto um desses grill apinhados de gente ao meio-dia, onde os sujeitos engravatados vão almoçar e ficam uns observando o terno e o sapato dos outros, a fim de saber se precisam imitar ou ridicularizar algum deles. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Aos poucos, cultivava um delicioso ritual de almoçar sozinho. Desde que, claro, pudesse chamar a atenção de quem estivesse em volta. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Desdobrava um daqueles imensos e engomados guardanapos de pano sobre as pernas, pedia alguma bebida exótica e ficava anotando coisas num bloquinho, a esmo, ou folheando um livro cuja capa deixava exposta para que vissem o que estava lendo. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;E fatalmente chamava a atenção de alguém, geralmente de um comensal solitário como ele, que ficava consumindo-lhe os gestos mais simples com o canto dos olhos e lhe causando grande excitação, na permanente espreita da “vítima” e na elaboração de novos floreios, que chamassem ainda mais a atenção do outro. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Seu grande prazer era, em ocasiões como essa, parecer um excêntrico, jamais – repetia para si mesmo - um louco (“louco não”!). &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;O fato é que, de resto, andava conformado em deleitar-se, sentado consigo mesmo em algum lugar, dramatizando gestos que agradassem à sua própria alma, o que poderia também – considerou algumas vezes – ser uma espécie de loucura branda em sua fase ainda nascibunda. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Por essa razão evitava, ao menos agora, de rir-se sozinho em público, pensando em qualquer coisa. Ansiava pelos ares de importância que alguns gestos estudadamente refinados lhe davam aos olhos e às atenções dos circunstantes. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;No entanto, ponderava que devia controlar-se o suficiente para não parecer àqueles circunstantes um reles maluco, desses encardidos que dormem sob uma marquise e passam os seus dias a sorrir enquanto caminham ou mesmo sentados no chão, resmungando sandices ou fuçando no próprio nariz ou nas unhas sujas dos pés.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Agora, lendo um verso ou uma frase num romance, fechava os olhos por um momento e pensava, prazeroso e não raro embevecido, “olha só o que esse sujeito escreveu aqui...isso me faz tão bem, eu já tive um sentimento assim, uma vez...”, remoendo os próprios sentimentos. E nessa hora, sentindo um frio na barriga, revivia o já vivido.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Uma mudança radical, para alguém que em outra época, diante de um pequeno deleite como aquele de encontrar uma frase, de imediato procuraria alguém – e geralmente encontraria, alguém errado que não daria à pérola o devido e justo valor, mas encontraria – e mandaria a frase ou o verso para a outra pessoa numa carta escrita de próprio punho. Ou, num arroubo de alegria ou de álcool, leria aquela passagem em voz alta!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;E foi justamente por dirigir, por tanto tempo, tantas coisas ou palavras preciosas às pessoas erradas que optou, ou descobriu enfim, que satisfazer a si mesmo poderia, de certa forma, bastar-lhe. E se dedicava agora a isso, à auto-suficiência.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Esvaídos os pensamentos, molhou os lábios com um excesso desnecessário de saliva, tornando vulnerável a ponta da cigarrilha, que parecia em seguida querer desmanchar-se. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;E ficou prestando atenção à fumaça que recendia do artefato, da ponta ou do bocal, e tentava – discretamente, para não parecer maluco (a preocupação sobre a sanidade dele, em relação aos outros, era uma constante) – abocanhá-la antes que ela se dispersasse no ar, como um cachorro arreliado tentando comer as moscas que lhe importunavam a ferida. Eram, em verdade, artes de tabaco que exercia ora a pretexto de exibir-se aos presentes, ora a pretexto de querer um tempo para pensar na vida.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Uma vida de grandes horizontes que, sozinho, Belmiro descortinava dentro de si. Tinha uma vida inteira pela frente, consigo mesmo. Uma lua-de-mel eterna, acompanhada de alguém a quem amava e, sobretudo, respeitava acima de Deus e de qualquer outra pessoa: ele próprio.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-7115094351871092880?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/7115094351871092880/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=7115094351871092880&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/7115094351871092880'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/7115094351871092880'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2011/05/belmiro-conto-de-roberto-schultz.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-bRYlqIbHx4A/Tc7lE_U84RI/AAAAAAAAD-A/IgHOfGVTE3c/s72-c/DSC00278.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-7608165033881276210</id><published>2011-05-14T10:08:00.000-07:00</published><updated>2011-05-14T12:30:14.170-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;img border="0" height="180" j8="true" src="http://3.bp.blogspot.com/-yoX9nzAYMlo/Tcrjki9zqdI/AAAAAAAAD9A/IPdqmoKpvRc/s320/sitio03-cenouras.jpg" width="320" /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-1Th5sMvjD1c/TcrjoqyqhHI/AAAAAAAAD9I/iwoTLfbY_RM/s1600/mulher%252520gorda.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" j8="true" src="http://4.bp.blogspot.com/-1Th5sMvjD1c/TcrjoqyqhHI/AAAAAAAAD9I/iwoTLfbY_RM/s1600/mulher%252520gorda.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Verdana, sans-serif; font-size: x-large;"&gt;&lt;strong&gt;TARA &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;por &lt;strong&gt;ROBERTO SCHULTZ&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Verdana; font-size: x-small;"&gt;(conto escrito em meados do ano de&amp;nbsp;&lt;strong&gt;2007&lt;/strong&gt;)&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Eu estava sentado na minha poltrona verde, que já está meio furada, pensando que um homem interessado em alguém não pode, em hipótese alguma, deixar de valorizar os cuidados que uma mulher tem para com a sua casa, para com as suas coisas. Porque tais cuidados nunca se destinam, na verdade, unicamente para essa mulher, mas sempre se destinam a alguém. Eu nunca me impressionei com isso, e algumas já me disseram o contrário, como a histérica Marlene, mas eu em nenhum momento acreditei na sua mentira deslavada. É óbvio que se trata daquela mesma vaidade com que elas, as mulheres, vão ao cabelereiro e fazem um corte ou uma tintura nos cabelos, para que as outras perguntem &lt;em&gt;“ você mudou alguma coisa no seu cabelo?”&lt;/em&gt;. Aquela que mudou fica esperando a pergunta a qualquer momento, mas sempre finge surpresa:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;“Você notou? Resolvi mudar um pouco.” Aquele papinho falcatrua e uma ajeitadinha discreta no próprio cabelo. Teatro. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Então, eu tenho observado cá do meu canto -&amp;nbsp;e note que há meses eu não tenho mulher alguma -&amp;nbsp;que assim como nos cuidados com o próprio corpo, a vaidade das mulheres pelas suas casas se destina à visão cobiçosa e ao bulício das outras mulheres, estranhas ou amigas, de relações superficiais ou das parentas que julguem invejosas. Mas nós, os homens, também somos, em algumas ocasiões, o alvo dessas “arrumações”, embora não monopolizemos o objetivo delas. A diferença é que nem notamos - salvo honrosas exceções onde eu próprio me incluo - os cuidados empregados por elas no período que antecedeu às visitas de alguns de nós às suas casas. E, morando sozinhas, fazem de cada visita uma ocasião para o exercício da sua vaidade. Eu observo algumas, de um modo geral, mas sem um interesse específico.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Para ser sincero, venho observando uma, sim. Ela é minha vizinha, e se chama Marilourdes.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Ultimamente &lt;em&gt;grudei&lt;/em&gt; em Marilourdes e também num tal Gonçalo, o coroa que ela arranjou por aí, não faço a mínima idéia aonde. Já segui ele &lt;em&gt;doze&lt;/em&gt; vezes e, em cinco dessas vezes, ele estava indo visitar Marilourdes.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Marilourdes mora&amp;nbsp;sozinha, num apartamento que fica no bloco em frente ao meu, nesta bosta de conjunto habitacional, onde pouco espaço separa um prédio do outro. Marilourdes, que todos por aqui chamam de &lt;em&gt;Mari&lt;/em&gt;, não parece se preocupar muito com a sua própria privacidade. Suas janelas estão sempre abertas, as cortinas descerradas. Nunca a vi completamente nua, é verdade, mas já a flagrei enrolada numa toalha. Com um pouco de paciência, a veria nua, se quisesse. Mas nunca quis. Ela não me atrai. Eu não gosto de &lt;em&gt;coroas&lt;/em&gt;. Prefiro mulheres jovens e meio putas. Ou &lt;em&gt;completamente&lt;/em&gt; putas, inclusive pagas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Gonçalo visitou Marilourdes, a Mari, pela quarta vez, e não supõe, nem em sonhos, que ela tenha ido cedo da tarde ao supermercado e resolvido comprar aquele vasinho branco, alouçado, de uma porcelana branca e fora de moda, onde estão aplicadas em relêvo algumas flores na parte da frente, ornadas com relevos em dourado imitando ouro, só para agradar a ele. Eu estava lá, quando ela o comprou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;E ele, o Gonçalo, também não supõe que Mari tenha, antes da sua chegada, enchido o mesmo vasinho sem graça com água mineral – um luxo, se ficar comprovado que a água que estava na garrafa plástica for mesmo mineral - para, em seguida, colocar espalhados dentro dele a meia dúzia de cravos brancos que ela comprou no mesmo supermercado. Àquela hora, num sábado, já não se encontra grande coisa num supermercado onde as flores são vendidas junto com as couves e algumas cenouras grossas “como o pau de um cavalo”. A observação sobre os pênis de cavalos não é minha. Foi feita por Marilourdes, uns cinquenta e dois anos, separada, à sua amiga Loiva, cuja idade ainda não me interessei em saber, e que a acompanhava às compras. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Na verdade eu não sei se ela de fato comparou as cenouras a pênis de cavalos. A suposição é minha, baseada nas minhas próprias impressões. Tudo o que Mari fez foi levantar, de onde estava, um dos cenourões, e mostrar o tubérculo alaranjado e ainda meio sujo de terra a Loiva, tendo ambas rido muito e, aproximando-se entre si, rido mais ainda e falado coisas em voz baixa que eu tentei, mas não pude ouvir.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Na noite em que estavam as duas no supermercado; eram sete e quinze, inicio da referida noite, Mari esperava a visita de Gonçalo, os mesmos cinquenta e dois anos, supostamente em fase de separação litigiosa. Eu possuo um estetoscópio que surrupiei da empresa onde trabalhava como vendedor. Era uma empresa decadente que vendia artigos e instrumentos para médicos e hospitais. Faliu, como não podia deixar de ser e eu também me fodi junto com ela, como não podia deixar de ser. Com a ajuda desse estetoscópio, colado na porta principal do apartamento dela, numa dessas noites eu ouvi o que ela e Gonçalo diziam, mediante uma manobra arriscada feita no corredor do edifício, na mais completa escuridão. Eu poderia ser surpreendido a qualquer momento. E Gonçalo disse a ela, naquela oportunidade&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;&lt;em&gt;- Não aguento mais esse meu processo de separação, espero que termine logo, está sendo muito complicado&lt;/em&gt;. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;As pessoas, hoje, por vício, dizem &lt;em&gt;“complicado”&lt;/em&gt; para qualquer besteira, já notei. Era óbvio que Gonçalo mentia descaradamente, pois continuava casado mas contando a velha lorota do “meu casamento é um inferno”, na qual qualquer mulher solteira e desesperada por homem – qualquer homem - cai feito uma patinha.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Na noite em que as duas compravam cenouras no supermercado, Gonçalo visitaria Mari. E talvez tenha decorrido dessa espera por Gonçalo a piada que ela, Mari, fez a Loiva, sobre a circunferência da cenoura e a minha impressão de que teria sido sobre o pênis dos cavalos. Alguma alusão maldosa à anatomia de Gonçalo; à expectativa do encontro ou mesmo sobre a possibilidade de, em dando errado a conjunção de ambos, ou não dando em conjunção alguma, a cenoura vir a suprir-lhe alguma coisa. “Desculpe qualquer coisa”, diria Gonçalo. Gonçalo também dizia “um beijo no coração” e “sangue de Jesus tem poder”, que aprendera na televisão.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Marilourdes não parecia alguém que, num gesto extremado de desespêro, introduzisse um cenourão no próprio corpo para suprir “qualquer coisa” que ela desculparia a Gonçalo. Mas nunca se sabe o que esperar de uma mulher cujo desespêro ou solidão bata à sua porta. Está tudo meticulosamente anotado por mim, de qualquer jeito.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Gonçalo veste, no expediente de trabalho e até após o expediente, uma camisa azul daquelas que têm botões nos ombros, como as camisas de um militar, ou de um motorista, ou do porteiro que, de fato, é. Talvez ele se atribua a condição de “segurança”, que condiz mais com a virilidade de qualquer homem, ou com a força, ou com a valentia. É um homem de cinquenta e dois anos, em curva etária descendente, não podemos nos esquecer. Então fica mais masculino, ou mais macho, atribuir-se uma função policialesca, quem sabe contada com rompantes de truculência. Um homem sem graça, ou já velhote, geralmente deseja mostrar-se fisicamente forte, ou potencialmente perigoso, como alguém que não tendo mais atributos com os quais impressionar aos demais, ou principalmente às mulheres, deixasse o pau para fora das calças dizendo&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;“ Vejam, está bem duro ainda, não brinquem comigo!”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Vamos retificar o relatório e substituir “deixasse o pau para fora das calças” por “ deixasse o pênis, teso, para fora das calças”, para que não soe chulo demais e, melhor, a palavra “teso” enfatizará a idéia de rigidez, de demonstração de força. Quem sabe “membro viril” ficasse mais científico, mas o meu receio é de que aquela expressão dê à frase uma erotização não desejada, especialmente em relação à exaltação da genitália de um sujeito de cinquenta e dois anos, o que não deixa de ser simplesmente nojento para mim. O “teso” dá uma idéia de temporariedade, nada de permanência, que eu não estou aqui para arranjar um fã-clube para o tal Gonçalo. A idéia, pois, é deixar claro que ele é um porteiro que se intitula “segurança”.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Tenho seguido Gonçalo e sei que, nos ônibus que ele toma, em todo e qualquer dos seus itinerários, ele aprecia sentar-se à janela, geralmente com a cabeça encostada no vidro. Às vezes; eu diria que em módicos &lt;em&gt;trinta por cento&lt;/em&gt; dos casos, ele dormiu e emitiu pequenos grunhidos, quase-roncos, pois aparentava grande cansaço. Mas o mais interessante vem agora, porque é esse o ponto que irá interessar particularmente a Marilourdes, tão logo eu possa prová-lo. É uma revelação preocupante, que virá a seguir, sobretudo para Marilourdes:&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Gonçalo é, confirmadamente, um tarado. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Por isso, um sujeito com tais preferências perversas &lt;em&gt;jamais&lt;/em&gt; notaria um vaso novo e vagabundo na casa de uma mulher de meia-idade. Uma mulher que provavelmente amaria &lt;strong&gt;com devoção&lt;/strong&gt; a um homem que notasse um detalhe pequeno e puro desses. Não tenho, rigorosamente, nada a ver com isso, deixemos suficientemente claro. A não ser, no máximo, um dever de boa-vizinhança. Ou, a fim de preservar a minha própria integridade no &lt;em&gt;ambient&lt;/em&gt; residencial, a obrigação de zelar por mim e pelas pessoas que circulam no edifício ou mesmo no apartamento da &lt;em&gt;interessante&lt;/em&gt; Mari, uma mulher de meia-idade mas que não pode, por estar um pouco passada da idade, se entregar a qualquer depravado.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Mas sendo um tarado, Gonçalo dedica-se à especialidade “bundas femininas”, mas não descarto a possibilidade de que sejam “costas” ou mesmo “calcanhares”, pois a imprecisão do seu foco de interesse nas mulheres que observa tem me dificultado um pouco o trabalho. No entanto, havemos de convir que eu ter descoberto o seu interesse deslavado &lt;em&gt;pela parte de trás&lt;/em&gt; das mulheres, já é um expressivo avanço. Porque no verão, com a nudez acentuada da maioria delas e de várias das partes dos seus corpos, essa dificuldade em identificar para o local exato ao qual são dirigidos os olhares masculinos se acentua.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Gonçalo costuma encostar a sua cabeça semi-calva no vidro do ônibus e nunca abre as janelas, mesmo naqueles ônibus que ainda têm janela, pois os modernos urbanos agora são todos lacrados por causa do ar condicionado de que dispõem, para alegria dos miseráveis, que se vangloriam de andar de ônibus com ar condicionado, como se isso fosse grandes bostas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Com a cabeça encostada na janela de vidro e olhando para as ruas, ele sacia a sua tara de forma torpe e compulsiva, especialmente nos horários de pico e nas áreas de grande concentração humana, nos terminais de ônibus no Centro da Cidade. Seu prazer consiste em escolher as vítimas aleatoriamente e ir classificando-as de acordo com suas preferências podres. O mais interessante é que ele não as discrimina por cor, raça, idade, posição social ou vestimenta. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Então ele as olha e as despe com o olhar ou, pior, contenta-se em contemplar-lhes as partes a descoberto, como quem escolhe borboletas para coleção num daqueles quadros antigos. E deve, no seu íntimo de pervertido, escolher essa ou aquela e imaginar-lhes o salobro da pele, a maciez, as reentrâncias. Ainda não sei qual o objeto da sua cobiça, mas noutro dia estive convicto de que a sua preferência recaía sobre os calcanhares das mulheres. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Isso porque durante pelo menos dois dias, sob minha recalcitrante e obstinada perseguição, ele os olhava, os calcanhares das passantes, com um afinco repugnante, inclusive aqueles calcanhares que eram verdadeiras aberrações. Aliás, a sua mente doentia parecia preferir os calcanhares muito feios. Ao perceber um calcanhar rachado, metido na gasta e dourada sandália de uma mulher de idade indefinida, que esperava o ônibus num dos pontos por onde passou, chegou a dar uma risadinha de satisfação. Notei, também, naquela ocasião, que o seu braço direito, num reflexo, dirigiu-se ao baixo ventre e empregou certa força com a mão, como quem apertasse o próprio membro viril (de novo, ele), pois vestia uma camisa de mangas curtas e a parte anterior do seu braço se contraiu, como alguém cuja mão coçasse ou apertasse uma parte do corpo. Eu, de onde estava, dois bancos atrás, não consegui ver o gesto completo, o que é uma pena. O relatório segue com lacunas, nesse porém.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Mas a minha certeza durou pouco, o que me fez um pouco infeliz. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Como alguém que alternasse as próprias taras para não se cansar delas, o vil Gonçalo no terceiro dia agiu da mesma maneira condenável, apertando o próprio &lt;em&gt;saco &lt;/em&gt;(preciso encontrar uma palavra mais adequada na versão final deste relatório), ao olhar para alguma parte indefinível da parte de trás de uma mulher gorda que caminhava, apressada, com duas sacolas de plástico em frente a uma farmácia, desta vez no bairro. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Um detalhe: a gorducha, apesar do calor insuportável, calçava uma bota cor-de-caramelo, daquelas antiquadas, toda fechada, com bico e saltos finos, de meia canela, cujos saltos estavam gastos nos lados de fora, provavelmente pela força que o peso do corpo empregava de forma irregular sobre os pés pequenos (e provavelmente gordinhos e abjetos) dela. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;Não sei se fui bem claro, vou repetir: ela estava calçando uma bota toda fechada com zíper, apesar do calor. Gonçalo&lt;em&gt; não viu-lhe&lt;/em&gt; os calcanhares. E, no entanto, se compraziu do seu prazer sexual invertido e apertou o próprio membro, dando aquela risadinha solitária e nasal de sempre. Notei que a blusa da gorda possuía alguns vazados redondos nas costas, por onde se podia ver a pele branca e cheia de imperfeições da sua dona. Isso aventou-me a hipótese de que as costas, e não os calcanhares, fossem o real interesse do psicótico Gonçalo. As costas dela, realmente, de onde se via, pareciam suadas e, caso lambidas com alguma suavidade, talvez possuíssem um gosto salgado semelhante a um queijo rançoso. Quem sabe um cheiro de suor que lhe escorrera dos sovacos. Seja como for, com isso, voltei à estaca zero nas minhas investigações. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: large;"&gt;E quando eu decidir procurar a bela Marilourdes, terei de fazê-lo apresentando a ela provas contundentes, que lhe afiançarão o meu interesse meramente técnico pelo caso, impedindo-lhe de abrir as portas do seu acolhedor apartamento para um sujeito tarado como aquele merdão do Gonçalo. Um depravadão como tantos, à solta nesta cidade imunda.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-7608165033881276210?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/7608165033881276210/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=7608165033881276210&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/7608165033881276210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/7608165033881276210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2011/05/tara-por-roberto-schultz-conto-escrito.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-yoX9nzAYMlo/Tcrjki9zqdI/AAAAAAAAD9A/IPdqmoKpvRc/s72-c/sitio03-cenouras.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-714638367791354075</id><published>2010-02-12T08:36:00.000-08:00</published><updated>2011-05-14T12:21:58.096-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/S3WExlF6csI/AAAAAAAAC4w/KxlOG33DerA/s1600-h/orgasmo.jpg"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5437398112425112258" src="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/S3WExlF6csI/AAAAAAAAC4w/KxlOG33DerA/s200/orgasmo.jpg" style="cursor: hand; height: 198px; width: 200px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/S3WExcjFEvI/AAAAAAAAC4o/v2AdzwZOmuU/s1600-h/cacheados1.jpg"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5437398110131524338" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/S3WExcjFEvI/AAAAAAAAC4o/v2AdzwZOmuU/s200/cacheados1.jpg" style="cursor: hand; height: 200px; width: 200px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/S3WEvysND-I/AAAAAAAAC4g/86ycq6gUDHs/s1600-h/11-2148273742T-02.jpg"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5437398081715638242" src="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/S3WEvysND-I/AAAAAAAAC4g/86ycq6gUDHs/s200/11-2148273742T-02.jpg" style="cursor: hand; height: 200px; width: 140px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color: black; font-family: verdana; font-size: 180%;"&gt;&lt;strong&gt;AGONIA.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Verdana; font-size: 180%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color: black; font-family: verdana; font-size: 130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family: times new roman; font-size: 78%;"&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia; font-size: 100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color: black; font-family: times new roman; font-size: 78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color: black; font-family: times new roman; font-size: 78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color: black; font-family: times new roman; font-size: 78%;"&gt;(Um conto de &lt;strong&gt;ROBERTO SCHULTZ&lt;/strong&gt;, que hoje &lt;strong&gt;não escreve mais&lt;/strong&gt;. Conto escrito em &lt;strong&gt;outubro de 2007&lt;/strong&gt;).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: 78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Elaine estava sentada, quando eu cheguei. Não a identifiquei logo, pois nem a conhecia. Ela olhou-me com uns olhos tristes, que me pareceram &lt;strong&gt;melancólicos&lt;/strong&gt;. Gente que sorri com cara de tristeza. Eu tendo a enxergar tristeza onde talvez ela nem exista. Tem muita gente assim, como eu. Só que os outros talvez desejem ser profundos, ou místicos, ou perceptivos, e têm a pretensão de interpretar as pessoas. E, por causa disso, vêem coisas que não existem. Eu nunca a tinha visto antes e talvez nem fosse tristeza, ou sequer melancolia, o que Elaine sentia. Talvez fosse fastio. Eu não quero parecer profundo ou místico como os demais, apenas presto atenção nas manifestações alheias. Depois passa. Não encuco muito com isso. Posso ter me enganado.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Sentei-me, apertando repetidamente o botãozinho da minha caneta. Elaine anotava coisas numa agenda infantil, de capa azul. Na agenda havia figuras de bonequinhas, personagens de &lt;em&gt;mangá&lt;/em&gt;. Tudo meio infanto-juvenil, para a sua idade. Ela tinha vinte e oito anos. E me disse isso, depois: &lt;em&gt;“eu tenho vinte e oito”&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Falou olhando para mim, provavelmente esperando que eu dissesse “parece menos”. Eu não disse nada. Ela não parecia ter menos do que os vinte e oito que realmente tinha.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Fiquei observando ela; seu cabelo, suas mãos meio ossudas e grandes, sua roupa. Claro, e o seu corpo. Muito magra, peitos meio desproporcionais à magreza, mas não eram daqueles seios enormes. Eram, na verdade, redondos, como duas &lt;strong&gt;laranjas de umbigo&lt;/strong&gt;. Sei que isso parece a descrição vulgar de um filme pornô. Mas é a verdade. Laranjas de umbigo, ou do céu, não faz diferença. Laranjas. O dela era um vestido comprido, de um tecido fininho, com um decote. Meio &lt;em&gt;hippie&lt;/em&gt;; quem sabe oriental ou indiano, desse tipo. Verde desbotado.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Não sei se era a sua magreza, ou as olheiras, ou o seu vestido &lt;em&gt;hippie&lt;/em&gt;, mas ela parecia alguém que fosse acender um cigarro a qualquer momento. Um cigarro daqueles com odor de cravo, ou de canela, meio exótico. Não acendeu nada. Acho que nem fumava. E, mesmo que fumasse, ali não poderia acendê-lo. Por causa desse movimento todo das pessoas contra o fumo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Ela me olhou e disse, assim, do nada&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;- Vou te dizer uma coisa meio estranha. Vi num filme uma mulher dizer, ajoelhada, rezando, &lt;em&gt;“Deus, porque me deste esse amor, se ele ia durar tão pouco tempo?”&lt;/em&gt; Achei tão bonito, isso. O que você acha dessa frase?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Era uma frase melosa, romântica. E sem propósito. Eu olhei pra ela com espanto, como se, assim, também por nada, ela simplesmente tivesse me mandado tomar no cu.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;- Isso tem a ver com &lt;strong&gt;o motivo&lt;/strong&gt; da gente estar aqui? – perguntei.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Ela me olhou como se eu fosse um idiota. Detesto quando uma mulher me olha assim. Aos homens já estou acostumado, mas ainda não a essa reprovação vinda das mulheres. Nenhum homem aceita ser reprovado pelas mulheres.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;- Não, não tem nada a ver. Só perguntei porque achei a frase bonita. Pensei que você pudesse ter, sei lá, uma opinião formada sobre ela.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Olhei para ela me desculpando, mas não gastei uma única palavra para me desculpar. E nem para lhe dar a minha “opinião formada” sobre a frase do filme que ela disse ter visto. Disse-lhe apenas&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;- Você me pegou de surpresa.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Ela sorriu. Pegava os homens de surpresa sempre, pelo jeito. E se gabava disso. Notava-se que ela gostava desse jogo e só ficava com o homem que escolhia. Dava para ver. Quis me dizer “algo estranho” e me disse aquela frase, assim, do nada. Não era algo exatamente estranho. Era inusitado. E, claro, romântico. Algum objetivo dela nessa frase.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;As mulheres quase sempre são assim, seletivas. Pode parecer algo óbvio, mas nós homens não somos quase nada seletivos. Mulheres, quando estão sozinhas, querem um namorado assim ou assado. Não precisa ser bonito e nem musculoso e nem rico, como a maioria dos homens pensa que elas desejam que nós sejamos. Não. Precisa ser carinhoso; sobretudo fiel. Fiel, acima de tudo. De preferência bonitinho. E não pode ser porco, sujo, de unhas pretas ou com cheiro de sovaco. E manter um mínimo de relação com elas. Amarrar um vínculo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Nós não. Às vezes, qualquer uma serve. Sem vínculos, de preferência. Especialmente se a agonia bate como uma nuvem escura sobre a órbita da nossa lua, numa madrugada de solidão. A bebida, ou o cigarro, ou a cocaína, ou um simples &lt;em&gt;&lt;strong&gt;back&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; de maconha, nos arrebentando a cabeça e nos dilatando as narinas e as idéias. Despertando a Besta. Levando-nos para as profundas do inferno, para o diabo que nos carregue, numa cidade vazia.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Já entrei nas vielas mais podres, em &lt;em&gt;COHAB&lt;/em&gt;, com água de esgoto correndo na sarjeta, nas mais distantes bibocas, atrás de mulher, num sábado à noite, tentando aplacar esta minha agonia. Já fodi velhotas gorduchas; solteironas recalcadas. Doidas desesperadas que encontrei pela &lt;em&gt;Internet&lt;/em&gt;. Putas, pagando por elas. Brancas, pretas, índias, orientais. Ruiva natural, nenhuma, mas umas quatro de farmácia. Apenas uma quase ruiva e essa era garota de programa, depois eu conto. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Profissões, várias. Advogadas. Psicólogas. Engenheiras. Químicas. Uma tenente do exército. Uma médica. Uma &lt;strong&gt;&lt;em&gt;cadeirante&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;. Amigo meu comeu uma que tinha uma perna mecânica que até rangia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Mulheres são suscetíveis, nós nunca fomos. E elas não entendem essa nossa voracidade, a agonia. E nos chamam de tarados. Não é isso. Tarado não come ninguém. Tarado é o sujeito que se satisfaz apenas imaginando. Ou nem isso. Sei lá o que é, nos dias de hoje, afinal, um legítimo tarado.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Elaine acharia mesmo que sou um tarado, se me visse numa noite de chuva, beijando a boca (com gosto de &lt;em&gt;Halls&lt;/em&gt;) de uma puta que eu tinha acabado de conhecer num bordel. A tal puta quase ruiva e natural.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Fui duas noites seguidas naquela boate. Música sertaneja, &lt;em&gt;axé&lt;/em&gt;. Mulheres dançando em volta do mastro (&lt;strong&gt;&lt;em&gt;pool dance&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;), copiando as americanas dos filmes. Gordos de cara vermelha; suados e bêbados. Velhos com cara de "superiores", que iam ali todas as semanas comer as mesmas mulheres e simular um namoro que só existia na cabeça deles.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Na primeira noite não comi ninguém. Voltei no dia seguinte e fiquei apenas olhando. Na minha. Tinha &lt;em&gt;levantado ferro&lt;/em&gt; na academia a semana inteira, meus braços saltavam nas mangas da camiseta. Algumas mulheres me olhavam, cobiçosas. Não que eu fosse melhor do que os outros trouxas que estavam por ali. Mas entre &lt;em&gt;dar&lt;/em&gt; para um ricaço feio, gordo e fedendo a uísque ou dar para um magro musculoso e bonitinho, cheiroso, que ia pagar do mesmo jeito, quem será que elas iriam preferir? Eu, claro.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Fui ao banheiro mijar e me olhei no espelho: eu estava realmente bonito. Havia uma luz nos meus olhos; uma luz sobre mim inteiro. A luz que sempre me preenche quando estou perto de ser feliz por algum tempo. Ninguém é feliz o tempo todo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Quando voltei do banheiro eu escolhi aquela que me pareceu a mais novinha de todas. Também gosto de mulheres maduras, mas naquela noite fui lá buscar alguma inocência.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Depois descobri que havia me enganado em relação àquela putinha, mas assim mesmo não me arrependi. Enganei-me porque ela não era tão jovem assim, já tinha trinta e dois anos e um filho pequeno. Toda mulher de programa bonita tem um filho pequeno, uma história mal contada. Ela era branquinha, quieta, sem cara de profissional. Esse é o segredo: sem cara de &lt;em&gt;pistoleira&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;E foi uma noite boa.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Todo mundo gosta de namorar as meninas sérias. Isso, de certa forma, é um engano. Uma mulher ser uma grande puta na cama não significa que ela, na sua vida, não seja séria ou boa. Um grande engano. A &lt;em&gt;big mistake&lt;/em&gt;, como dizem os caras nos filmes. Além disso, naquele caso era apenas uma “brincadeira de namorar a menina séria”. Eu já sabia exatamente o que ela era. Bastava que tivesse cara de menina séria. Só isso.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Fomos para o meu hotel e quando entramos no quarto ela logo pediu para beber alguma coisa. Suspirei: “outra daquelas de sempre”. Beberia alguma coisa do frigobar, tiraria a roupa e na certa ia partir direto para cima de mim, fingindo. Depois olharia o relógio, tomaria um banho (ou não), pegaria a minha grana suada e iria embora.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Mas aquela me surpreendeu.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Sentamos na cama, vestidos, enquanto ela bebia uma das miniaturas de &lt;em&gt;uísque&lt;/em&gt; (quente) que havia sobre a geladeirinha branca do quarto. Tirou as sandálias brancas sem saltos e pôs uma ao lado da outra, educadamente, sob a cama. Dobrou as pernas. Os pés descalços (as solas estavam sujas pelo couro das sandálias), de unhas bem cuidadas, foram postos sobre o lençol esticadinho que a camareira arrumara.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Era uma menina conversando com o seu amiguinho. Não. Conversando com o seu candidato a &lt;em&gt;namorado&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Perguntei-lhe o nome e ela me respondeu &lt;em&gt;“Monique”&lt;/em&gt;. Eu disse &lt;em&gt;“ah, não vem com essa...”&lt;/em&gt; e ela corrigiu: &lt;em&gt;“Clarice. Meu nome verdadeiro é Clarice”&lt;/em&gt;. Que era um nome infinitas vezes melhor do que &lt;em&gt;Monique&lt;/em&gt;, o seu nome de trabalho. Clarice. Foi como se dois acordes de um piano tivessem tocado: Cla-rice. Conversamos bastante, nos beijamos. Tiramos a roupa, enfim. Ela estava ali pra isso.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;O piano continuava, só na minha cabeça, a tornar aquilo bem melhor do que era na vida real. Aquilo era apenas um &lt;em&gt;programa sexual&lt;/em&gt;. Mas o tal piano imaginário parecia ter tomado conta dela também, quando olhou bem fundo nos meus olhos, nua, brilhosa, aqüífera, leitosa, macia. Abriu bem as pernas e disse, generosa, oferecendo a sua cave depilada e desenhadinha&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;- Só olha. Não toca &lt;em&gt;nela&lt;/em&gt;, ainda.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;O &lt;em&gt;nela&lt;/em&gt; onde eu não podia, ainda, tocar, era a sua boceta. Obedeci. Naquele ritual que se iniciava, me deu vontade de pedir a permissão dela para lhe dizer algo que me inquietava desde que ela sentou-se, educada e vestida, na cama.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;- Eu quero te dizer umas &lt;em&gt;&lt;strong&gt;coisas meio estranhas&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;. Posso?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: large;"&gt;Claro que eu podia. Ela queria o meu dinheiro. Talvez estivesse acostumada a ser chamada de cadela; de vagabunda. E que lhe cuspissem, ou que lhe ejaculassem, nos peitos. Claro que eu podia lhe dizer umas coisas estranhas, ela deixava. Qualquer coisa estranha dita por mim não seria estranha o suficiente.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;- &lt;em&gt;"Estranhas"&lt;/em&gt;? Sorriu, esperando.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Então &lt;strong&gt;a agonia&lt;/strong&gt; entrou em mim como &lt;strong&gt;um raio&lt;/strong&gt; que me ardeu; ou um gole de cachaça pura, bebido todo de uma vez. Uma &lt;strong&gt;&lt;em&gt;overdose&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;. A sensação que deve ter o &lt;em&gt;cavalo&lt;/em&gt;, o &lt;em&gt;médium&lt;/em&gt;, quando recebe o espírito num &lt;em&gt;centro&lt;/em&gt;. A alegria de sentir coisas que somente percebe quem está vivo e, ao mesmo tempo, a sensação de estar bem perto da Morte. Indo para uma outra massa de sensações, de sentimentos, de almas. Nem sei do que mais. O desespero por deixar a vida. A agonia. Então eu falei para ela essas coisas estranhas, e estava todo arrepiado nessa hora.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;- É. Eu queria dizer &lt;em&gt;&lt;strong&gt;que te amo&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;. É a primeira vez que estou te vendo na vida, mas eu te amo, agora. Te amo. Muito.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Ela me olhou, quieta e surpreendida, como quem diz &lt;em&gt;“não faz isso comigo, eu sou uma pessoa infeliz e não se brinca com os infelizes”&lt;/em&gt;. Como se eu fosse o Anjo da Morte e tivesse lhe dito “&lt;em&gt;agora vou te levar comigo, a tua hora chegou”&lt;/em&gt;. Clarice gozou baixinho, como eu nunca tinha visto numa puta. Era uma espécie de chorinho suave, tímido. Quase como uma cachorrinha gemendo de frio. E eu fui invadido pela ternura do piano que eu imaginava na minha cabeça, Cla-rice. E senti os meus ossos apertando os dela, as peles de diferentes texturas, calores e consistências, assim, comprimidas, uma contra a outra.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;Os poucos pêlos que restaram no púbis raspado dela roçando nos meus muitos pêlos. Eu sussurrava &lt;em&gt;&lt;strong&gt;“fica feliz, fica feliz” &lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;e soprava o rosto dela, confortando-a. Vinha um cheiro de eucalipto, provavelmente do banheiro. Depois ela foi embora e, na porta do hotel, antes de entrar no táxi, beijou a minha têmpora esquerda. Não a boca, nem o rosto. A minha têmpora.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black; font-family: Georgia, &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;, serif; font-size: large;"&gt;E agora, ali, sentada na minha frente, Elaine também me pedia para dizer uma coisa "meio estranha", sem nunca ter me visto antes. E eu me espantava justamente com isso. Logo eu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-714638367791354075?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/714638367791354075/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=714638367791354075&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/714638367791354075'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/714638367791354075'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2010/02/agonia.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/S3WExlF6csI/AAAAAAAAC4w/KxlOG33DerA/s72-c/orgasmo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-52223505897926025</id><published>2009-07-18T21:12:00.000-07:00</published><updated>2010-07-23T10:57:56.526-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SmM59aC7RKI/AAAAAAAAClY/VldrPqKg-Lc/s1600-h/sa%25C3%25ADda%2Bdo%2Bbanho.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5360191708627420322" style="WIDTH: 190px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SmM59aC7RKI/AAAAAAAAClY/VldrPqKg-Lc/s200/sa%25C3%25ADda%2Bdo%2Bbanho.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SmM59RYtkOI/AAAAAAAAClQ/Hlb0xIjRKDY/s1600-h/180023.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5360191706302877922" style="WIDTH: 200px; CURSOR: hand; HEIGHT: 140px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SmM59RYtkOI/AAAAAAAAClQ/Hlb0xIjRKDY/s200/180023.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SmM58_q9NdI/AAAAAAAAClI/8C1e8R3bu-s/s1600-h/89760598_cb4cb48daa.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5360191701547562450" style="WIDTH: 200px; CURSOR: hand; HEIGHT: 160px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SmM58_q9NdI/AAAAAAAAClI/8C1e8R3bu-s/s200/89760598_cb4cb48daa.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SmM58jVOYvI/AAAAAAAAClA/fbjMJNk4zqY/s1600-h/018.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5360191693940220658" style="WIDTH: 150px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SmM58jVOYvI/AAAAAAAAClA/fbjMJNk4zqY/s200/018.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SmKgkgq-4RI/AAAAAAAACk4/96cWeuHelZE/s1600-h/degas_banho.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SmKgSyDQhzI/AAAAAAAACko/CRBFmVpDc8M/s1600-h/071109_blog_uncovering_org_kim-joon_3.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:180%;color:#009900;"&gt;&lt;strong&gt;Vegetal&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Um conto de &lt;strong&gt;ROBERTO SCHULTZ&lt;/strong&gt;, que &lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;strong&gt;não escreve mais &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;(conto iniciado em julho de 2007).&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;Tarde de calçadas cheias, nos cafés de Buenos Aires. Os dias têm sido generosos, com todos nós, nesta época do ano.  Até o imenso portão de ferro do Círculo Militar se torna um rico broche lavrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isabela, a uma hora destas, deve estar em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol gosta de pintar umas coisas bonitas, nesta cidade. Tomar um trem e ir até o Delta,  percorrendo todo o caminho. As estações passando pelo trem, coloridas, como num filme calmo e bom. Maipu, Borges, Libertador, Las Barrancas, San Isidro, Punta Chica, Marina Nueva, San Fernando, e, finalmente, o Delta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol parece que queima, nesses meses, mas nunca queima. Ele doura. Sento-me numa mesa perto de uma árvore e fico olhando em volta. Torno-me a árvore, ninguém dá pela minha presença e nem eu quero isso. Realizo a fotossíntese, clorofila, e todas aquelas coisas que a gente aprende no colégio. É bom vegetar, assim. Em silêncio, anônimo, sem que alguém – nem mesmo o homem que pede esmolas ou o menino que diz "cuidar" dos carros sentado junto ao meio-fio - dê pela gente. Sem que alguém faça a mais remota idéia do farelo de gente que somos, neste pacote de biscoitos que é a Humanidade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Isabela provavelmente tomou banho e está nua, enrolada numa toalha ou num roupão. O seu corpo, com todas aquelas voltas e reentrâncias e pêlos e umidades nos lugares certos, cheira a sabonete. Uma fêmea. O sol da tarde entra pela janela, no seu apartamento antigo. As coisas, lá, estão todas nos seus lugares. Uma cadeira de armar onde eu me sentei, fumando, emocionado e excitado pelo porvir. Roupas esticadas nos fios de nylon do varal na área de serviço. Vários CD empilhados, sem ordem alguma.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Na porta da geladeira há imãs engraçados. Dentro dela, vinho branco e refrigerantes. Um pedaço de torta. Ovos, uma salada cor verde-claro. Nos armários, louça branca com fios dourados nas bordas. Talheres de aço inoxidável brilhantes, novinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ouve um samba antigo, e fecha os olhos, cantarolando, sentada na cama. Quem sabe ouça &lt;em&gt;&lt;strong&gt;Pirata Azul&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;, a música do João Bosco, num CD antigo que eu lhe dei de presente. Ela prefere ouvir os brasileiros, e mal entende a língua. A sua cama tem um colchão grosso, alto, cheio de molas e revestido de lençóis limpos que, com toda a certeza, estão bem cheirosos. Sabão em pó, amaciante de roupas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Os vidros das janelas do apartamento de Isabela são originais. Estão lá desde a sua construção. Os donos, vários, que se sucederam ao longo dos anos, foram caprichosos. Nenhum vidro quebrado, em décadas. São vidros imperfeitos, a luz não os atravessa uniformemente, fraciona-se de encontro a eles. Vidros de garrafa; vidros de botica, dos antigos farmacêuticos de um século no qual não vivi. Eles distorcem as imagens e, no entanto, são tão lindos quanto caleidoscópios.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Isabela está sentada sobre a sua cama alta. No móvel laqueado do quarto; um quarto no qual ainda existem móveis laqueados, muitas coisas fazem uma neutra e silenciosa companhia a ela. São potinhos de cremes hidratantes, frascos lavrados de perfumes com nomes franceses; velas; cachepot; um São Francisco de gesso, sem pintura, que alguém lhe trouxe do Brasil. Um dia eu morri de ciúmes desse São Francisco de gesso, sem pintura, trazido do Brasil, para Isabela. Quem tinha o direito de trazer algo assim, para ela, de uma viagem, senão eu?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Ela está sentada, sob a cama. Nua, eu já disse antes. As pernas dobradas, ao lado do corpo. As unhas dos seus pés não estão pintadas. A música. Agita um secador grande e barulhento, sobre os cabelos molhados. Suas mãos ossudas, firmes, se crispam, no cabo do eletrodoméstico. Mãos que seguram - ou arranham, conforme a hora - também o corpo de um homem, com paixão. Eu sei.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Ao lado de Isabela, no chão, sobre o tapete azul e peludo, está a toalha, agora amontoada e úmida. Sobre o travesseiro, uma calcinha azul-claro, minúscula, esperando para ser vestida e cheirando a sachê, que há menos de meia hora estava na gaveta com outras coisinhas do gênero e fitinhas e também com algumas meias de nylon; duas ou três delas desfiadas mas ainda em condições de uso. Uma calcinha que vai entrar pelo meio das suas pernas e acalentar o seu sexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez haja, aceso no quarto, um incenso com um aroma exótico: almíscar; sândalo; as cerejeiras do Japão Imperial; laranjas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;No porta-revistas, uma revista de decoração. E outra de moda, Vogue. No banheiro, enfiada num círculo de aço inoxidável, uma toalha limpa e macia, verde-limão ou rosa; cores felizes e lindas, que mereciam pelo menos um raio de sol entrando pela basculante e as iluminando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suspiro.Acontece que no banheiro, também nu, um homem com o corpo cheio de pelos ensaboados, toma banho e assobia uma música vulgar que não combina com nada daquilo. Rude, limitado, burro até. Mas um homem. E esse homem, infelizmente, não sou eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estou aqui. E vegeto, como uma árvore, ao lado da própria, sentado e anônimo, na mesa de madeira marchetada e entalhada de um café portenho. Há passarinhos.&lt;br /&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-52223505897926025?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/52223505897926025/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=52223505897926025&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/52223505897926025'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/52223505897926025'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2009/07/vegetal-um-conto-de-roberto-schultz-que.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SmM59aC7RKI/AAAAAAAAClY/VldrPqKg-Lc/s72-c/sa%25C3%25ADda%2Bdo%2Bbanho.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-554717803784980310</id><published>2009-05-16T18:11:00.000-07:00</published><updated>2009-05-16T18:15:12.949-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Leia o novo blog de &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;ROBERTO SCHULTZ&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;: desta vez &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;apenas CINEMA&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;, em comentários mordazes, irreverentes ou emocionados. É o &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff9900;"&gt;BUNDA NA POLTRONA&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:180%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://bundanapoltrona.blogspot.com/"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:130%;color:#990000;"&gt;http://bundanapoltrona.blogspot.com&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-554717803784980310?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/554717803784980310/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=554717803784980310&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/554717803784980310'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/554717803784980310'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2009/05/leia-o-novo-blog-de-roberto-schultz.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-3082036075390675700</id><published>2009-04-12T18:10:00.000-07:00</published><updated>2009-04-12T18:51:06.304-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SeKUqaliVJI/AAAAAAAACZA/H1df1MA8xfY/s1600-h/untitled03.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5323981165917525138" style="WIDTH: 200px; CURSOR: hand; HEIGHT: 146px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SeKUqaliVJI/AAAAAAAACZA/H1df1MA8xfY/s200/untitled03.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SeKUqCZFdBI/AAAAAAAACY4/Pd00v1lM_aE/s1600-h/Casal%2520Cama%25202.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5323981159422850066" style="WIDTH: 200px; CURSOR: hand; HEIGHT: 147px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SeKUqCZFdBI/AAAAAAAACY4/Pd00v1lM_aE/s200/Casal%2520Cama%25202.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SeKUp5KB5zI/AAAAAAAACYw/Qle0QnYgx9g/s1600-h/debora.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5323981156943783730" style="WIDTH: 146px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SeKUp5KB5zI/AAAAAAAACYw/Qle0QnYgx9g/s200/debora.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SeKUpglunBI/AAAAAAAACYo/hbtSS5tHtZ8/s1600-h/Ouroboros.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5323981150349073426" style="WIDTH: 176px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SeKUpglunBI/AAAAAAAACYo/hbtSS5tHtZ8/s200/Ouroboros.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;DE BOM TAMANHO.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;conto de &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;ROBERTO SCHULTZ&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(Este Autor &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;NÃO ESCREVE MAIS&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; Literatura. Este conto foi escrito entre &lt;span style="color:#ff9900;"&gt;maio e agosto de 2008&lt;/span&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;Sinceramente, hoje eu quero mais é que Jaqueline vá para os quintos dos infernos com a sua nova vida conjugal e se ela não encher o meu saco já está de bom tamanho. Que se foda. Não estou nem aí. Pinte-se de ouro, ou de vermelho a sua bunda redondinha e firme, Jaqueline, e desfile em carro aberto, na avenida; sozinha ou acompanhada; realizada e satisfeita da vida. Divulgue-se, Jaqueline. Diga que está feliz; que injetou silicone nos peitos. Que comprou um carro novo ou que ganhou uma medalha de ouro no seu trabalho. Que teve um filho. &lt;em&gt;“Hoje eu sou feliz, o mundo é lindo, meu namorado/marido é lindo, estou realizada e próspera, vivo hoje tudo o que eu sempre quis”&lt;/em&gt;. Uma beleza, se isso acontecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem fica penhoradamente grato a ela, e à vida, ou ao Destino, ou ao Universo, sou eu. Assim ela me deixa em paz e não pensa besteira. Besteira envolvendo a mim, principalmente, querendo foder com a minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cansei desse romance com ela, realizado ou imaginário. Verdadeiro ou subliminar. Cansei daquele nosso romance enjoadinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre tantas idas e vindas, pensamentos e reflexões; versos e sofrimentos; cartas e gritos estridentes e brigas entre nós. Telefones batendo um na cara do outro, furiosamente. Xingamentos rancorosos e declarações implícitas de amor eterno. &lt;em&gt;“Te amo, mas não podemos, vou te amar assim mesmo; vou te amar pela vida afora”&lt;/em&gt;. Sei não, sei não. Será que vai mesmo? Pensar que um amor daquele tamanho; que parecia infinito, acaba por enjoar tanto quanto uma música que toca repetidamente no rádio e que no inicio emociona, mas que depois se torna um tormento insuportável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez um amor desses seja mesmo infinito, quem vai saber? Não vou discutir o mérito disso. É difícil acreditar que se chegue a esse ponto quando sempre me lembro que no corpo dela eu entrei, perdi a conta do número de vezes, como se estivesse morrendo no frio mais congelante e o seu calor; o calor do seu útero - interno, fluido e úmido - fosse o único que pudesse salvar a minha vida miserável e assim a salvava mesmo, por alguns esmolados e intermináveis minutos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;Esse amor, ou o nome que se dê a esse negócio, fica lá, guardado, na cabeça da gente, sem utilidade alguma a não ser lembrar do que aconteceu e que não vai voltar nunca mais. E lá vai ficar, paciência, e vamos em frente porque a fila anda e a vida é curta, é o que dizem. Já somos outros, agora. Não mais aqueles dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A droga é que sempre se busca a mesma coisa, repetidamente, na vida. A Filosofia simboliza o Eterno Retorno na figura do &lt;span style="color:#ff6600;"&gt;Oroboro&lt;/span&gt;, que é uma cobra (ou um dragão, sei lá) mordendo o próprio rabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#993399;"&gt;Assim Falou Zaratustra&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;, na Gaia Ciência. O trecho está sublinhado no livro que eu tenho lá em casa. Um livro que comprei num balaio de saldos de uma livraria chinfrim, dessas onde o dono é um vagabundo que não gosta de trabalhar, mas que faz pose de intelectual: &lt;span style="color:#999900;"&gt;&lt;em&gt;E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse:&lt;/em&gt;&lt;/span&gt; &lt;em&gt;&lt;span style="color:#999900;"&gt;"Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim?”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sublinhei o trecho. Eterna confirmação, ô Zaratustra, é o caralho. Cansei disso, entendeu? O meu romance com Jaqueline não é mais aquela dor aguda do início. Passou essa fase. Agora é apenas um incômodo; um repugnante enjôo. Um negócio que eu não quero mais ter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda mais num mundo como este, onde as possibilidades são muitas. Muitas e diferentes. Só fica enamorado e sofrendo inutilmente quem quiser. Foi-se o tempo romântico da contemplação e da autocomiseração; o poeta Augusto dos Anjos e o seu &lt;em&gt;&lt;span style="color:#339999;"&gt;discurso da dor&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhava para Luíza, a argentina, ali, deitada ao meu lado, completamente pelada; pêlos pubianos negros, suspirando de paixão, ou por causa do nosso tesão recém-saciado e prestes a ressurgir. Eu, ali, lasso. Ela, menos cansada; mais emocionada, pela minha presença. Emocionada &lt;em&gt;pela minha simples presença&lt;/em&gt;. O que mais um cara todo falhado; mal acabado, como eu, pode querer dessa porra da existência? Fui em frente, Jaqueline. E aqui está a cobra mordendo o rabo, novamente. Assim vale mesmo a pena morder o rabo, cobra. Não naquela roda-sofredora; impertinente; de amor angustiado, prestes a explodir a toda hora, que eu vivia com Jaqueline. Uma Jaqueline que, por ironia e desmentido da tal eternidade do amor, hoje está a léguas de distância – física, mental, afetiva - de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, Luíza. Morena clara; pele bem branquinha; um metro e setenta; cabelos pretos e sedosos como um mar de petróleo; lindos, crespos. Uns cinco anos a menos do que a idade de Jaqueline e uns dez ou doze a menos do que eu. Champanhe gelado, nas taças. Música. E ainda me querendo muito; sem grilos e sem gritos. Sem telefonemas batendo na cara; sem encheção de saco. Sem correntes arrastando. Sem gritarias, sem vulgaridades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você conhece a teoria do Eterno Retorno, Luíza?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nunca &lt;em&gt;la vi mas gorda&lt;/em&gt;. &lt;em&gt;Lo que es&lt;/em&gt;? – me perguntou em portunhol, sonolenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma cobra mordendo o próprio rabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Una culebra&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Si, una culebra. Pero nada importante, flaca. Duerme, mi amor&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hmmm - dizia "está bien" e dava uma risadinha, divertida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto de brincar com a língua de Luíza. Com as duas. A língua de carne que ela tem na boca e que passa no meu corpo com uma paciência de gata, lenta, molhada, quentinha, deixando-me tesudo e doido. E a língua que ela fala; pronuncia, quando me diz coisas bonitas. A língua espanhola dela. Uma língua antiga, boa, delicada, que lapida e se emociona, que diz coisas que não se diz aqui no Brasil, com este nosso português vulgar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A palavra "vaga-lume", Luíza, como se diz em espanhol? – Eu pronuncio “Luíssa”, à moda espanhola. Ela gosta disso, ela se deleita, os olhinhos dela brilham. É um prazer para a sua alma, percebo. Ou uma homenagem. Como se eu, ao dizer aquilo, me jogasse no chão para ela passar por cima de mim com os seus pés branquinhos e macios. Uma coisa assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- “Vaga-lume” &lt;em&gt;es “luciernaga”&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;“Luciérnaga”&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Si, luciernaga&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que lindo. “Vaga-lume” é tão feio. Prefiro “luciérnaga”. Como no bolero do Luiz Miguel, quando ele fala em “luciernaga curiosa”. Eu queria ser uma “luciérnaga curiosa” pra iluminar você. Todos os seus cantinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sorri, como quem admite que eu já a ilumino.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;Às vezes, estando com Luiza, não sei se estou vivo ou se estou morto. Estar morto, nesse caso, não é algo tão ruim. Pelo contrário. É o limbo; a ausência de dor; o entorpecimento da existência; o mergulho numa piscina cheia de gel viscoso. Ouro; incenso e mirra; a suprema experiência do corpo e, principalmente, da alma. Deus, o Velho, ali, com a mão sobre a minha testa, como se fosse um pastor picareta numa igreja vagabunda de bairro cheia de pobres e de bancos de madeira velhos e descascados. Não mandando-me levantar e andar, mas - ao contrário – estimulando-me a ociosidade e dizendo para eu ficar deitado e curtir a luxúria. “Goza, meu filho”, de preferência umas três ou quatro vezes, ou o quanto eu agüentasse. Duas, no máximo, é aonde eu chego. Mas já está de bom tamanho. Deus limitou a minha atuação.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-3082036075390675700?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/3082036075390675700/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=3082036075390675700&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/3082036075390675700'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/3082036075390675700'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2009/04/de-bom-tamanho.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SeKUqaliVJI/AAAAAAAACZA/H1df1MA8xfY/s72-c/untitled03.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-1146192575519535041</id><published>2009-02-21T18:12:00.000-08:00</published><updated>2009-02-21T18:28:35.367-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SaC3gbWowAI/AAAAAAAACYQ/A5o4TVqXhPo/s1600-h/asterix.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5305442128768843778" style="WIDTH: 200px; CURSOR: hand; HEIGHT: 122px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SaC3gbWowAI/AAAAAAAACYQ/A5o4TVqXhPo/s200/asterix.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SaC3gJEey2I/AAAAAAAACYI/c18TvvuAqPg/s1600-h/untitled7.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5305442123860855650" style="WIDTH: 143px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SaC3gJEey2I/AAAAAAAACYI/c18TvvuAqPg/s200/untitled7.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SaC3gLO27lI/AAAAAAAACYA/6YB1CL8ggoE/s1600-h/pizza.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5305442124441251410" style="WIDTH: 134px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SaC3gLO27lI/AAAAAAAACYA/6YB1CL8ggoE/s200/pizza.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SaC3gA4fWCI/AAAAAAAACX4/RysKlNQdZS8/s1600-h/casal+mala+2.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5305442121663076386" style="WIDTH: 130px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SaC3gA4fWCI/AAAAAAAACX4/RysKlNQdZS8/s200/casal+mala+2.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;EM EXTINÇÃO.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(conto escrito em &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;agosto de 2008&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; - este Autor &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;não escreve mais&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;, veja as razões neste blog).&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Uma aspirina tomada com um copo de vitamina C efervescente, de laranja. A aspirina para a dor de cabeça que me atormentava e a vitamina C para a gripe que fatalmente viria, não sei quando. Dormimos a noite inteira com o ar condicionado do hotel ligado no frio. Cigarro, impregnado nas cortinas. A geladeira vazia, só água mineral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha, Débora, eu sei que vou morrer em breve. Aliás, só eu pronunciar esta frase já roubou alguns minutos da minha vida. Já repeti ela, mentalmente, algumas vezes. E a cada vez que penso nela, ou a digo, perco mais tempo sofrendo com isso. Eu estou indo embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não diz besteira – ela respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou sim. Se eu morrer, você vai sofrer bastante?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou sofrer muito. Mas porque você acha que vai morrer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu não &lt;em&gt;acho&lt;/em&gt;, eu &lt;strong&gt;vou&lt;/strong&gt; morrer. Porque vivo muito forte. Eu sei que vou. Estou me despedindo de você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não diz besteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu &lt;em&gt;sei &lt;/em&gt;que vou. Acredita em mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você vai fazer uma besteira? Quer...se matar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estou me despedindo de você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Suicidas são pessoas covardes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E quem aqui é &lt;em&gt;isso&lt;/em&gt;? Não disse que eu sou &lt;em&gt;isso&lt;/em&gt;; nem gosto dessa palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não morre tão em breve, então. – a sua voz falhou e os seus olhos se encheram de lágrimas, porque viu que eu falava sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não precisa chorar. Meu tempo aqui acabou. E não depende de mim. Isso vai cair sobre a minha cabeça, de repente, como um pedaço do céu. O &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#3366ff;"&gt;Asterix &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;tem medo de que o céu caia sobre a cabeça dele. Eu sou assim. E não estou me fazendo de vítima, Débora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O seu tempo aqui – ela fez um gesto amplo, mostrando tudo em volta – acabou? Mas porque?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pergunte a Deus, se você acredita nele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizer que nós &lt;em&gt;"dormimos a noite inteira com o ar condicionado ligado"&lt;/em&gt; era força de expressão. Dormir fora de casa, num hotel, nunca foi tranqüilo, para nós. Ficávamos inquietos, os dois, porque a hora de ir embora sempre chegava. Há anos era assim. E aquele negócio, que não chegava a lugar algum, e nem chegaria, tornava-se um tormento infindável na aurora daquelas manhãs mal dormidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não dormíamos direito. Conversávamos qualquer coisa, assistíamos televisão. Eu de cueca; ela de calcinha, sentados na cama. Um beijo quente e molhado da boquinha dela nos meus lábios secos e o meu pau logo ficava duro. Ela me chupava, eu abria bem as pernas dela, escancaradas, e a chupava também, com gosto e afinco. Fodíamos. Estávamos lá para isso. Para foder. Foder é bom. Foder, foder, foder até ficarmos assados. Esse é o amor. O maior bem da vida; o grande amor, a superação. Ir embora depois não é muito bacana, quando se quer ficar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conferir o quarto, para ver se não havia uma cueca ou calcinha dependuradas por esquecimento na torneira do chuveiro. Uma pulseira cheia de penduricalhos, um relógio, a carteira sobre a cabeceira da cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fim do sonho custava caro, pois deixava esquecido todo o início, a chegada. A chegada e o encontro davam um frio doído na barriga, mesmo após todo aquele tempo. Era sempre a primeira vez, a inauguração, o deslumbramento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na hora de ir embora, nem a barba eu fazia. Nem os dentes eu escovava, para que? A vaidade é só na preparação. Quando tudo se acaba a vaidade passa a ser inútil, vazia, cansativa, besta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela quieta, ao meu lado, com o olhar fixo, pensativo. Noite mal dormida; remorso; preparação para voltar ao mundo de verdade. Eu, arrastando a mala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A diária, uma garrafa de água mineral, dois telefonemas. O senhor pediu alguma coisa para o restaurante, nesta noite?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não. Pedimos duas pizzas a uma telentrega. Um &lt;em&gt;motoboy &lt;/em&gt;trouxe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comemos no máximo três fatias daquela pizza, a terceira já fria. Fiquei arrotando palmito. Havia impaciência. Pulamos na cama como dois animais que precisavam procriar urgentemente, a extinção não tardava. Ariranha, águia-cinzenta, baleia-jubarte, mico-leão-preto, pato-mergulhão, onça pintada, tamanduá-bandeira e tatu-bola, nós dois. Tudo em extinção. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;- Perfeitamente. O seu carro está na garagem? – o homem do hotel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, nós viemos de táxi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Muito bem. Débito ou crédito, senhor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela fingia distração, olhava para o outro lado quando se falava em dinheiro, porque era eu quem pagava, sempre. Aquilo sujava tudo. Não era com ela. Ou ficava com vergonha. Baixava a cabeça, apertava a boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Crédito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Visa&lt;/em&gt; ou &lt;em&gt;American Express&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Visa&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mala ficava pesada, parecia que tinha muitos quilos mais, quando não havia nada a mais, dentro dela, além daquilo que já havia quando chegamos. Peguei a alça, senti o suor debaixo dos braços, molhando a camisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na rua, o sol me cegava. A minha dor de cabeça resistia à aspirina. Ela caminhava ao meu lado, dizendo paliativos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Calor, né? Você vai me ligar ainda hoje?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É, está bem quente. E essa dor de cabeça. Te ligo, se eu conseguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se não der, tudo bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pôs a mão na minha testa e logo tirou, como se eu estivesse com febre e o que eu tinha era dor de cabeça. Apertou a boca, era o jeito dela sorrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá. Acho que vai dar, sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As ruas do Centro são velhas, apertadas, passa um carro de cada vez. Casas de fachada. Casas que ficarão, ali, apodrecendo, reformadas ou não, mal deixando rastros da sua própria arquitetura; do patrimônio histórico da Cidade. E que por isso não têm qualquer força para segurar os nossos rastros. E nem ao menos de quem viveu ali. A Cidade é indiferente a nós. Daqui a algum tempo, ninguém irá se lembrar que passamos por ali, nem nós talvez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Cidade: gente feia; mendigos; outdoors; ônibus, táxis, carros; lotações, carroças; edifícios; obras; bicicletas; barracas de vendedores ambulantes; aleijados; cachorros; velhas; putas; polícia; caminhões; igrejas; crianças; sarjetas; lixo; praças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gente caminhava na calçada, arrastando a mala e prestando atenção a tudo, por falta de assunto. Aquele vazio filho de uma puta. Querendo ficar, sem poder. O hotel ficando para trás, o amor. O meu suor, debaixo dos sovacos. A música saindo da janela de uma casa velha. Uma mulher fazendo faxina, dependurada na janela, vestia uma camiseta amarela que dizia &lt;em&gt;&lt;span style="color:#ff9900;"&gt;Carnaval 2002&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;; com desenhos de confetes e de serpentinas, uma alegria velha, de muitos anos atrás, e nem era Carnaval.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acendi um cigarro. Esperamos. Fiz sinal para um táxi, ele parou. Apaguei o cigarro. Entramos no táxi. O calor esquentava no vidro. Eu olhava para fora, a Cidade. Débora ao meu lado, quieta. Rádio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#33cc00;"&gt;“Corre a lua porque longe vai?/Sobe o dia tão vertical/O horizonte anuncia com o seu vitral/Que eu trocaria a eternidade por esta noite...”&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- Legal, essa música. Nando Reis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu sei. Também gosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Coincidência, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É, coincidência pra caralho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para o cabelo dela, pintado com reflexos. As raízes negras, originais, do cabelo. Pessoas, carros, crianças saindo do colégio, ônibus, buzinas. Minha perna encostada na dela. Escutávamos o &lt;em&gt;Relicário&lt;/em&gt;. A noite mal dormida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou descer nessa esquina, na farmácia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei a mala, pedi licença, levantei, cambaleando por causa dos bancos apertados do táxi. Ela roçou os dedos na minha calça, o que significava “tchau”. Paguei o táxi, dei mais dinheiro do que precisava. &lt;em&gt;“O troco fica com a moça”&lt;/em&gt;, eu disse ao motorista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tchau. Eu te ligo depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Liga, então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desci. Olhei para dentro do táxi. Ela sorriu, com a boca apertada. Não olhei para trás. Atravessei. Eu vivo muito forte. Meu tempo aqui acabou.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-1146192575519535041?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/1146192575519535041/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=1146192575519535041&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/1146192575519535041'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/1146192575519535041'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2009/02/em-extincao.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SaC3gbWowAI/AAAAAAAACYQ/A5o4TVqXhPo/s72-c/asterix.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-5347170677290334877</id><published>2009-01-05T18:19:00.000-08:00</published><updated>2009-01-07T12:57:06.847-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;PORQUE EU DECIDI ABANDONAR A LITERATURA &lt;span style="color:#ff0000;"&gt;DE FICÇÃO&lt;/span&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;"&gt;Desde muito jovem eu escrevo literatura &lt;span style="color:#ff0000;"&gt;de ficção&lt;/span&gt;. Desde os 17 anos, calculo. Depois disso escrevi também literatura biográfica-empresarial e jurídica. Mas a ficção, sobretudo &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;os contos&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;, é que foi o início de tudo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;"&gt;Tenho 44 anos. Parar de escrever ficção, agora, nesta fase da vida, é uma decisão que me custa muito, mas custa-me mais ainda saber que a falta disso não será notada. A indiferença é ainda pior do que a rejeição. Não tive a oportunidade, sequer, de ser rejeitado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim como eu, muitos, claro. Não sou o único. Mas por não ser o único, não tenho a menor vocação para seguir exemplos ou resignar-me diante de argumentos do tipo &lt;em&gt;“tem muita gente na batalha, na mesma situação”&lt;/em&gt;. Dane-se. Aquele é o argumento dos excessivamente conformados ou dos pacientes. Sou um inconformado e um impaciente, por natureza. Não me serve, o argumento. Ou, como me disse um conhecido poeta gaúcho: &lt;em&gt;"o que importa é que escrevas para ti mesmo"&lt;/em&gt;. Uma pinóia. Não quero escrever só para mim mesmo. Ele disse isso porque publicou inúmeros livros e chegou, com sucesso, ao seu público. Senão não diria. Não sejamos TÃO hipócritas. Hipocrisia é feio; façamos uso comedido dela. Só o necessário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim mesmo, não é sem dor ou sem reflexão que eu tomo essa decisão. &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff6600;"&gt;Renunciar&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; àquilo que se ama ou se quer muito exige uma força redobrada, digo sempre, e a minha capacidade de renúncia sempre foi posta à prova, em diversas oportunidades durante a minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira - a dor de parar - é maior do que a segunda - a reflexão - mas considero que pior se tornaria essa dor, com o passar tempo, pela minha insistência malograda, sucessivamente frustrada. E, sinceramente, acho que uma reflexão excessiva TAMBÉM não me levaria a lugar algum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou em busca, agora, de uma outra &lt;em&gt;expressão&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que eu sei é que eu PRECISO, como quem precisa do ar nos pulmões, de uma &lt;em&gt;expressão&lt;/em&gt; para a minha vida, que não seja apenas a minha profissão de advogado ou a minha vida em família ou na Sociedade. Eu arriscaria até a dizer que preciso, acima de tudo, de uma &lt;em&gt;expressão &lt;span style="color:#009900;"&gt;ARTÍSTICA&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;. Por enquanto fico apenas com o termo &lt;em&gt;expressão&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se não digo &lt;em&gt;expressão artística&lt;/em&gt;, aqui, logo de cara, é porque ainda não decidi e nem faço a menor idéia do que irá substituir a Literatura na minha vida. Aos 44 anos, já não tenho idade para &lt;span style="color:#ff9966;"&gt;competir&lt;/span&gt; num &lt;span style="color:#ffcc00;"&gt;esporte&lt;/span&gt;, por exemplo. O que não me impede de praticá-lo com dedicação, se eu resolver optar por isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou dedicar-me a uma &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#cc33cc;"&gt;arte&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;: pintura; artes plásticas; fotografia; música; danças de salão; qualquer coisa que me permita exteriorizar o que sou. Gosto de todas as artes, embora sempre julgasse que tinha vocação genética por uma única delas e está, justamente aqui, a conclusão derradeira pelo meu completo &lt;span style="color:#ff0000;"&gt;engano&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Frustrei-me na literatura ficcional, assim entendida aquela escrita não com base em fatos reais ou em temas jurídicos (como também já escrevi).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não recebi apoio dos meios de comunicação (&lt;span style="color:#cc33cc;"&gt;e o que mais me dói é não tê-lo recebido no meu próprio Estado, o Rio Grande do Sul&lt;/span&gt;); não recebi apoio dos escritores; quase nenhum da editora de &lt;strong&gt;SEGREDO E FIM&lt;/strong&gt;. Pouco apoio recebi do público leitor e mesmo a esse último – por pouco, que tenha sido – eu agradeço, penhorado e sincero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Considero ainda, sinceramente, sem querer atingir a alguém em especial com essa afirmação, que a Literatura, por si só, é feita por frustrados ou perdedores em alguma coisa. Em qualquer coisa. Alguém que seja totalmente realizado em tudo na vida - se é que exista uma pessoa assim - não escreve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só escrevemos para ter voz e vez ou para realizar coisas que não atingimos na vida dita real. A diferença é que alguns de nós, frustrados, sentem a necessidade e a vontade de escrever as suas frustrações e outros não a sentem ou sequer conseguem escrever, bem ou mal. Seja lá o que seja "bem" ou "mal", tremendamente subjetivo, em literatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, mesmo nessa escala de derrotados, há ainda mais uma categoria de frustrados ou perdedores. Que são os escritores que “dão certo” e escrevem alguma coisa aproveitável e os outros que, em contrapartida, só escrevem porcarias e chegam ao leitor mesmo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não pára por aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há, ainda, aqueles que chegam a algum lugar firmando o seu nome na Literatura (os mesmos e citados que "dão certo" e atingem ao público) e os outros, que jamais chegam a qualquer lugar dentro dela, mesmo escrevendo coisas aproveitáveis e belas ou bem escritas: nunca são descobertos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quero me fazer de injustiçado ou de &lt;em&gt;"bom escritor que não foi descoberto"&lt;/em&gt;. Até hoje não sei, direito, qual foi o lugar que de forma tão breve – embora por muitos anos – tenha tentado ocupar ou efetivamente ocupei. Sinceramente, não tive a &lt;em&gt;chance&lt;/em&gt; de saber. Mas isso, agora, já não tem a MENOR relevância.&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;"&gt;Provavelmente &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#cc33cc;"&gt;Raduan Nassar&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;, sempre citado por mim(mas sem querer comparar-me a ele, claro), na época em que escrevia (e há décadas ele já não escreve nada), não era tão festejado quanto hoje, que vive no seu exílio voluntário. Nem se fale em &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;Rubem Fonseca&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;, meu grande modelo e mestre involuntário, que no seu início foi duramente criticado e também vive numa espécie de auto-exílio até hoje, aos 83 anos de idade, escrevendo como jamais outro brasileiro contemporâneo escreve.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;"&gt;Tenho, ainda, inéditos, alguns contos; um romance inacabado (e sem nome) e também vários trechos de contos ou de textos que não chegaram a lugar algum, não concluídos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho por princípio o de não criticar ou desprezar o que já fui, algum dia, na vida, com qualquer idade passada que tive. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;"&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;E é em nome disso - por desafogo de consciência - e para não apagar completamente as minhas sinceras intenções e tentativas de comunicar o que eu escrevia, que ainda vou publicar essas “sobras”, doravante, aqui nesta&lt;/span&gt; &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;CAIXA DE CONTOS&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre que possível, com a data ao lado, para situá-las no tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não escreverei mais nada de &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ffcc00;"&gt;NOVO&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;, por absoluta incapacidade de fazê-lo e, também, por deliberada renúncia a uma parte que eu julgava muito importante do que eu sou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixo isso tudo aqui como uma garrafa daquelas jogadas ao mar com uma mensagem, como se vê nos filmes, ou como uma caixa enterrada na areia a ser encontrada, quem sabe, um dia, por um desbravador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda assim, corro o risco da crítica ou da indiferença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem encontra objetos desse tipo pode considerá-los verdadeiras relíquias. E também pode, ao contrário, jogá-los de volta ao mar ou deixá-los enterrados na areia e considerar que “é apenas lixo”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuo gostando de escrever, é claro, mas não pretendo e nem ambiciono mais dedicar essa escrita ao público com literatura de ficção como aquela que vim tentando, nesses anos todos, fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curiosamente, neste ano que se inicia eu tenho a possibilidade e o convite, ainda não totalmente confirmados (estou na fase de &lt;em&gt;sondagens&lt;/em&gt;), de escrever outra história empresarial, como aquela que já escrevi no ano de 2003, para uma empresa de Gramado/RS.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta vez, caso confirmada, será sobre uma empresa de outro Estado, para onde devo viajar algumas vezes e realizar as pesquisas; fotos e entrevistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem sabe esteja aí, ao lado dos temas jurídicos, um dos meus únicos canais de escrita, daqui para a frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma possibilidade bonita. Escrever histórias romanceadas de vidas reais e de gente que venceu com as suas empresas. Sempre é um desafio e uma real &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#33cc00;"&gt;UTILIDADE&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; emprestar as nossas mãos; o coração e a nossa mente para escrever as histórias de outras pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Posso, quem sabe, assim, realizar de certa forma (ainda que não daquela originalmente idealizada) o meu sonho que um dia foi o de ser um escritor profissional e viver exclusivamente da literatura &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;de ficção&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;E que, afinal, &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;nunca chegou a dar certo&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-5347170677290334877?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/5347170677290334877/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=5347170677290334877&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/5347170677290334877'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/5347170677290334877'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2009/01/porque-decidi-abandonar-literatura-de.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-6107600316622415432</id><published>2008-12-13T14:24:00.000-08:00</published><updated>2008-12-13T14:37:57.650-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SUQ3FtDXwUI/AAAAAAAACUI/b_E5n4GwMB8/s1600-h/untitled5.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5279405234317672770" style="WIDTH: 200px; CURSOR: hand; HEIGHT: 150px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SUQ3FtDXwUI/AAAAAAAACUI/b_E5n4GwMB8/s200/untitled5.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SUQ3FRAegqI/AAAAAAAACUA/PBK1OStmvrY/s1600-h/untitled3.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5279405226789339810" style="WIDTH: 145px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SUQ3FRAegqI/AAAAAAAACUA/PBK1OStmvrY/s200/untitled3.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SUQ3FYMWiYI/AAAAAAAACT4/YXlhSh_EIrg/s1600-h/mulher%2520joao.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5279405228718197122" style="WIDTH: 197px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SUQ3FYMWiYI/AAAAAAAACT4/YXlhSh_EIrg/s200/mulher%2520joao.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:180%;color:#cc33cc;"&gt;&lt;strong&gt;Percepção.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:78%;"&gt;Um conto de &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;ROBERTO SCHULTZ&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Sentada no pátio do restaurante, em certa hora levantou-se do chão uma folha seca e ela correu pela quina da calçada, o meio-fio, e foi sendo soprada, de leve, pelo vento. Areia fininha, junto com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O calor insuportável e abafado se foi ontem à noite, depois da chuva.Aquele temporal que destelhou casas e derrubou árvores sobre os carros, segundo o noticiário. A gente nem fica sabendo dessas coisas quando elas acontecem nesta cidade, pois elas sempre acontecem com os outros, nunca com a gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentada, ali, inerte, eu não estava indiferente ao vento fresquinho; nem à folha correndo soltinha; nem à tarde bonita. Sentada, ali, eu estava inerte. Mas não indiferente. O rio corria lá embaixo, onde não se enxergava. Os carros buzinavam e enfumaçavam. As pessoas entravam nos ônibus, e se empurravam, e faziam filas nos bancos. Crianças saíam dos colégios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo andava do mesmo jeito há dezenas; centenas de anos. E eu, no meio daquela tarde tão bela como um hino, ou como um &lt;em&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;Noturno&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; de Chopin. Bela como um caderno novo; uma calça de brim novinha. Uma tangerina geladinha, descascada, no prato verde. As unhas do pé, recém-saídas da manicure, na véspera da festa. Cada qual com a sua cor e a sua função na vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tarde me seduzia, naquele momento da vida, como homem algum conseguia. Os homens haviam se tornado para mim uma mancha, um cenário. Uma decepção. Coisas. Eram como a mancha do copo suado, deixada sobre aquela mesa do restaurante, cor de madeira de demolição. Olhei para a mancha redonda do copo e sorri, sozinha. Homem, aquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procurei a folha seca, mas ela já tinha saído do meu campo de visão. Alguém ligou o rádio e Roberto Carlos cantava, longe, uma música velha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#9999ff;"&gt;Índia seus cabelos nos ombros caídos/negros como a noite que não tem luar seus lábios de rosa para mim sorrindo/e a doce meiguice desse seu olhar....&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O vento; o mormaço; a vida; o chope; as pedras; o carro parado sob as árvores, com as portas abertas para ventilar; o Continente, enfim,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#9999ff;"&gt;.....Quando eu for embora para bem distante/e chegar a hora de dizer adeus/Fica nos meus braços só mais um instante/deixa os meus lábios se unirem aos seus/Índia levarei saudade da felicidade que você me deu...&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Então ele chegou e sentou-se à minha frente. Bateu com o indicador no vidro do relógio, para mostrar o atraso. Uma letra &lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#33cc00;"&gt;M&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; bordada no bolso branco da camisa muito branca. O gel nos cabelos alisados para trás; uma entrada grande e uma testa ampla. Um anel de prata na mão esquerda, com uma pedra &lt;span style="color:#ff0000;"&gt;vermelha&lt;/span&gt;. Cabelos, poucos, no peito, perto do botão desabotoado. Mocassins. A barra da calça dobrada. Sem meias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Se não fosse isso, tudo estaria bem, a culpa não foi minha&lt;/em&gt; – ele me disse. Eu sorri, tranqüila, e concordei, como se eu estivesse dormindo e alguém me dissesse “dorme, não foi nada” – &lt;em&gt;A culpa não foi minha&lt;/em&gt; - ele repetiu e eu concordei. Falou mais, e bebeu água mineral num copo muito claro e fininho. Levantou-se e foi embora. Fiquei ali mesmo, folheando uma revista que já tinha lido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela tarde, quando um barco buzinou, lá embaixo, no rio, a porra da coincidência do mundo, veja, coincidência que não escolhe dias para as coisas tão belas, e tão puras, e tão sombrias, e tão doces e tão más; foi a mesma tarde em que o carro prata dele entrou direto na curva do paredão de pedra da Serra, e bateu, e capotou, e amassou a sua cabeça contra a coluna no canto esquerdo do pára-brisa. Naquela tarde eu tinha saído dali, depois que ele se levantou e foi embora, e o Roberto Carlos cantava &lt;em&gt;&lt;span style="color:#ff9900;"&gt;Índia&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;, e todo o resto, o meu sorriso; a folha, a areia fininha, e a marca do copo na madeira de demolição, tudo isso se apagou para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A diferença que fez, tudo isso, na minha vida, acabou sendo unicamente aquela tarde. O resto seguiu.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-6107600316622415432?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/6107600316622415432/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=6107600316622415432&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/6107600316622415432'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/6107600316622415432'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2008/12/percepo.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SUQ3FtDXwUI/AAAAAAAACUI/b_E5n4GwMB8/s72-c/untitled5.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-507528823559667676</id><published>2008-11-08T09:00:00.000-08:00</published><updated>2008-11-08T09:30:54.437-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SRXJ99pQddI/AAAAAAAACKI/VWx1nnuLW4Q/s1600-h/Imagem440.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5266337405636474322" style="WIDTH: 200px; CURSOR: hand; HEIGHT: 150px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SRXJ99pQddI/AAAAAAAACKI/VWx1nnuLW4Q/s200/Imagem440.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SRXJ9bTGfrI/AAAAAAAACKA/TA5LNJCLP5Y/s1600-h/1108071135vi1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5266337396416741042" style="WIDTH: 160px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SRXJ9bTGfrI/AAAAAAAACKA/TA5LNJCLP5Y/s200/1108071135vi1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SRXJ9ZrVx3I/AAAAAAAACJ4/ZFJfsXIm_NA/s1600-h/cartao%2Bcorpo%2Bgordo%5B1%5D.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5266337395981535090" style="WIDTH: 180px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SRXJ9ZrVx3I/AAAAAAAACJ4/ZFJfsXIm_NA/s200/cartao%2Bcorpo%2Bgordo%5B1%5D.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#6633ff;"&gt;DICAS DE SUPERMERCADO&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;font-size:180%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;font-size:85%;"&gt;Um conto de &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;ROBERTO SCHULTZ&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;O melhor lugar pra se arranjar rolo com mulher é o supermercado, sobretudo aquelas mulheres fracassadas, que são sempre o meu público-alvo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teve épocas em que as missas na Catedral Metropolitana; a missa das seis e meia da tarde durante a semana ou a das dez da manhã de domingo, eram os lugares mais adequados. Esse tempo ficou para trás. Hoje a faixa etária nas missas subiu de uma maneira impraticável. Não sou nenhum garoto, mas as velhas que vão lá não servem nem para substituir a tia da gente. Sou católico ainda, mas só vou à igreja quando me meto em alguma enrascada graúda e preciso do apoio de Deus. É bem verdade que quase nunca cumpro o que prometo a Ele, que – graças a &lt;em&gt;Si&lt;/em&gt; próprio - a tudo perdoa. Mas desde sempre foi assim, eu fui muito tratante com Deus, e isso envolveu desde largar o cigarro até parar de me masturbar de três a cinco vezes por dia, quando era menino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consegui sair com duas ou três coroas que freqüentavam a missa na Catedral, mas elas requerem mais escrúpulos, mais ética, mais paciência, mais tudo. Mulheres desse tipo geralmente acompanham a mãe ou o pai à igreja, o que as torna pudicas e sestrosas. Além de serem antiquadas, usando umas roupas que não causam tesão nem mesmo num presidiário recluso há anos, sem mulher. A maioria delas usa as mesmas calcinhas (ou “calçonas”) que as mães ou se vestem em lojas que vendem roupas novas que já vêm com cheiro de roupa velha, que é para elas irem se acostumando. No máximo, compram calcinhas em supermercado. Tamanho grande, pra durar bastante. Foda, meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São hipócritas como as outras, mas por causa da Presença Divina precisam manter o disfarce ou reprimir todas as suas vontades. Morrem de vergonha de fazer sexo oral ou blasfemar ou dizer nomes feios como &lt;em&gt;filho da puta&lt;/em&gt; ou &lt;em&gt;corno&lt;/em&gt;, que eu vivo dizendo e não gosto de me cuidar em relação a isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse negócio do supermercado eu descobri por acaso, prestando atenção. Vivia no supermercado, nos finais de tarde. Comecei a garimpar vários &lt;strong&gt;talentos&lt;/strong&gt; por lá, mas não foi sempre que isso deu certo. Mulheres que se aborda em supermercado geralmente estão &lt;em&gt;pelas tabelas&lt;/em&gt;; &lt;em&gt;na capa da gaita&lt;/em&gt;; &lt;em&gt;pela bola sete&lt;/em&gt;; &lt;em&gt;na unha; no fio da navalha&lt;/em&gt;. Exatamente como aquelas da missa. Só que aquelas do mercado podem ser devassas; fantasiosas; ousadas; taradas. É certo que a maioria está com alguns – ou muitos – quilos acima do peso normal aceitável pelo INMETRO, caso o INMETRO fiscalize esse tipo de coisa. Mas eu também sou gordo, qual é o problema? Gordura não é pecado. O nosso corpo é a casa de Deus. Pecado é ser magro demais e detonar a casa de Deus, deixar ela cair aos pedaços. Foda, meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O melhor horário para se ir ao supermercado tentar pescar alguma desesperada é no final da tarde, quando começa a escurecer. É nessa hora que as derrotadas saem das suas tocas. Sabe porque? Psicologia, meu. Acontece que elas passam a tarde em casa enchendo o bucho de Coca com bolacha e vendo o &lt;em&gt;&lt;span style="color:#ff9900;"&gt;Programa da Marina&lt;/span&gt; &lt;/em&gt;ou outra dessas merdas. Quando o programa na tevê termina, elas começam a refletir sobre o sofrimento daquele povo chinelo que participa do &lt;em&gt;Programa&lt;/em&gt;. E que foi até lá bater boca com alguém da família ou pedir a reconciliação depois de ter traído a mulher com a caixa da farmácia ou um negócio desses. Pobre gosta dessas coisas. E mulher pobre e largada no mundo, então, &lt;strong&gt;adora&lt;/strong&gt; esse tipo de coisa. Quanto o &lt;em&gt;Programa&lt;/em&gt; termina ela pensa &lt;em&gt;minha vida é uma merda, vou dar uma volta no supermercado e gastar grana num agradinho pra mim mesma&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É aí que eu entro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É preciso estar limpo e com aparência respeitável. Faço a barba para ir ao supermercado. E, mais importante: o sapato. Mulher desse tipo olha para o sapato do homem. Não se pode ir de tênis. Ainda mais sendo gordo. Magro ou musculoso de tênis é esportista. Gordo é porco; fracassado, desleixado. Sapato engraxado e de cadarço. Sapato de gordo sem cadarço, daqueles de enfiar o pé, geralmente é amassado, todo amarfanhado, o couro fica rachado. Gordo tem preguiça de calçar sapatos e um sapato desse tipo é um convite à vagabundagem. Você acorda e enfia o pé por debaixo da cama procurando o sapato. Quando o encontra, quem disse que se abaixa para &lt;em&gt;enfiar&lt;/em&gt; o sapato no pé? Enfia o dedão e o resto do pezão gordão lá dentro e aí fodeu, o sapato vira um chinelo. Ah, chinelo, então, no supermercado, nem pensar. Sapato. Com meia fina, tudo na &lt;em&gt;socialáite&lt;/em&gt;. Também calça social e camisa. Pode ser de manga curta. Mas camisa social, porque gordo de camiseta é a mesma coisa que o negócio do tênis: jogado, porco. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Cabelo penteado. Perfume no pescoço. Desodorante. Relógio. Quem gosta de anel; anel. Até pulseira de ouro, se tiver. Eu já fui algumas vezes ao supermercado de paletó e gravata, mas o paletó ficou pequeno e eu parei de usar. Meu pai dizia que homem de camisa social e gravata sem paletó só se for daqueles &lt;em&gt;mórmons&lt;/em&gt; que andam caminhando na rua pra cima e pra baixo vendendo a Bíblia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O melhor lugar para se abordar uma mulher abandonada no supermercado é nos &lt;em&gt;&lt;span style="color:#33cc00;"&gt;Hortifrutigranjeiros&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;. Por quê? Porque elas vão lá é comprar bolacha recheada e chocolate para amenizar o sofrimento humano que as contaminou de tarde no &lt;em&gt;Programa da Marina&lt;/em&gt;. E vão comer tudo isso na frente do computador, à noite, falando na Internet e enchendo o teclado do computador de farelos e, as mais ousadas, de pentelhos. Gostam de sexo virtual. Mesmo elas indo ao supermercado só por causa do chocolate e das &lt;em&gt;&lt;span style="color:#cc33cc;"&gt;Trakinas&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;, gostam mesmo é de fingir que foram até lá comprar maçã ou rúcula. E é nesse momento, meu, que é preciso atacar. "Entrar na mente" delas (escutei isso num filme).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí você aparece (sapatinho brilhando; calça e camisa passadas; meia; cabelo penteado, perfume, desodorante, etc...) como se fosse o jacaré, com aquele olhar mortiço para a garça. Mas já balançando a cauda para acertar ela em cheio no meio das idéias e tontear a presa. E a simples observação sobre uma maçã, por exemplo, já é um bom inicio. Dizer para aquela solitária mulher uma coisa do tipo &lt;em&gt;essa maçã está linda, assim, vermelhinha, parece uma pintura&lt;/em&gt; já demonstra alguma sensibilidade. Só uma bicha chamaria uma maçã de &lt;em&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;vermelhinha&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; mas, afinal, azar. Ela vai se identificar com aquele gosto fingido (seu e dela) por maçã, pela ecologia, pelas coisas de Deus, a natureza e o escambau. E ainda vai ficar encantada com um homem que compara uma maçã com uma pintura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso é relativo, claro. Há mulheres desconfiadas e outras muito burras. Nem sempre uma ou duas informações culturais trocadas com elas dão certo e elas acabam fugindo. Não insista. Já aprendi que se você insistir no papo e fizer a terceira e a quarta observações ela vai pensar que você é um tarado (e você &lt;em&gt;&lt;span style="color:#9999ff;"&gt;não é&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;) que a está seguindo acaba puxando papo com outra mulher, ou com um velho, para se safar de você. Há algumas que até chamam o segurança. E segurança em supermercado não faz porra nenhuma, passa o dia coçando o saco, está louco para levar alguém para o quartinho lá nos fundos e descer o cassetete na cabeça do sujeito. Chama os outros seguranças pelo rádio e a merda está feita. Foda, meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro, ela pode corresponder à primeira e à segunda observações e acenar com um sorriso e, assim mesmo, a falta de assunto matar a continuidade do papo e deixar uma promessa. Vá atrás. Sempre com encontros “casuais”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alcancei Nádia, uma coroa magra e fumante (dentes escuros, unhas amarelas, voz grossa), na prateleira do papel higiênico e mostrei a ela a oferta do papel com rolos de 50 metros pelo mesmo preço dos rolos normais de 35 metros. Não é muito romântico, mas ela dormiu algumas noites na minha cama e a gente, depois, até ria da história dos rolos de 50 metros de papel higiênico, porque era papel demais. A gente ria, pelados, na cama, e dizia &lt;em&gt;haja bunda&lt;/em&gt;, foi muito engraçado daquela vez. Durou pouco, a voz dela era muito grossa e ela não largava o cigarro. Queimou duas fronhas, bordadas com as minhas iniciais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também foi no supermercado que conheci Vera, que por um probleminha de dicção pronunciava seu próprio nome como “Fera”. Vera-Fera era uma véia que gostava de dançar no &lt;em&gt;&lt;span style="color:#cc6600;"&gt;Clube da Saudade&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; e falava tudo no diminutivo, meiguinha, um negócio realmente xarope de se agüentar. Cozinhava um &lt;em&gt;franguinho&lt;/em&gt;, bebia uma &lt;em&gt;cervejinha&lt;/em&gt; e comia muitos – &lt;strong&gt;muitos&lt;/strong&gt; – &lt;em&gt;docinhos&lt;/em&gt;. Também era obcecada pela morte e seguidamente sonhava que alguém conhecido morria. No dia em que ela sonhou que &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff9900;"&gt;eu&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; havia morrido (“tragicamente”, segundo ela) eu resolvi me mandar. Ela consolou-me, dizendo que sonhar com a morte de alguém significava mais vida para a pessoa, mas eu – a pessoa – não estava a fim de conferir o resultado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez encontrei no supermercado uma colega minha de colégio, Loiva, que tinha a mesma idade que eu, mas que havia sido muito castigada pelo tempo, a pobre. Impraticável, detonada. Foda, meu. Nem tentei. Nem ela, que também fingiu que não tinha me reconhecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No supermercado, a última tentativa depois dos Hortifrutigranjeiros é na prateleira da &lt;em&gt;Bomboniére&lt;/em&gt; (o chocolate, lembra?); nos Biscoitos (&lt;em&gt;&lt;span style="color:#33ff33;"&gt;Trakinas&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; recheada) e até, não falei, nos &lt;em&gt;Congelados&lt;/em&gt;. Se for gorda é certo que ela vai nos &lt;em&gt;Congelados&lt;/em&gt;. Eu sou gordo e não saio do supermercado sem um congelado, não sei cozinhar. Além disso, adoro coisas massudas como &lt;em&gt;rondeles&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;canelones&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;lasanhas&lt;/em&gt;. &lt;strong&gt;Preciso &lt;/strong&gt;ir nos &lt;em&gt;Congelados&lt;/em&gt;, é como se fosse necessário abrir a geladeira e tirar um parente lá de dentro. É como ir ao &lt;em&gt;&lt;span style="color:#ffcc66;"&gt;Instituto Médico Legal&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; e reconhecer o corpo gelado de um amigo. Um negócio assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em último caso, procure nos &lt;em&gt;Detergentes, Alvejantes&lt;/em&gt; e produtos para limpar o piso, pois algumas se frustram e resolvem desrecalcar a solidão limpando a casa.&lt;br /&gt;Vai por mim, tenta um supermercado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No verão, melhor ainda. Só ficam na cidade os pés-de-chinelo que não têm casa na praia; dinheiro para o hotel e nem um parente trouxa para se encostar na casa do cara nos finais de semana. E os depressivos; os solitários; os feios ou os meio neuróticos que não gostam do sol ou da areia da praia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É esse o terreno fértil para se encontrar uma mulher solitária e precisando justamente de alguém como a gente. Nessa época é mais fácil ainda à noite. Elas vão de táxi, ao supermercado. É um programa de sábado. Agem como as minhocas que esperam a noite para sair debaixo das pedras, do limo, da umidade onde vivem escondidas para irem atrás de comida. Ou comprar um pano de prato ou, sei lá, um vasinho com a porra de uma violeta murcha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foda, meu.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-507528823559667676?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/507528823559667676/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=507528823559667676&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/507528823559667676'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/507528823559667676'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2008/11/dicas-de-supermercado.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SRXJ99pQddI/AAAAAAAACKI/VWx1nnuLW4Q/s72-c/Imagem440.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-8891292330012008549</id><published>2008-10-18T12:43:00.000-07:00</published><updated>2008-10-20T03:16:43.488-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SPo-6C3pTCI/AAAAAAAABow/2BMaOE-grSw/s1600-h/prostituta.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5258584681832074274" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SPo-6C3pTCI/AAAAAAAABow/2BMaOE-grSw/s200/prostituta.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SPo-6qUlvDI/AAAAAAAABo4/VZCVMVv8Kbk/s1600-h/pD20051101_14245101_camelo_DVD_Policia.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5258584692422458418" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SPo-6qUlvDI/AAAAAAAABo4/VZCVMVv8Kbk/s200/pD20051101_14245101_camelo_DVD_Policia.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SPo-7Dgrs7I/AAAAAAAABpA/SaxKSDkatUw/s1600-h/2457a547ed74b145db90a5422c9e07eb4c6a775c-destaque.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5258584699184067506" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SPo-7Dgrs7I/AAAAAAAABpA/SaxKSDkatUw/s200/2457a547ed74b145db90a5422c9e07eb4c6a775c-destaque.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;ALGUMA COISA &lt;span style="color:#ff9900;"&gt;PARECIDA COM AMOR&lt;/span&gt; NA VIDA.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:85%;"&gt;Da série &lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;O ROMANCE DOS COMUNS&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Não sou muito bom com as mulheres, o amor não é uma coisa que eu conheça muito bem. Nem sei se essa porra existe mesmo. Por falta de opção, pago por ele ou por coisa bem parecida. E por conta disso, meto-me nas piores bibocas. Bebo vinho vagabundo, em garrafas de plástico. Ouço conversas fiadas sem qualquer fundamento. Mentem para mim, descaradamente. Danço com qualquer &lt;em&gt;&lt;span style="color:#33ccff;"&gt;fubanga&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;. Choro ouvindo música sertaneja. Arrebento as minhas mãos cheias de calos na cara e nos dentes de qualquer desclassificado, em brigas nas quais me meto nos bares ou nos puteiros desta porra de cidade. Fodo-me. Mas fodo muita gente, em todos os sentidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procurando consolo, já me dei mal. Muito mal. O &lt;span style="color:#3366ff;"&gt;Tenente&lt;/span&gt; segurou algumas paradas por mim, das outras eu me safei sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu comia uma puta ali no centro. Ela se apaixonou por mim, porque o meu pau é gostoso, dizem. Sei foder. &lt;span style="color:#6600cc;"&gt;“Fodeção e carinho”&lt;/span&gt;: meu lema. Isso apaixona as mulheres. Eu pagava a ela cinqüenta reais e ainda a fazia se contorcer feito uma lagartixa no fogo. Eu também urrava de prazer. Era bom para os dois e ela começou a sentir ciúme de mim. É raro fazer com quem uma puta sinta ciúmes da gente; é preciso ser bom na coisa. Eu sou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia marquei com ela e fui. Era uma casa velha que ficava naquelas ruas antigas do centro; uma ladeira, a casa parecia abandonada. Sem placa ou luz vermelha na fachada. A porta era espelhada e lá de dentro ela via quem chegava, mas da rua não se enxergava para dentro. Toquei a campainha. Ela sempre demorava e eu fiquei parado na frente, esperando, calado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele dia notei que dois caras vinham subindo a rua. Era uma dupla muito estranha. Um grandão e muito forte, de camiseta regata. Junto com ele, o baixinho com cara de nortista. Cabeça chata, cabelos crespos e ralos. Eu parado na frente do puteiro, esperando a putinha abrir a porta. Ela sempre me abria a porta de cabelo molhado, com um short apertado. Ela era meio carnuda, passando do ponto. Cheiro de xampu é um negócio tão forte para mim que bate na cabeça do meu pau. Fico tesudo com cheiro de xampu. Naquela hora fiquei com medo que ela abrisse a porta na hora em que eles – o fortão e o baixinho – iam passando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então eles pararam. O grandão ficou quieto. Um homem daquele tamanho e forte, quando é assim muito quieto, é o maior perigo, porque geralmente é frio. O baixinho me olhou e perguntou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso aqui é um &lt;span style="color:#cc33cc;"&gt;cabaré&lt;/span&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não sei – eu respondi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que? Fala aqui no meu ouvido, porque eu sou surdo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me aproximei do ouvido esquerdo do baixinho e repeti &lt;em&gt;&lt;span style="color:#009900;"&gt;não-se-i&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; bem alto e devagar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, não sabe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É, não sei – repeti pela segunda vez, agora mais alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá – ele disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foram embora, sem agradecer, subindo a ladeira. Eu fiquei olhando para os dois. Me deu medo deles. A rua era comprida, tinha colégios e prédios e outras casas velhas como aquela. Justo naquela casa onde eu estava parado na frente ele foi perguntar se ali era um cabaré e eu disse &lt;em&gt;não sei&lt;/em&gt; para o nortista surdo. Ele perguntou mas &lt;em&gt;&lt;strong&gt;sabia&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; que ali era mesmo um cabaré.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda enxerguei os dois dobrando a esquina, não olharam para trás. Peguei o celular e liguei para o Tenente e avisei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tenente, vai acontecer uma coisa aqui. Uns caras estranhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Onde cê tá? – ele perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- No centro, na frente da casa da puta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quantos são?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acho que só os dois que eu vi. Mas um é bem grande e forte. O outro é baixinho, cabeça chata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tão &lt;em&gt;maquinados&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acho que não. O grandão tá de bermuda e camiseta sem manga, não tem onde esconder o &lt;em&gt;ferro&lt;/em&gt;. No baixinho não deu pra ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Na Vasco Alves? Que número é a casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Na Vasco Alves. Setenta e dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Sessenta&lt;/em&gt; e dois?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Sete dois&lt;/em&gt; – desliguei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conheci essa puta por acaso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri o tabuleiro. Por mania de perfeição, ponho óculos de sol, rádios, bronzeadores, todos separados por produto. Ela já estava lá, na esquina, encostada na parede da farmácia antiga, que hoje está fechada. Com uma saia curta, de couro. Uma sandália alta, com um &lt;em&gt;band aid&lt;/em&gt; no dedo mínimo do pé. Quando eu a vi, noutras vezes, ela também tinha um &lt;em&gt;band aid&lt;/em&gt; no dedo mínimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Minha unha é quebrada&lt;/em&gt;, ela me disse daquela vez, antes de eu perguntar. Na certa tinha vergonha de andar com um &lt;em&gt;band aid&lt;/em&gt; no dedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quanto custa? - fui direto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quanto custa o que, &lt;em&gt;meu filho&lt;/em&gt;? - o fato de ela me chamar de “meu filho”, como se eu fosse um guri de quinze anos, me aborreceu. Eu era pouco mais velho do que ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O programa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tu vai ter que vender muita pulseirinha pra pagar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem sabe a gente troca?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Troca?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É. O programa pelas pulseirinhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah-ah-ah.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estou falando sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu também - ela respondeu, irritada, e levantou o dedo do meio pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não tem só pulseirinhas. Tem maquiagem. Tem &lt;em&gt;gloss&lt;/em&gt;, você não está precisando de &lt;em&gt;gloss&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quanto vale um negocinho desses? - ela chamou o meu &lt;em&gt;gloss&lt;/em&gt; de “negocinho” para diminuir o preço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uns quinze reais - aumentei o preço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quinze? Dá no máximo um boquete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Era o que eu queria, numa tarde nublada destas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vai te catar – levantou o dedo do meio, de novo. A unha vermelha estava descascada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já tive putas de todo tipo, porque já &lt;em&gt;meti&lt;/em&gt; dinheiro grosso. Eu não era um camelô fodido. E nada é mais frio e nem desconsola mais do que algumas putas. Não as putas de beira de estrada ou dessas que se viram ali na esquina, pobres coitadas. Mas as refinadas e jovens, endinheiradas e bonitas, das casas de massagem urbanas; acompanhantes de luxo. Elas são frias e o prazer que dão sempre foi um prazer tão passageiro quanto arrependido, por causa do dinheiro que gastei. Não ligam para você. Mesmo que você seja novo e bonito, só perguntam o seu nome se você for rico, se mostrar alguma grana. Fodem e voltam correndo pra pegar um outro trouxa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É só dinheiro. São como assassinos numa guerra. É preciso matar, eles matam. E pronto. Sem emoção, sem envolvimentos, sem querer saber quem você é ou deixa de ser, desde que sejam pagas. Não me iludo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a putinha pobre naquela casa do centro eu fodia num quarto úmido e escuro, ficava acesa apenas a luz do banheiro. Era uma cama alta e com cheiro de cachorro molhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma coisa que parecia amor, principalmente se ela estava com o cabelo molhado e com cheiro de xampu. Ela suspirava baixinho enquanto eu estava com o pau dentro e parecia que tinha vergonha de gozar, mas eu achava a melhor coisa do mundo e dizia &lt;em&gt;eu te amo, meu amor&lt;/em&gt; e ela não respondia nada. Apenas sorria e aproveitava a vida antes que ela acabasse, mesmo assim era uma coisa muito boa e Deus estava lá, com Sua mão poderosa sobre a minha cabeça e os meus olhos e o meu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que barulho é esse?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deve ser o meu tio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tio dela era um velho que circulava na casa e que passava por mim como se eu não existisse e ali não fosse um puteiro. Nem era tio coisa nenhuma, mas andava por ali com uma cara respeitável como se estivesse numa igreja rezando o &lt;em&gt;Pai Nosso&lt;/em&gt; e a gente ali, fodendo e fodendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava de costas para a porta encostada quando vi no meu celular, no chão ao lado da cama do quarto escuro, uma mensagem do Tenente que dizia &lt;em&gt;já estou contigo&lt;/em&gt;. Fiquei mais tranqüilo, mas não deu muito tempo de pensar porque senti duas mãos cascudas e bem fortes de homem me pegando pelas orelhas e me jogando com toda a força contra um cabide de ferro que havia dependurado num canto. Caí, meio zonzo, sentindo o sangue pingando na minha testa e então o baixinho surdo me disse&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tu &lt;em&gt;&lt;strong&gt;não sabia&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; que aqui era um puteiro, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele enrolou uma coisa de vidro com tampa de aço na mão, acho que um saleiro, e bateu forte com aquilo na minha boca e eu senti vontade de vomitar. A putinha não gritou e nem falou nada, só olhava e se enrolava no lençol fedorento. Contra o reflexo da porta estava o fortão de bermuda, quieto, me olhando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fortão mal se virou para ver o que era aquele estrondo atrás dele e o Tenente entrou com uma espingarda de cano serrado e arrebentou ele no meio com um tiro que me deixou ainda mais zonzo. O grandão caiu no chão, misturado com sangue. Atrás do Tenente entraram um negro de jaqueta de couro e um cara forte com a farda da Policia Militar e pegaram o baixinho surdo pelos cabelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mata ele – eu disse com a língua enrolada por causa do sangue e do inchaço na boca. O negro e o policia fardado seguraram o baixinho no chão com os braços abertos e o Tenente veio com um cabo de vassoura e deu duas porradas fortes com a ponta de madeira na boca do surdo e quando ele abriu a boca o Tenente enfiou o cabo até onde deu e o cara vomitou sangue e comida. Morreu ligeiro, o filho de uma puta. Você já viu um homem morrer, que coisa feia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora a gente vai conversar nós dois – eu disse para a putinha e ainda sentia o cheiro de xampu no cabelo dela. Medo, ela tinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É bom a gente ter &lt;span style="color:#ff9900;"&gt;&lt;strong&gt;alguma coisa parecida com amor na vida&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;. Mas a amizade de um homem é uma coisa tão boa e tão segura e tão bonita que não existe um conforto maior e nem mais importante de se ter quando se precisa olhar para algum lugar e enxergar um amigo, ali, na bucha, apoiando a gente. É quase como se casar e ser feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi isso o que eu senti quando olhei para o Tenente no escuro do quarto. Um homem que sempre esteve comigo quando eu precisei tomar cachaça e chorar falando de mulher e escutar as tristezas dele, porque nunca alguém consegue ser totalmente feliz. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-8891292330012008549?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/8891292330012008549/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=8891292330012008549&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/8891292330012008549'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/8891292330012008549'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2008/10/alguma-coisa-parecida-com-amor-na-vida.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SPo-6C3pTCI/AAAAAAAABow/2BMaOE-grSw/s72-c/prostituta.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-6860604740192933504</id><published>2008-10-05T14:00:00.000-07:00</published><updated>2008-10-06T16:03:12.920-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SOkxtJL1NuI/AAAAAAAABmY/JtkOAAzLhR0/s1600-h/Quarto%2520Park%2520Hotel%2520noite.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5253785091933812450" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SOkxtJL1NuI/AAAAAAAABmY/JtkOAAzLhR0/s200/Quarto%2520Park%2520Hotel%2520noite.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SOkxtQkEsVI/AAAAAAAABmg/BDo4LBgr9a4/s1600-h/img33087_shoesgirl.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5253785093914538322" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SOkxtQkEsVI/AAAAAAAABmg/BDo4LBgr9a4/s200/img33087_shoesgirl.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SOkxtSP9lOI/AAAAAAAABmo/NPNHgqYIym8/s1600-h/untitled4.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5253785094367057122" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SOkxtSP9lOI/AAAAAAAABmo/NPNHgqYIym8/s200/untitled4.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#cc33cc;"&gt;VALE DE LÁGRIMAS&lt;/span&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:85%;"&gt;Da série &lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;O ROMANCE DOS COMUNS&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Trebuchet MS;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(conto finalizado ao som de &lt;em&gt;Come back to me&lt;/em&gt;, de Janet Jackson, assista ao vídeo em &lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=qq6eyn4jvwU"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;http://www.youtube.com/watch?v=qq6eyn4jvwU&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;A vida não é apenas um vale de lágrimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há dias, e principalmente noites, em que com pouca coisa se constrói o paraíso. Com as mesmas mãos de unhas pretas de um carpinteiro, que aplainaram tábuas durante o dia inteiro, à noite se aperta o corpo macio de uma mulher e de tudo isso – das mãos e do corpo desse homem e também do corpo e da alma dessa mulher – tira-se um mundo que até então permanecia escondido, subterrâneo, onde ninguém enxerga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um mundo que não se vê, mas que está dentro de cada pessoa, basta ser provocado e extraído dela. Ele está na individualidade; já está presente em nossa própria solidão. Mas de preferência é preciso - e muito melhor - juntar duas pessoas para desfrutá-lo devidamente. De sexos diferentes ou até do mesmo sexo, não importa. Ontem mesmo, no elevador do &lt;span style="color:#ffcc00;"&gt;Shopping Eldorado&lt;/span&gt;, vi dois caras que pareciam felizes e que levavam para casa uma planta – uma samambaia ou algo assim – que certamente enfeitaria o lar deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A felicidade repartida é sempre melhor. Isso tudo está lá, esperando para ser desenterrado, como se fosse o tesouro do pirata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí do restaurante do Shopping com uma garrafa inteira de um &lt;em&gt;chardonnay&lt;/em&gt; chileno chamado &lt;em&gt;&lt;span style="color:#999900;"&gt;Los Vascos&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; na cabeça e, no táxi, indo para o meu hotel na Vila Madalena, minhas idéias começaram a tontear e eu pensei num lugar-comum para dizer e disse ao motorista&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;São Paulo não pára nunca&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;É verdade&lt;/em&gt; – ele concordou. E não parecia a fim de estender a conversa. Não me disse mais nada. Melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acionei o vidro elétrico do carro e o ar da noite que entrou no táxi era abafado, morno. Peguei o telefone celular no bolso do casaco e mandei uma mensagem de texto para Ângela dizendo &lt;em&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;espero que você durma bem, nesta noite morna&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há meses não nos víamos; não nos falávamos, com raiva um do outro, e se eu estivesse sóbrio não teria mandado mensagem alguma, mas o vinho e aquele meu vasto mundo interior em solidão me empurravam para as atitudes idiotas e impensadas. E tanto mais idiota era a atitude porque a partir da mensagem disparada eu, bêbado, passaria a esperar pela sua resposta. Que podia não vir. E isso tendia a piorar as coisas para o meu lado. Principalmente se além de dormir bem naquela noite &lt;em&gt;morna&lt;/em&gt;, ela também estivesse dormindo &lt;em&gt;acompanhada&lt;/em&gt; por alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre mim e Angela umas coisas estranhas aconteciam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa outra vez, também estando em São Paulo, sozinho, brigado com ela há vários meses (anos?), eu havia jantado e, por absoluto tédio, me preparava para dormir quando o meu telefone celular tocou no quarto do hotel. Era Angela. Não ligou outras vezes naquela noite, não mandou nenhuma mensagem de texto. Só deixou o telefone tocar, como se dissesse: &lt;em&gt;&lt;span style="color:#ff99ff;"&gt;eu estou aqui&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ela estava, naquela vez, a mais de 800 quilômetros de mim. Com tanto tempo separados, por certo não fazia a menor idéia de onde eu estava ou se eu estava com &lt;em&gt;alguém&lt;/em&gt;. Era como se o pensamento dela, ou o seu abandono, se materializassem no espaço e encontrassem os meus, onde os meus estivessem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas volto, bêbado, ao táxi, na noite morna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei ao hotel e peguei na recepção o cartão magnético que era a chave do meu quarto. Subi sozinho no elevador do hotel olhando para o meu próprio rosto refletido no espelho da cabine. A tonteira do vinho me fez errar duas vezes a ala onde se localizava a porta do meu quarto. Então, cansado, tirei os sapatos e parei no corredor e olhei para fora da janela do &lt;em&gt;hall &lt;/em&gt;do décimo sexto andar. O carpete alto e macio do corredor foi um alívio para os meus pés. Joguei meus olhos lá fora, para a noite de São Paulo, àquela hora mais calma e esporádica. Suspirei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrei a porta do meu quarto e a abri. Depois enfiei o cartão de plástico na fenda que ficava à direita da porta de entrada e que fazia com que todas as luzes do quarto se acendessem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tirei o paletó e desfiz o nó da gravata de seda bordô. Larguei os sapatos ao pé da cama. Dobrei a calça cinza sobre o espaldar da cadeira. Liguei a televisão e fiquei futucando nos botões do controle remoto. Abri uma lata de &lt;em&gt;Coca Light&lt;/em&gt; e entornei toda ela num gole só, precisava matar o vinho branco que ainda me consumia o cérebro; os olhos, a boca, o coração. A camisa e a cueca viraram duas bolas de pano. Entrei no banho e sentei-me na borda da banheira, deixando a água – muito quente e forte – escorrer no meu pescoço e nas minhas costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A madrugada começava a ensurdecer São Paulo e a ressaca apertava o meu pescoço e dava socos fortes na minha cabeça. Um joelho apertava o meu peito, e era um joelho macio de mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando saí do banho desliguei o &lt;em&gt;Programa do Jô&lt;/em&gt; e apaguei a luz do quarto. Abri as janelas e fechei as cortinas do quarto. O vento do décimo sexto andar, agora não tão morno, empurrava as cortinas para dentro. Deitei-me completamente nu e, instintivamente, com a mão, procurei no meio das minhas pernas um resto de emoção que não havia para me ajudar a sobreviver àquele momento. O tal mundo interior que eu alardeava existir em cada pessoa (e em mim mesmo) não me socorria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então o painel do telefone celular se acendeu: Ângela. &lt;em&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;Também estou em São Paulo, durma bem&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;. Eu não sei como e nem me interessa, mas eu não havia dito na mensagem que eu estava em São Paulo e no entanto ela disse &lt;em&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;também estou&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; na mensagem que me mandou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Liguei para ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Quer vir aqui, ficar comigo?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Não é muito tarde?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Para nós sempre tudo parece muito tarde, Ângela.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Ela suspirou, do outro lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Vou demorar um pouco, ainda&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Não vai&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Hã?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Você não vai demorar porra nenhuma, Angela. Pega um táxi agora mesmo, eu pago. Eu não sei esperar. Você me conhece. Eu não sei esperar.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Nunca soube. Só quando lhe convém.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Não vamos começar. Vem, &lt;strong&gt;agora&lt;/strong&gt;. Vou esperar lá embaixo, na recepção&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vesti outra roupa e desci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há anos (meses?) não via Angela e nem me lembro mais qual foi o motivo que nos afastou. Estávamos, os dois, longe de casa, como dois cachorros sarnentos e sem cura, abandonados na sarjeta, precisando um do outro para lamber as feridas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu caminhava impaciente na calçada do hotel, na Vila Madalena, às duas horas da madrugada, com o coração batendo na garganta. O verniz dos carros brilhantes na luz da noite era bonito de se ver, e eles passavam cheios de gente alegre, boêmia, alguns buzinavam sem motivo. Eu olhava para o relógio e conversava fiado com a recepcionista do hotel, provavelmente acostumada com sujeitos esperando mulheres na portaria àquela hora; mas um outro tipo de mulheres, que chegavam a qualquer hora e que eram &lt;strong&gt;pagas &lt;/strong&gt;pelos caras que as esperavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o táxi enfim chegou e a porta traseira se abriu, a primeira coisa de que me lembro e vi foi a &lt;em&gt;&lt;span style="color:#ff99ff;"&gt;cor&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; da sandália de Ângela. Uma cor que usam, nos filmes e nas letras, para representar um mundo suave e maravilhoso. Para representar feminilidade e até a infância. Para representar doces e nuvens. Mares de flores. Algodão doce.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No quarto onde até então eu estava sozinho e nu; nua agora estava Ângela, deitada de bruços sobre a cama, e foi sobre aquela maciez que eu, novamente nu e rijo, deitei-me e desfrutei do seu corpo como se enterrasse uma parte de mim - dura, granito - numa areia morna e movediça e, de olhos fechados ou abertos, tirava de dentro de nós dois o tal mundo conjunto e subterrâneo, que todo mundo merecia ter e não tinha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Era um mar de rosas, da cor &lt;em&gt;rosa-bebê&lt;/em&gt; das tiras da sandália de Ângela, pois a vida não é apenas um vale de lágrimas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-6860604740192933504?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/6860604740192933504/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=6860604740192933504&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/6860604740192933504'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/6860604740192933504'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2008/10/vale-de-lgrimas.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SOkxtJL1NuI/AAAAAAAABmY/JtkOAAzLhR0/s72-c/Quarto%2520Park%2520Hotel%2520noite.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-2499084966881630830</id><published>2008-09-24T19:59:00.000-07:00</published><updated>2008-09-24T20:32:19.825-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SNsEwRBkRdI/AAAAAAAABkY/Z_WFXFb8NC0/s1600-h/19112005-37.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5249795017880651218" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SNsEwRBkRdI/AAAAAAAABkY/Z_WFXFb8NC0/s200/19112005-37.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SNsEwWMm2JI/AAAAAAAABkg/VuGnR4z8VDo/s1600-h/emmao.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5249795019269134482" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SNsEwWMm2JI/AAAAAAAABkg/VuGnR4z8VDo/s200/emmao.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SNsEwql61wI/AAAAAAAABko/7YvP80DECZc/s1600-h/felicidade.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5249795024744011522" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SNsEwql61wI/AAAAAAAABko/7YvP80DECZc/s200/felicidade.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:Trebuchet MS;font-size:180%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;GENTE &lt;span style="color:#ff6600;"&gt;SEM &lt;/span&gt;QUALQUER &lt;span style="color:#ff6600;"&gt;FELICIDADE&lt;/span&gt; PERMANENTE&lt;/span&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:85%;"&gt;Da série &lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;O ROMANCE DOS COMUNS&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Trebuchet MS;font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;música incidental para finalizar este conto: &lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#cc66cc;"&gt;MUERTE DE UN ANGEL&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;, &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:78%;"&gt;escrita e executada por &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;ASTOR PIAZZOLLA&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:78%;"&gt;(assista a um vídeo em: &lt;/span&gt;&lt;a href="http://br.youtube.com/watch?v=Z92szaC-Jds"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:78%;"&gt;http://br.youtube.com/watch?v=Z92szaC-Jds&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:78%;"&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Venta, nesta noite. Venta muito, nesta época do ano. O inverno já se foi. Então o frio é muito mais por dentro da pele; é um frio interno. Alguém olha para o céu? Eu olho para o céu. Quem caminha pela rua, e olha para o céu, já sente a nostalgia do inverno, como se ele não fosse voltar nunca mais. Quem sabe não volte mesmo, para mim? Pode-se morrer na Primavera ou no Verão. Morrer no Outono é mais bonito, mas não se estará lá para ver. As nuvens acinzentadas, agora, estão indo embora. Dá vontade de gritar, olhando para o céu, &lt;em&gt;não me deixem&lt;/em&gt;. Elas correm, quase sempre iluminadas pela lua. É uma lua bonita, mas geralmente cruel. Quase tudo o que é bonito é imensa e irremediavelmente cruel. Dá vontade de gritar &lt;em&gt;não me maltrate&lt;/em&gt; para a lua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se tivesse morrido e não perdido o braço direito, mastigado pela máquina do elevador, eu estaria melhor. Antes eu me chamasse &lt;em&gt;José&lt;/em&gt;, ou apenas &lt;em&gt;Zé&lt;/em&gt;, e não &lt;strong&gt;João &lt;/strong&gt;Romualdo como eu me chamo, para não ser chamado de “João-sem-braço”, pelas costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vagar pela Cidade: disso, mesmo ela estando deserta, eu ainda gosto. Se tivesse os dois braços, com toda a certeza eu não estaria aqui. Estaria onde estão todos os outros, por aí. Na serra; numa praia; numa fazenda; jogando vôlei ou escalando um morro. Sei lá. Estou apenas onde Micaela me deixou. Onde deu para eu ficar. Então, agora eu gosto daqui. E vago por aí. Acaba sendo uma solidão quentinha, que me consola. Arrepio-me por piedade de mim mesmo e nisso há um pouco de prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Verão também tem o seu momento sinistro. Já prestou atenção a esta Cidade, num feriado de Verão? A Terça Feira de Carnaval, por exemplo? Quem anda nela? Só os fracassados, cada qual na sua tribo. Gente velha; gente gorda e feia. Gente pobre. Evangélicos, gritando dentro das igrejas, pedindo a Jesus que lhes salve da doença, da desavença, da falta de dinheiro, do calor. &lt;em&gt;Jesus! Jesus! Jesus!&lt;/em&gt; Chamam por ele o tempo todo, desesperados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jesus é o cacete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava quente, Micaela foi me buscar. Eu &lt;em&gt;normal&lt;/em&gt;; aquele &lt;em&gt;eu&lt;/em&gt; que &lt;em&gt;ainda&lt;/em&gt; tinha os &lt;em&gt;dois&lt;/em&gt; braços. Aquele que eu era há alguns anos. Não este aqui. Um outro. Não o “João-sem-braço” da piada. O primeiro, de antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subimos a serra comigo dirigindo o carrão preto dela. Não era um carro de luxo, mas era um carro bom. Eu nem carro tinha. Ela perguntou, antes da viagem, &lt;em&gt;quer dirigir&lt;/em&gt;. Eu disse &lt;em&gt;quero&lt;/em&gt;. A direção era perigosa. Curvas. Sujeitos vendendo mel e frutas, na beira da estrada. Plátanos amarelados. Carros parados, gente bebendo água nos &lt;em&gt;belvedere&lt;/em&gt;, olhando precipícios. Fotografando pedras, árvores, morros, neblina. Casais. Coisas bestas que sempre se fotografa na beira da estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Avançamos uns cem quilômetros e um monte de beijos imprudentes de língua que foram esquentando cada vez mais. Aquele negócio. Ela olhou-me com um olhar sacana e perguntou &lt;em&gt;quer brincar de uma coisa&lt;/em&gt;. Eu disse a ela &lt;em&gt;quero só ver o que vem daí, Micaela&lt;/em&gt;. Ela riu e disse &lt;em&gt;olha que eu sou uma diabinha&lt;/em&gt;.Eu respondi &lt;em&gt;tá bom, então&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu só tinha visto aquilo em filmes. Filmes &lt;em&gt;ruins&lt;/em&gt;, acho. E já vivi muita coisa. Ela enfiou a mão por baixo do vestido e foi tirando a calcinha, que guardou no porta-luvas do carro. Abriu o meu zíper. Uma boca bem molhada e uma língua macia. Tudo foi esquentando do meu estômago para baixo. &lt;em&gt;Ondas&lt;/em&gt;. Eu segurava firme, com as duas mãos que eu ainda tinha, no volante do carro, morto de medo e de &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ffcc00;"&gt;felicidade&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;. Parecia que eu estava sonhando. Era um dia lindo, assim, como aqueles dos filmes. O que eu sentia era bem mais do que isso, mas “lindo”, já define tudo. Pipocava, a minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carro subia a estrada em curvas. Preocupavam-me os caminhões e ônibus que passavam ao lado. Da altura onde estavam, poderiam ver tudo o que se passava no nosso carro. E o que se passava no nosso carro eram um homem e uma mulher entregues ao velho, dedicado, delicado e inquieto exercício de mexerem um no corpo do outro; molhando-se um no líquido do outro; provocando suspiros um no outro; num agito de músculos e de suspiros. Era o que alguns bestas chamam de &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;amor&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; e que eu chamo de aplacar o desespero; sufocar a carência. Vida pura, nas nossas veias abandonadas de &lt;span style="color:#cc33cc;"&gt;gente sem qualquer felicidade permanente&lt;/span&gt;. Felicidade, ali, só aquela, pequena, que mal dava para o gasto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ventava pela janela do carro, um ar gelado. Ela me olhou e disse &lt;em&gt;olha, só temos um ao outro e é só hoje. É só isto aqui. Não tem amanhã. E nem mais nada. Nem patrimônio comum. Nem carro e nem casa. Nem conta conjunta no banco. Nem aliança de casamento. Nem nenê nascendo. Nem merda nenhuma.Só nós dois&lt;/em&gt;. Eu olhei para ela, sorri, e disse &lt;em&gt;é, eu sei&lt;/em&gt;. Tive medo de que ela acabasse tudo naquela hora e quando eu tenho medo de contrariar alguém sempre digo &lt;em&gt;eu sei&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem a humilhação, branca e gelada, que o vento cutuca na manga vazia do braço faltante enquanto eu caminho pelas ruas – inverno ou verão, tanto faz - pode ser comparada à ausência daquelas coisas tão boas, tão preciosas. E nem à lembrança que me tira o sono, deitado no assoalho duro e falhado da minha sala vazia, em plena madrugada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um sentimento desses, arrancado do meu corpo e da minha alma, é um atentado contra a própria natureza humana. A minha natureza e a de Micaela sofrem com o afastamento desse corpo e dessa alma que nos alimentaram mutuamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que nos nutriram todos os sentidos, alguns que a gente nem conhecia. E fundiu o cuspe; o sangue e a porra dos nossos corpos. Que chumbou numa bolinha de metal (daquelas de aço, do rolamento dos carros) os nossos dois olhares, por um momento fugaz – ou não – durante o simples ato de nos encontrarmos naquela estrada da serra ou, melhor ainda, no único auge, que foi na cama, durante o amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se tivesse moído os dois braços na máquina do elevador e não morrido, efetivamente, como morri deste jeito, certamente eu estaria muito melhor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-2499084966881630830?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/2499084966881630830/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=2499084966881630830&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/2499084966881630830'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/2499084966881630830'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2008/09/gente-sem-qualquer-felicidade.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SNsEwRBkRdI/AAAAAAAABkY/Z_WFXFb8NC0/s72-c/19112005-37.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-362165693728197109</id><published>2008-09-18T11:24:00.000-07:00</published><updated>2008-09-18T11:49:46.717-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SNKhx43sfMI/AAAAAAAABi4/WykOg04XKwc/s1600-h/cohen-sofa.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5247434394291698882" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SNKhx43sfMI/AAAAAAAABi4/WykOg04XKwc/s200/cohen-sofa.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SNKeP_O8_zI/AAAAAAAABig/1JITu5GtbQU/s1600-h/olheiras_interna.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5247430513349426994" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SNKeP_O8_zI/AAAAAAAABig/1JITu5GtbQU/s200/olheiras_interna.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SNKeQKEUeEI/AAAAAAAABio/_N66o4ydnGA/s1600-h/agnaldorayol.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5247430516257617986" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SNKeQKEUeEI/AAAAAAAABio/_N66o4ydnGA/s200/agnaldorayol.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SNKeQLvuPDI/AAAAAAAABiw/2JBP-kfDxGI/s1600-h/gorda.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5247430516708097074" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SNKeQLvuPDI/AAAAAAAABiw/2JBP-kfDxGI/s200/gorda.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#993399;"&gt;PERDA TOTAL&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:78%;"&gt;Da série &lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;O ROMANCE DOS COMUNS&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Era para mim uma fase realmente difícil e eu não tinha muita escolha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela mulher se chamava &lt;strong&gt;Tecla&lt;/strong&gt;, como se fosse o pedaço de um computador ou piano. Antes ela fosse como o pedaço de um instrumento tão bonito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por causa do nome, comecei mal. Ofendi-lhe logo de cara, sem querer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Tereca&lt;/em&gt;? Que apelido gozado hein?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É &lt;em&gt;Tecla&lt;/em&gt;, o meu nome. Não é um apelido. O nome de uma santa. &lt;em&gt;Santa Tecla&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Queira perdoar. Entendi errado. Ando meio surdo. Foi um rojão, no futebol. Nome de santa, então, é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mulher com nome de santa é sempre um negócio meio restrito, travado. Tabus, pecados, aquela merda toda. Senti que bateria na trave.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu a conhecera numa terça de manhã, quando ela tocou a campainha do meu apartamento úmido, vendendo planos de saúde. Nunca tinha visto alguém vender planos de saúde de porta em porta, mas aquilo era uma tarefa pessoal que Tecla se impusera, numa espécie de “estratégia de marketing inovadora e revolucionária”. Na verdade isso de revolucionário nada tinha. Há pelo menos sessenta anos as pessoas já vendiam a &lt;em&gt;Barsa&lt;/em&gt; ou potes de plástico batendo na porta umas das outras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava há uns dois meses sem mulher e lancei a rede. Não estava a fim de grandes esforços sedutores e peguei a primeira que me apareceu. Literalmente, batendo à minha porta. Colou. Nem precisei “aderir” ao plano que ela vendia. Sempre tive saúde, um plano desses é para quem tem doença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muito tempo eu não saía com uma mulher &lt;em&gt;mais velha&lt;/em&gt;. O mais irônico é que essa &lt;em&gt;mulher mais velha&lt;/em&gt; tinha a minha própria idade, uns poucos meses a mais do que eu. Habituado a mulheres mais novas, eu sofria com aquela relação, mesmo sendo curta. E eu sofria ainda mais, de arrependimento e de culpa, logo depois das relações físicas propriamente ditas, que tinha com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebi que era bobagem sofrer por causa daquilo. As coisas foram tão frias, para mim e para Tecla, que eu não tinha como me apegar a uma mulher daquelas. E ela também jamais sofreria por minha causa. Eu não tinha mais ninguém e nem ela tinha. Quebrávamos o galho, um do outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcamos um novo encontro em frente a uma farmácia de bairro, perto da esquina onde eu morava. As mulheres, mesmo que também tenham, como Tecla tinha, a única intenção de usar a gente para tirar o &lt;em&gt;atraso&lt;/em&gt; do sexo, sempre gostam de fazer um misterinho. Marcar um encontro para beber um guaraná e comer um pastel. Criar um clima, essas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na frente da farmácia não havia um boteco decente, onde pudéssemos fazer o nosso joguinho de cena. Só tinha um mini-mercado, daqueles antigos, onde o dono atendia no balcão de carnes e a mulher dele no caixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá dentro havia uma mistura de cheiros de água sanitária com maçã argentina. Carne seca ou lingüiça defumada com sabão de coco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo assim, fomos beber a bosta do guaraná. Não havia mesas ou cadeiras. Bebemos de pé em frente ao balcão de fórmica e vidro. E chegava gente a toda hora, para comprar. Uma velha de cabelo azulado. Uma bicha com o seu cachorrinho &lt;em&gt;fru-fru&lt;/em&gt;. Uma mãe com dois filhos querendo picolés. Vendedores de cigarros, na &lt;em&gt;kombi&lt;/em&gt; da fábrica. Desocupados querendo esticar a conversa com o dono do lugar. E todo mundo de orelha comprida no papo que eu levava com Tecla. E a gente sabia onde aquele papo ia acabar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fomos obrigados a conversar com a boca semi-aberta, fazendo biquinho, engolindo palavras e disfarçando outras. Eu me sentia como se estivesse com a boca cheia de aftas e não pudesse falar direito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&lt;em&gt;V´m sr dqui&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Hã? – Ela não entendia quase nada do que eu dizia. Eu falava comendo as letras, para que os freqüentadores do mercadinho não ouvissem a nossa conversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&lt;em&gt;Vam sair dqui&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Sair?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-É, daqui. Sair. Vamos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tecla parecia vacilar. Não queria parecer muito oferecida, mas também não desejava perder a oportunidade. Peguei com gentileza no braço mole dela e a levei para a frente do mercadinho, na calçada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Tecla, você acha que a gente podia ir na minha casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Na sua casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-É, na minha casa, sem compromisso, entende...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Entendo. Sem compromisso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Desculpe, viu? Não quero lhe ofender. Não vá me entender mal. É que aqui a gente não consegue conversar direito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Difícil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-O que?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;-´O que´&lt;/em&gt;, o que? – ela me perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-O que é difícil, Tecla? Você ir lá em casa? Ficou chateada comigo, né? A gente pode deixar para um outro dia. Não sou tarado. Não vou forçar a barra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É difícil conversar aqui no mercado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Pois então! Lá em casa a gente podia falar melhor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Tá bom. Vamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ela entendeu a minha proposta, nem vacilou. Fomos. No caminho fiz outras piadas bestas, pra descontrair. As mesmas piadas que eu fazia com todas as outras. Nem precisava, ela iria de qualquer jeito. Tecla ria, mas apenas com os olhos. Estranha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não sabia se ela era tímida e tinha medo de perder a chance comigo ou se era apenas prática e queria ir logo para a cama e sem papo furado. Mulher que trepa na primeira ou na segunda pode ser qualquer uma dessas coisas. Ou coisa pior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podia ser também uma dessas depressivas que põem um comprimido debaixo da língua. E ela fumava. As depressivas sempre fumam. E fumam com o cigarro preso na ponta dos dedos, com a ponta virada pra cima, quase na vertical. É batata. Tecla não segurava o cigarro assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se gabava de ser “loura natural, de olhos verdes” como se isso fosse grandes bostas ou a garantia de alguma beleza. Eu já havia enfrentado várias mulheres dessas quando andei procurando namoradas na Internet ou em anúncios classificados de jornal que diziam “loura, olhos verdes, sincera”. Provavelmente um bando de trouxas feito eu iria atrás desses anúncios por causa do “loura, olhos verdes”. Ninguém se dá conta de que se uma mulher dessas vai procurar namorado no jornal é porque alguma coisa está errada com ela. E quando chega lá, o cara vê que a loura de olhos verdes é tão bela quanto o &lt;em&gt;Incrível Hulk&lt;/em&gt; do gibi. Tanto nos olhos verdes quanto no tamanho descomunal, na gordura. E vê que ela não foi tão sincera quanto alardeou no anúncio. “É sinistro com perda total”, como diz um amigo meu que vendia seguros. Na verdade não sei se os olhos do &lt;em&gt;Incrível Hulk&lt;/em&gt; são verdes. E ele não é gordo; é forte. Enfim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tecla era a pior categoria de loura. Pálida e desbotada, sardenta. Por causa da idade - a mesma idade que eu - tinha inúmeras rachaduras no canto dos olhos. E profundas olheiras. Tudo, no mundo, tem vantagens e desvantagens. Pelo menos ela me poupou dos rodeios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entramos no meu apartamento. O &lt;em&gt;Che Guevara&lt;/em&gt; no pôster me olhou com aquela cara surpresa de “mais uma dessas? Está baixando o nível, hein, companheiro?”. Sentamos no sofá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quer água?- eu perguntei, educado. Só tinha água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não. Só me beija – ela respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beijei. Uma língua enorme. Bafo de cigarro. Antes de beijá-la vi que nos cantos da sua boca havia uma espuminha. Lembrei da história do comprimido debaixo da língua. Depressiva, certamente. Aquela espuminha era a seqüela do remédio. Ou coisa pior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomara que não resolvesse se matar, quando eu a deixasse, em breve. Era certo que eu iria deixá-la. Mas antes eu precisava me divertir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que a gente faz agora? – perguntei, me fazendo de trouxa. Eu sabia &lt;em&gt;bem&lt;/em&gt; o que fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que você quiser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi pra já. Tirei a calça e a cueca. Meu pau saltou pra fora, pronto para o combate. Mais por atraso do que por vontade própria, coitados de mim e dele. Deitei-me no sofá, de costas, exibindo a minha exuberância. Ela se envaideceu, achou que aquela dureza era por causa dela. E tirou a roupa. Tecla era muito branca, gordinha. Estrias, celulite. Pêlos pubianos demais, um ouriço. Unhas dos pés roxas. O pior eram aquelas olheiras, que pareciam feitas com uma rolha queimada, sob os olhos verdes. Mas era uma boa moça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Transamos. Não posso dizer que foi ruim, principalmente por causa da minha carência. Sofro por causa dessa carência. Mas também não foi bom. E Tecla não dava qualquer sinal de que estivesse gostando. Estava seca, sem lubrificação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá bom? – perguntei em pleno ato, por falta de assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá, né? – ela respondeu perguntando, como se eu estivesse cortando a franja do cabelo dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei ali, fazendo o que eu sabia fazer. E sei fazer bem, mas era um negócio sem entusiasmo. Tentei botar a mão entre as pernas dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Prefiro que você mexa nos meus peitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu obedeci. De vez em quando olhava para Tecla e ela estava me olhando, quieta, com os olhos parados, sem expressar nada. Olhava-me como quem pergunta “você ainda está por aí?”. E eu estava. Mas aquele olhar manso dela, parado, sem expressão, fazia com que eu me sentisse um desses tarados que transa com a própria cachorra. Bestialismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, nesse caso, Tecla parecia uma vaca. Branca, dócil, quieta. Não, pior. Uma tartaruga. Era como se eu estivesse transando com uma enorme tartaruga marinha de olhos verdes que, paciente, esperava terminar o incômodo ritual do acasalamento para poder voltar para o mar e nadar em paz. Comer alguma coisa, caçar um peixe, encher o bucho. Botar ovos na areia. Fazer coisa melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era para mim uma fase realmente difícil e eu não tinha muita escolha. Mas era o que se podia arranjar. Depois que ela saía eu botava um CD do &lt;strong&gt;Agnaldo Rayol&lt;/strong&gt; e me sentava no sofá furado, suspirando. Uma tristeza sem fim. Perda total.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-362165693728197109?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/362165693728197109/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=362165693728197109&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/362165693728197109'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/362165693728197109'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2008/09/perda-total.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SNKhx43sfMI/AAAAAAAABi4/WykOg04XKwc/s72-c/cohen-sofa.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-6659665977368275819</id><published>2008-09-11T19:29:00.000-07:00</published><updated>2008-09-11T19:54:24.243-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SMnYTac5P_I/AAAAAAAABgI/JREolBx3nmA/s1600-h/untitled2.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5244961069079281650" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SMnYTac5P_I/AAAAAAAABgI/JREolBx3nmA/s200/untitled2.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SMnYTp5i4aI/AAAAAAAABgQ/asCTi9k0bFc/s1600-h/crepusculo.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5244961073225982370" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SMnYTp5i4aI/AAAAAAAABgQ/asCTi9k0bFc/s200/crepusculo.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SMnYTisIHnI/AAAAAAAABgY/3W1P5tBgEt4/s1600-h/untitled.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5244961071290654322" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SMnYTisIHnI/AAAAAAAABgY/3W1P5tBgEt4/s200/untitled.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SMnYTxaCojI/AAAAAAAABgg/2aBblLjl8-4/s1600-h/estre1.gif"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5244961075241329202" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SMnYTxaCojI/AAAAAAAABgg/2aBblLjl8-4/s200/estre1.gif" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;*&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;MI NEGRA SOLEDAD&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Da série &lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;O ROMANCE DOS COMUNS&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;"&gt;* Conto totalmente escrito ao som de &lt;strong&gt;Fito Paez&lt;/strong&gt; tocando, ao piano, a música &lt;em&gt;&lt;strong&gt;Waltz for Marguie&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; - assista em &lt;/span&gt;&lt;a href="http://br.youtube.com/watch?v=jzAHeTV6ZM0&amp;amp;feature=related"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;"&gt;http://br.youtube.com/watch?v=jzAHeTV6ZM0&amp;amp;feature=related&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Tem alguém me esperando, aí fora, Clarice?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tem, sim. Mando entrar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É homem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um homem e uma moça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É um cara magrinho, com um bigode?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso, Doutor. E a moça é uma &lt;em&gt;moreninha&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma &lt;em&gt;moreninha&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É, uma &lt;em&gt;morena&lt;/em&gt;, alta. Bonita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma &lt;em&gt;&lt;strong&gt;negra&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É. Uma &lt;strong&gt;&lt;em&gt;negra&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Manda o homem esperar. Espera cinco minutos e pede à moça que entre. Ela pode passar direto, não precisa avisar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice saiu da minha sala. Levantei-me e fui até o banheiro, lavei as mãos e espremi uma boa porção de sabonete líquido nelas. Apanhei o perfume no armário e borrifei um pouco no pescoço. Passei um pente no cabelo. Olhei os dentes no espelho. Estavam bons. Fechei o armário. Abri de novo. Peguei uma dose de antisséptico bucal e bochechei. Abri a porta do banheiro e voltei para a sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça era Soledad, filha de um músico cubano que veio parar aqui na década de 60. Nome de personagem de novela mexicana que significa &lt;em&gt;Solidão&lt;/em&gt;. Não tinha nada a ver uma coisa com a outra, mas sempre que eu pensava nela escutava o Fito Paez, que é argentino, tocando o piano, todo descabelado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela já estava sentada na cadeira em frente à minha mesa. Com a bolsa no colo. Olhava-me com olhos acesos. A pele fresquinha, brilhosa. A boca e o nariz dela pareciam feitos de chocolate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tudo bem? – perguntei, sincero e conciliatório. Não gosto de momentos de fúria, de desavenças. Isso sempre me fez mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela mediu bem as palavras. Disse-as soletrando calmamente, mas com lágrimas nos olhos. O branco dos olhos dela palpitava contra a pele negra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você é um grande &lt;em&gt;hijo de puta&lt;/em&gt;, né? &lt;strong&gt;Nada&lt;/strong&gt; está bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Soledad, aqui não é bom a gente conversar essas coisas. Calma. Quem sabe a gente conversa em...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não vou a outro lugar. Já tentei antes e você não atende ao telefone. E eu não levantei a voz. Estou falando num tom de voz que só você escuta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inteligente e bonita. Unhas pontudas e vermelhas. Parece uma ironia de minha parte dizer isso, mas mesmo com os palavrões ela costumava ser educada, polida. Porém extremamente ácida, nos seus julgamentos. E xingava um pouco em espanhol, língua paterna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela uma vez referiu-se a um amigo meu como alguém que era “nojento de tão tímido”. Dizia que a dele era uma timidez “penetrante e surdo-muda” que o impedia de ir à praia; ao cinema; dançar (Carnaval nem pensar!) e principalmente de falar em público, ainda que esse público fosse composto por duas pessoas que lhe encontrassem na rua. “Uma pessoa dessas”, Soledad bramia inconformada e pejorativa, “é alguém que autoriza que lhe caguem na cabeça. E, se você quer saber, tem mais é que cagar mesmo. Uma ameba, &lt;em&gt;un cosa&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;un mierda&lt;/em&gt;”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu já a tinha visto referir-se a outras pessoas de quem não gostava, além do meu amigo, assim, como “um coisa, um merda”. Não sei até se já não fizera isso em relação a mim mesmo, sem que eu soubesse, pelas minhas costas. Agora ela me xingava, ali, na minha frente e no meu trabalho, sem rodeios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que foi que a Clarice lhe disse a meu respeito, quando eu cheguei?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A Clarice?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É, a Clarice, a secretária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não disse nada. Disse apenas que havia uma moça e um cara esperando por mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma moça? Ela disse assim mesmo, “uma moça”?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso. Disse “uma moça”. Qual o problema com a Clarice, agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nenhum, falei várias vezes com ela por telefone. E ela sempre me tratou muito bem. Mas hoje tive a certeza de que ela não esperava, pela minha voz, que eu fosse uma &lt;em&gt;moça negra&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não começa, Soledad...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E você, com esse seu narigão vermelho e empinado, certamente esperava que eu completasse agora “sou negra &lt;em&gt;&lt;strong&gt;mas&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; não sou burra”, mas eu não vou lhe dizer isso. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. &lt;em&gt;Vocês&lt;/em&gt; esperam sempre que a gente corresponda ao estereótipo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não tem mesmo uma coisa a ver com a outra. Mas não entendo essa conversa de "vocês" agora, o nosso assunto aqui é outro. Aqui nunca teve esse papo de racismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, claro que não.. – irônica - Você não nasceu negro e nem filho de um artista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem me dera...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chega. Não precisa iniciar o papinho de entrevistador de televisão na linha &lt;em&gt;“quem me dera ter nascido negro e com esse talento”&lt;/em&gt;. Hipocrisia e nariz, isso você tem de sobra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Essa porra sobre o meu nariz está me irritando. Está me magoando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A conversa parecia uma retrospectiva dos piores momentos. O racismo no Brasil; o meu nariz grande; o pai músico dela. E fugia do que realmente interessava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não vou lhe magoar e nem irritar mais. É a última vez que você está me vendo de perto. Eu não venho mais aqui, você não precisa mais me procurar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo me causava uma tristeza abafada, sem solução. A gente realmente &lt;em&gt;sente&lt;/em&gt; quando alguém vai embora e não volta nunca mais. Aquele não era um momento para decidir as “definitividades” da minha vida. Mas eu não queria me afastar de Soledad.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu te amo... – disse-lhe num gesto de braços abertos, mistura de resignação com inconformidade. E disse aquilo a ela com os olhos tristes de um cachorro que acabara de escavar o jardim da sua dona, pedindo desculpas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se amasse, não tinha feito o que fez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Amo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando disse “amo” involuntariamente cerrei os punhos, de dor. Como sempre faço quando estou nervoso. Já me peguei assim no cinema; num show; jogando futebol; ouvindo o Fito Paez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei com vontade de cravar-lhe os dentes na bochecha ou na nuca, como ela gostava, mas não me mexi na cadeira. Não tive coragem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Senta no meu colo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela olhou bem firme para mim, levantou-se de onde estava, veio até mim e sentou-se no meu colo. Mas não havia qualquer obediência no seu gesto. Ela &lt;em&gt;quis&lt;/em&gt; fazer aquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beijei seus olhos, sua boca, sua cabeleira crespa que eu tanto adorava. Sua língua estava quente e molhada. Ela estava indo embora de verdade. Ela olhou fundo nos meus olhos. Levantou-se do meu colo. Eu levantei da cadeira, chaveei a porta da sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não dissemos uma palavra. Ela curvou-se sobre um balcão e me olhou mais uma vez. Levantei o seu vestido e baixei-lhe a calcinha. Entrei de uma única vez no seu corpo. O mesmo calor e a umidade da boca. O amor não ia explodir, ali, até o fim, porque não haveria tempo. O amor naquela hora era apenas uma fusão rápida e fugaz; era só um querer mais do que um simples abraço. Era a nutriz; a força; a chuva dela que caía sobre a minha terra pela última vez. Só isso. Sem gôzo, sem gemidos e, dolorosamente, sem palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ajeitou o vestido azul e saiu. Cumpriu a sua promessa. Depois que ela fechou a porta nunca mais nos vimos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto, desde então, de imaginá-la como uma menina, justamente porque é uma mulher. Vestidinho azul, leve, cheio de florzinhas, tal como na última vez em que a vi. É uma imagem de sonho, uma imagem de filme. Mas é uma menina. Especialmente porque é uma mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E porque me lembro dos seus olhos inocentes e negros, que são meio tristes e ela nem percebe. Lembro disso como quem se lembra de uma coisa bruta e artesanal; vaso de argila pintado de várias cores, ou um guardanapo de crochê cheio de floreios e de pontos; ou um bolo de cenoura quentinho, coberto por uma calda de chocolate, numa tarde de inverno rigoroso e distante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É para ser uma imagem idílica, a dela, delicada, translúcida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É, essa imagem, tudo o que eu gostaria que ela fosse, e que talvez ela seja na realidade, mas por não saber, acaba por não se torná-lo. E penso que a falta de contato comigo acabe por afastá-la completa e definitivamente disso. Não porque eu vá deixar de pensá-lo ou de sabê-lo, porque para mim isso hoje é uma verdade minha. Incontestável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas porque temo, sinceramente temo, que ela volte a ser exatamente o que era antes de me conhecer. Entrar no meu mundo a tornou alegre, mas também lhe tornou um pouco triste, porque lhe dei a conhecer a si mesma e a tornei exigente em relação às suas próprias coisas, em relação ao que fora antes de mim. Ou tornei-a exigente, mas com as &lt;em&gt;minhas&lt;/em&gt; exigências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despi aquela &lt;em&gt;mujer negra&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;la cubanita&lt;/em&gt;, do seu verniz original. Então, agora, tento devolvê-la, ainda alegre, ao que ela era antes de me conhecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema, com isso, ela voltar a ser o que era, é que passo a deixar de existir. Volto, pois, para o mundo que criei e de onde saí apenas para sonhar e fazê-la sonhar um pouco do que era &lt;em&gt;meu&lt;/em&gt;. Morro, pois. E renasço de uma outra forma. Como uma estrela. Alto, distante. &lt;span style="color:#3333ff;"&gt;&lt;strong&gt;Estrela&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada mais do que isso.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-6659665977368275819?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/6659665977368275819/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=6659665977368275819&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/6659665977368275819'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/6659665977368275819'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2008/09/mi-negra-soledad.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SMnYTac5P_I/AAAAAAAABgI/JREolBx3nmA/s72-c/untitled2.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-5314369154483180653</id><published>2008-09-04T19:28:00.000-07:00</published><updated>2008-09-04T19:49:27.771-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SMCaD9EvIbI/AAAAAAAABeg/wwiuC-xNJBY/s1600-h/6a00d09e71e9b1be2b00e398c10aba0004-320pi.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5242359358983971250" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SMCaD9EvIbI/AAAAAAAABeg/wwiuC-xNJBY/s200/6a00d09e71e9b1be2b00e398c10aba0004-320pi.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SMCaDxnBUuI/AAAAAAAABeo/ccTekZuxvJA/s1600-h/pes-calos-joanete-250208.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5242359355906544354" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SMCaDxnBUuI/AAAAAAAABeo/ccTekZuxvJA/s200/pes-calos-joanete-250208.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#009900;"&gt;"JOANE", ENTRE ASPAS&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;"&gt;Da série &lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;O ROMANCE DOS COMUNS&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- Porque você não chama ela de “Joane”, assim, entre aspas? Combina mais com ela, por causa desse “probleminha” que ela tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nem brinca. Te falei que é Christa. Deve ser um nome alemão, uma devota de Cristo ou algo assim. Procurei num dicionário de nomes, mas só achei “Christina”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;br /&gt;Eu gaguejava de nervoso, ao almoçar, e não conseguia pedir ao meu irmão que me passasse os pratos com a comida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Me dá o queijo &lt;em&gt;fodido&lt;/em&gt;, pra botar no macarrão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- ah, ah. É r&lt;em&gt;alado&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O queijo. É &lt;em&gt;ralado&lt;/em&gt; e não &lt;em&gt;fodido&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Merda, mas que diferença faz? &lt;em&gt;Fodido&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;ralado &lt;/em&gt;não é a mesma coisa? Quem tá &lt;em&gt;ralado&lt;/em&gt; tá o que? &lt;em&gt;Fodido&lt;/em&gt;!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele suspirava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você está nervoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é isso, estou tentando conversar com você. Mas eu falo em romance com uma mulher e você só imagina o sexo, vê ela pelada. Só isso não mantém nada. Ajuda? Ajuda e muito, mas não basta. Eu quero o pacote completo. E com essa, então...ela é &lt;em&gt;praticamente&lt;/em&gt; &lt;em&gt;perfeita&lt;/em&gt;. E agora isso, esse problema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não senhor, a preocupação &lt;em&gt;física&lt;/em&gt; aqui é sua. Não imagino só sexo não, você está sendo injusto. Amei muitas. E de verdade, também &lt;em&gt;completas&lt;/em&gt;. Vivi tudo o que deu, com elas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Quem&lt;/em&gt;, por exemplo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A Regina. A Eliane. A Karmem, com “k”. Rosane. Tatiana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Essa é aquela que levou um tombo na banheira do motel?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É. Quebrou a bacia. E gostei tanto dela quanto você gosta dessa “Joane”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Christa. Eu não merecia uma mulher com “isso”. Ou talvez seja um castigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aqui se faz, aqui se paga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Christa não tirava os sapatos. Se fazia calor, usava mini-saia e tênis. No máximo, sem meias. Se ela fosse tirar os tênis, estava sempre de meias. Sandálias, jamais. Havaianas? Nunca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cara, um &lt;em&gt;joanete&lt;/em&gt;. Um joanetaço, uma coisa enorme, como a cabeça de uma gêmea univitelina que andasse grudada com ela; a corcova de um camelo fêmea. Ou do Corcunda de Notre-Dame.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então? “Joane”, codinome perfeito pra ela! O problema é esse negócio fetichista dos caras com os pés das mulheres. Eu nem dou bola pra isso. Sei que tenho uma fama ruim, mas a verdade é que as coisas são como na piada. As pernas são a primeira coisa que a gente põe de lado. E os pés vão junto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Concordo, mas no meu caso não é fetiche. Fetiche é quando se vai apenas &lt;em&gt;foder&lt;/em&gt; com uma mulher. Eu ando atrás de coisa mais séria, enchi o saco. Como é que um cara pode sentir ternura por uma mulher que tem um “negócio” daqueles, mesmo que ela seja perfeita em todo o resto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu me referia, em pensamentos, àquilo como “negócio”, tinha nojo de pronunciar o nome, porque o nome me remetia àquela bola ossuda e vermelha, lustrosa como um rabanete em conserva, grudado no pé de Christa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em pleno ato, eu me curvava sobre ela como um feto e ela encolhia as pernas, sempre na penumbra, ou com os pés enrolados num lençol, ou de meias soquete. Na hora nem prestava atenção, depois que eu descobri tudo é que passei a relembrar os gestos dela; os disfarces mirabolantes que ela usava para esconder-me os pés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia em que eu, modestamente, fiz ela gozar com fúria – imodestamente eu tenho essa capacidade – em plena posição de “frango assado”, estrebuchando de prazer, ela levantou as pernas e deixou que “aquele negócio” quase me esfregasse na cara. Talvez ela quisesse um beijo no pé. Isso até traumatiza um homem, não dá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que besteira, não foi uma noite legal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi. Mas eu terminei o ato por puro cumprimento do dever. Pra fechar o licor; a cerveja bem gelada; a comida maravilhosa que ela fez. O incenso, a música antiga nos vinis do Ney Matogrosso que ela colecionava, o sagú com creme de leite. E tudo o mais que aquela noite, juntando tudo, tinha representado. Até o “negócio” aparecer na minha frente e me decepcionar profundamente. Como desejar, inteiramente, uma mulher daquele jeito?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ainda acho exagero. Você é um cara inteligente, vivido. Tem gente que opera. A Tia Martha operou, lembra? Além disso, de que adianta ter um pé lisinho e ter um rosto ou, pior, um gênio do inferno? Tenho uma amiga, Tânia, que tem os pés lindos, até já fez fotografia para fábrica de sandália. Mas em compensação, não tem homem que se acerte com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tânia, é? E ela é bonitinha, jovem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bonitinha, ainda é. Jovem, não é mais. Nem poderia. Você conhece alguma “Tânia” que seja jovem? Não existe, né? É um nome em extinção, como o mico-leão. Ninguém batiza uma criança com esse nome, graças a Deus. Hoje ela é quarentona, mas está bem conservada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É verdade, ninguém batiza alguém como Tânia. Nem Bernardete, nem Graça. Nem Lourdes. São de outra geração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E “Teresinha”? Certamente tem mais de 50 anos. Se eu falar com uma “Teresinha” no telefone, mesmo que a voz seja bonita, nem perco tempo com ela. Coroa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É, Teresinha é foda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois então. Se a “Joane” é tudo isso o que você diz e o problema está só no...pé dela, sugere a ela uma operação e pronto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Christa&lt;/em&gt;, caralho! Mas como é que eu vou sugerir um negócio desses? Ela me deixou a letra de uma música anotada no &lt;em&gt;sábado&lt;/em&gt; da minha agenda. Uma folha vazia, que não tinha nenhum compromisso anotado. Ela nem é tão bonita. Mas é gentil. Simpática, engraçada. Inteligente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que música?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;“Pelo amor de Deus, não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem, não vê que Deus até fica zangado, vendo alguém abandonado...”&lt;/em&gt; e por aí vai...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chico Buarque e Edu Lobo, cantado pela Zizi, &lt;em&gt;Sobre Todas As Coisas&lt;/em&gt;. Bonita música, parabéns. É, as coisas estão ficando profundas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não vai se criar, não dá. Com aquele “negócio” eu simplesmente não consigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Diz pra ela operar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu posso falar com ela uma única vez sobre o assunto. Ela sabe que tem aquilo. Mas não posso insistir, entende?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Claro que pode. Isso demonstra carinho, preocupação. Que você tem intenções legais com a moça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não vai dar. Acho que não vai ter jeito. E ela sentiu que tudo vai acabar, embora nem desconfie por que. Viu a música que ela me deixou no &lt;em&gt;sábado&lt;/em&gt; da agenda? Ela já percebeu que eu estou indo embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não precisava ir embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Precisar, não precisava. Só que eu simplesmente não consigo ficar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Nada&lt;/em&gt; é isso que você sente por ela. &lt;em&gt;Nada&lt;/em&gt;. Melhor se mandar mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nunca é tão fácil.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-5314369154483180653?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/5314369154483180653/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=5314369154483180653&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/5314369154483180653'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/5314369154483180653'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2008/09/joane-entre-aspas.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SMCaD9EvIbI/AAAAAAAABeg/wwiuC-xNJBY/s72-c/6a00d09e71e9b1be2b00e398c10aba0004-320pi.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-5820537128799182330</id><published>2008-08-29T12:18:00.000-07:00</published><updated>2008-08-29T12:52:48.332-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLhSkhGHtsI/AAAAAAAABco/lmsxUvMOTJM/s1600-h/foto1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5240028953758381762" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLhSkhGHtsI/AAAAAAAABco/lmsxUvMOTJM/s200/foto1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLhSk9-y1DI/AAAAAAAABcw/2YseZ4tG-Xs/s1600-h/dentesbrancos.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5240028961512281138" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLhSk9-y1DI/AAAAAAAABcw/2YseZ4tG-Xs/s200/dentesbrancos.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLhRFz52HqI/AAAAAAAABcY/HN1EPkVVejg/s1600-h/foto1.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLhRF6xC6GI/AAAAAAAABcg/fVGEuPg96ns/s1600-h/dentesbrancos.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ffcc00;"&gt;DENTES AMARELOS&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Da série &lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;O ROMANCE DOS COMUNS&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;A maior vergonha do mundo é ter os dentes amarelados, podres. E os meus são quase todos assim. Fumei demais, escovei os dentes de menos. Quando criança, eu só comia porcarias. E ainda roía o sofá de &lt;em&gt;courvin&lt;/em&gt; da minha avó, por contrariedade e solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A contrariedade é cancerígena. Dizem que uma pessoa nervosa; irritada; contrariada, tem maiores chances de ter câncer. Dizem que o câncer é uma doença que nasce do ódio que se tem por si mesmo ou por alguém. Já a solidão é mais passiva, abafada. Asfixia. Juntando as duas, quando era criança, eu roía o sofá. Deitava a cabeça no braço acolchoado do móvel e ficava ali, roendo. Às vezes também chorava por causa de uma das duas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parei de fumar há dois anos, dois meses e uns oito dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que me levou a procurar um dentista foi a insistência da minha irmã mais velha, que sempre disse que os meus eram dentes muito feios. Que não tinha cabimento eu sorrir desse jeito horrível. Eu nem sei sorrir direito. Mas sei que uma pessoa que não sorri tem mais chances de desenvolver um câncer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que adiava a minha ida era a vergonha que eu tinha do dentista. De eu chegar lá e o cara me olhar com desprezo ou, pior, falar comigo como quem fala com uma criança; repreender-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então a minha irmã me passou um cartão da Doutora Karina, dentista. Era um cartão branco, com um desenho infantil (escovinha, pastinha de dentes, espelhinho) ao lado do nome dela, mas ela tratava de adultos. A minha irmã deu-me a garantia de que a Doutora Karina não me repreenderia por causa do amarelão dos meus dentes. Acho que as duas se falaram por telefone antes de eu ir até lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui. Naquela época Karina tinha o cabelo castanho-escuro e liso bem curto; hoje é mais comprido. Seus olhos já eram vivos, brilhosos. Intensos, firmes. Continuam assim. Baixinha; um metro e sessenta, talvez menos. Passava um pouquinho dos trinta anos. Quando a conheci ela estava de saída do consultório e, por isso, não usava o avental. Estava de vestido amarelo com bolinhas verdes, feito ervilhas. Tinha um livro grosso, numa das mãos pequenas. E usava uns óculos moderninhos, com a armação de acetato cor-de-vinho. Acetato: já trabalhei numa joalheria e ótica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preencheu uma ficha e me olhava com a frieza de uma dentista para com o seu paciente; um pé-de-chinelo com os dentes amarelados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- &lt;em&gt;Fumante?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Não &lt;strong&gt;senhora&lt;/strong&gt;. Parei há quatro meses e dezoito dias. &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Ela tinha pelo menos quinze anos a menos do que eu. Mas médicos e dentistas, especialmente os mais jovens, adoram ser chamados de “senhor” ou de “doutor” pelos fodidos que os procuram. Sorriem, superiores e magnânimos, para quem os chama assim. Adoram ser respeitados. E são trouxas, porque pensam que assim são mesmo respeitados. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;- &lt;em&gt;Quatro meses. E &lt;strong&gt;dezoito&lt;/strong&gt; dias?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Dezoito dias. A senhora quer saber quantas horas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não precisa tanto - riu. &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;É claro que depois a vi várias vezes de avental. No avental, que agora chamam de “jaleco” e eu nem sabia, havia o nome dela bordado em vermelho: “Dra. Karina”. Para não deixar dúvidas de que a Doutora, ali, era ela. Eu era o cara de dentes amarelos. Ela era muito pequena e sumia dentro daquele avental. Usava também uma touca. Parecia uma moça que trabalhasse numa padaria ou coisa parecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passávamos horas no consultório, eu de boca aberta e ela fuçando na minha boca. Deve ter encontrado cobras e lagartos, coisas ruins e fedorentas. Sangue, cuspe (“pode cuspir a saliva aqui”), cáries. Toda a minha podridão. Obturou a minha contrariedade, aplicando chumbo ou resina sobre ela. A minha solidão ela agüentou calada, junto comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficávamos horas sem falar uma única palavra. Cheguei a dormir, de boca aberta, várias vezes, naquela cadeira. Eu sentia o cheiro de sabão em pó ou de amaciante de roupas nos punhos do seu avental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda assim, com toda essa distância, os meus dentes amarelos e os dentes branquinhos dela um dia se misturaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei como acabou daquele jeito, mas lembro bem dela de bruços, deitada sobre uma cama, lendo um jornal, descontraída, balançando as pernas e vestindo apenas uma calcinha, enquanto eu tomava banho e a espiava, do banheiro. Feliz. Ou - outra lembrança forte – já vestida, no mesmo quarto, preparada para ir embora, de saia preta, sandália e blusa. Dois pregadores no cabelo. Um olhar intrigado, diante do meu.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;- O que foi?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Nada, queria te ver mais um pouco, assim, vestida. Só isso. Essas coisas a gente não compra em lugar algum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Minha mãe gostava de dizer, sobre as coisas boas, “que não se compra em farmácia”. Isso não se compra em farmácia?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Isso o que?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Eu, aqui, com esta saia preta, e esta sandália que você gosta, e esta blusa.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- E os pregadores no cabelo. Gosto deles também. Parece a &lt;strong&gt;Barbie&lt;/strong&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É, e os meus pregadores de cabelo. De &lt;strong&gt;Barbie&lt;/strong&gt;, que seja. Não se compra em farmácia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, não se compra em lugar algum, Doutora.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Ela gostava de citar a mãe. A mãe agora era inválida, sei lá, meio abobada, não se mexia. E Karina sofria por isso. Contava-me sobre a mãe e eu a escutava, paciente. Eu ficava feliz de escutar as suas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No consultório, ela própria atendia aos pacientes pelo telefone, não tinha recepcionista. Às vezes em que eu chegava lá, no meio da tarde, entre um paciente e outro, ela falava sentada no meu colo, anotando as coisas que eles perguntavam ou diziam. Eu levantava o avental e beijava as suas costas macias e branquinhas; cravava na sua pele os meus dentes amarelos, enquanto ela marcava os horários das consultas. Mordia a dentista com os dentes que ela própria consertava, afiava. Doutora Karina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia ela se foi. Hoje é um dentista-homem quem obtura os meus dentes. As mãos dele têm cheiro de &lt;em&gt;Pinho Sol&lt;/em&gt;. Ele é sorridente e chato. Nota-se que ele também aprecia quando eu o chamo de “doutor”, o trouxa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noutro dia eu vi a Doutora Karina, no supermercado, com um homem. Era um cara metido a bonito, dentes brilhando, &lt;em&gt;sorriso refrescante, hálito de campeão&lt;/em&gt;. Um rosto comum, sem-graça. Um sujeito sem personalidade, mais novo do que eu, que faz tudo o que os outros fazem. Igualzinho. Inclusive ganhar dinheiro. E uma aliança brilhando, na mão esquerda. Dos dois. A vida dela agora é branquinha, brilhante. E cheira a pasta de dente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu sorriso continua amarelo. A minha vida também. Sangue, saliva grossa, cáries, língua saburrosa. Dizem que o hálito ruim vem de dentro, do estômago das pessoas. A podridão, desde então, ficou em mim, onde eu não consigo enxergá-la. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;br /&gt;Lá dentro. Lá dentro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-5820537128799182330?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/5820537128799182330/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=5820537128799182330&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/5820537128799182330'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/5820537128799182330'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2008/08/dentes-amarelos.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLhSkhGHtsI/AAAAAAAABco/lmsxUvMOTJM/s72-c/foto1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-4506282100330776305</id><published>2008-08-26T18:29:00.000-07:00</published><updated>2008-08-26T19:01:45.490-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLSxosQNfGI/AAAAAAAABbQ/HT48rlvE0Dc/s1600-h/0164.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5239007579170765922" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLSxosQNfGI/AAAAAAAABbQ/HT48rlvE0Dc/s200/0164.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLSxo1UcHFI/AAAAAAAABbY/diyoz8HyWkY/s1600-h/os%2520amantes%2520pascal%2520renoux.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5239007581604420690" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLSxo1UcHFI/AAAAAAAABbY/diyoz8HyWkY/s200/os%2520amantes%2520pascal%2520renoux.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLSxo9d4EwI/AAAAAAAABbg/cBmw03nO-x0/s1600-h/boca.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5239007583791485698" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLSxo9d4EwI/AAAAAAAABbg/cBmw03nO-x0/s200/boca.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLSxpFz_36I/AAAAAAAABbo/KQLsDrin2bw/s1600-h/0586.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5239007586031755170" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLSxpFz_36I/AAAAAAAABbo/KQLsDrin2bw/s200/0586.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#990000;"&gt;MOÇA&lt;/span&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;"&gt;Da série &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;em&gt;O ROMANCE DOS COMUNS&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Um grupo de pessoas está parado na rua, formando um círculo, em volta de alguma coisa encostada num poste, numa esquina movimentada do Centro da cidade. Os ônibus diminuem a marcha e as pessoas, de dentro das suas janelas, olham pra fora, em direção ao chão. Há uma ambulância. A maioria dos passageiros do ônibus e das pessoas que passam por ali a pé também olha, curiosa, para aquela coisa no centro do círculo. Pela presença da ambulância, percebe-se que há ali um doente ou um morto. Até que chega, lentamente como um navio, abrindo caminho no meio do povaréu curioso, o rabecão azul e branco do Instituto Médico Legal. É quando então se tem a certeza de que há, de fato, um corpo encostado naquele poste.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;br /&gt;Saí do bar e enrolei a manta em volta do pescoço; a manta listrada que você me deu. Era julho, pleno inverno, embora fizesse um frio sutil, estranhado apenas pelas pessoas fiasquentas. O mundo está cheio de fiasquentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfiei as mãos nos bolsos, e me veio – de novo, como tantas vezes – você, Moça. Ainda resistente ao pensamento, não lhe dei importância, fiz-lhe pouco caso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu já havia bebido um pouco e amargava a saliva na boca. Mesmo querendo aparentar para mim mesmo que não dava importância ao fato, eu morria de pena de mim, assim, sozinho de nós dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos paralelepípedos da rua, parecia haver uma camada de gelo, brilhosa, que refletia a luz amarelada de um poste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nessa hora que, súbito, os teus olhos, aqueles olhos, me cortaram, lembrando-me de uma daquelas nossas tantas vezes e confirmei, ainda morrendo de pena de mim, que eu te amava. E que eu te amava sozinho, o que era uma joça. Um desesperado amor irrecuperável, desses em que dá vontade nas pessoas de morrer, porque sabem que não volta, e é o momento em que várias sucumbem a ele, o amor partido, e finalmente morrem. Uma morte sem utilidade, que vira esquecimento. Um protesto besta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era para ser, esta, uma história de amor, era para ser apenas uma aventura, contada aqui. Mas é difícil evitar. E quando falo em “aventura” não entenda leviandade, safadeza, encontros sexuais. Não. Quero dar a “aventura” o sentido que é dado à palavra pelo cinema. Aquele sentido de movimento, de correria, de vento. Isso porque eu queria ter na lembrança uma sinfonia. Mas pensei melhor e uma sinfonia se faz, inevitavelmente, também com amor e com um pouco de sangue. Com amor &lt;em&gt;ou&lt;/em&gt; com sangue. Eu não desejava, por outro lado, tangenciar o outro extremo e ser dramático, falando de &lt;em&gt;sangue&lt;/em&gt;. &lt;em&gt;Sangue&lt;/em&gt;, aqui, significa vida; a vida intensa, a força. Sangue, aqui, é algo bom. A força. Uma sinfonia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu continuo. Foi naquela hora, olhando os paralelepípedos da rua, brilhosos, que os teus olhos me vieram, então. Teus mesmíssimos olhos grandes, brilhosos e escuros como uvas pretas cuja casca rebrilhe na calda, se abrindo, na tarde de um dos nossos amores, quando eu me deslumbrava, apavorado e feliz, com o amor que eu botava dentro de você, Moça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrepiava-me o rosto, aquela lembrança, como um véu que roçasse na minha pele, surpreendida. Tantas tardes e noites se foram, aquelas. Tenho certeza de que você sempre pensa nelas. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;br /&gt;Longínqua a Lua, lá em cima, na noite em que eu caminhava. &lt;em&gt;“Lembrança no céu, lua de mel”&lt;/em&gt;. Veio-me essa rima fácil e idiota. Nunca me preocupei em não ser idiota e devo ter sido várias vezes, pra você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você, nos seus arroubos de sarcasmo, de mulher prática, gargalhante, que debochava de quem fazia, por bobeira, uma pergunta mal colocada, ou cuja resposta fosse óbvia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gente como eu, inocente, pura de coração, que diz coisas sem pensar e que não se cansa de ficar chocada quando alguém como você ironiza uma pergunta feita ingenuamente por alguém feito eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite eu não tinha com quem falar sobre isso, sobre nós. Essas conversas de amor dolorido, que nos parecem tão importantes, são banais para quem as ouve e está de fora delas. Acendi um cigarro, deixando a fumaça da maconha se espalhar na minha cabeça, como uma nata na xícara do café com leite, como o sonho esvaído e inútil de lamentar a ausência de uma mulher que não voltaria mais. Nunca mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu olhava para o pó nas calçadas das ruas do bairro e procurava nele as marcas das solas dos seus sapatos. O vento as levava embora e você não pisaria mais ali. É muito ruim pensar que certas coisas nunca mais vão acontecer, nem se repetir, como um dia aconteceram num dia de sol e de vento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia muitos “nunca mais” e ”nunca mais” era o eco dentro de um enorme estacionamento, desses de supermercado, vazio, no verão de uma cidade deserta onde todos estivessem na praia e só eu aqui. Sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma cidade onde só anda nas ruas a escória que não teve dinheiro para viajar ou que leva uma vida de ameba, que não se diverte, que não ri, que não sonha. Eu não era isso. Eu sempre ri, eu sempre sonhei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela manhã eu estava sentado na minha mesinha que ficava no fundo da loja de conveniências do posto, cortando as unhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em volta de mim uma calculadora, papéis, notas fiscais de combustível e óleos automotivos, listas de fornecedores de alimentos congelados. Nada de muito interessante. Tudo o que eu precisava fazer ali, tinha a capacidade de fazer rapidamente. Superava as necessidades do meu emprego, do meu carguinho de gerente, por isso podia fazer tudo de uma só vez ou na última hora, nunca me desesperava com aquilo. Tinha segurança no que fazia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dono do posto de gasolina sabia disso. E sabia que eu fazia tudo aquilo melhor do que ele, inclusive. Quando eu o vi chegando lá fora, no seu carro grande e verde, importado e com uns quatro anos de uso, não procurei esconder o que estava fazendo, continuei cortando as unhas, tec-tec-tec, com um cortador. Ele me chamou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Você quer vir aqui um pouquinho?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Ele parecia muito sério, mas eu não me assustei. O peru é o bicho que morre na véspera. Larguei o cortador de unhas sobre a mesa e fui seguindo ele até a garagem que usávamos para a troca de óleo dos carros. Quando queria falar comigo, ele sempre me chamava para ir até lá, por causa dos frentistas. E eles sempre ficavam nos olhando, meio assustados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Tudo bem?&lt;/em&gt; - perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Mais ou menos.&lt;/em&gt; - Ele tinha na mão um pacote, um embrulho mal dobrado, feito com jornal. &lt;em&gt;- Olha o que eu encontrei hoje de manhã cedo, na mão do Régis.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Régis era o filho único dele, de dezessete anos. Desenrolou a maçaroca de jornal e me mostrou um revólver. Preto, cabo de madeira, bonito. Novinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- É um revólver&lt;/em&gt; - ele me disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Estou vendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tem medo?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pega ele.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Peguei o revólver e olhei pelo cano, para ver se estava carregado. Não se deve fazer isso nunca. Estava carregado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Cuidado, está carregado, pode disparar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu vi. Não tem perigo.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Eu nem lembrava que tinha essa merda em casa. Estava tudo muito quieto lá hoje, depois do café. Eu estava me preparando para vir para cá, quando fui buscar uma chave de fendas. Cheguei no pátio, perto da piscina, naquela casinha onde eu guardo as minhas ferramentas, e encontrei o Régis lá, com isso na mão. Se tivesse demorado um pouco mais, sabe lá o que podia acontecer, ele é uma criança.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Régis não era uma criança. Já pilotava motos e uma vez eu o vira de madrugada, na loja de conveniências do posto, fumando maconha com outros dois vagabundos ricos iguais a ele, que já haviam me vendido alguns baseados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Foi sorte. Chegou bem a tempo. É um revólver novinho, bem lubrificado. Deve funcionar direitinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Funciona, sim. Era usado pelo caseiro do meu sítio, eu mesmo comprei. Esse treco não volta mais para a minha casa. Quer comprar a pistola?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É um revólver. E estou liso. Não pretendo comprar uma arma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não te assaltaram no ponto do ônibus, um dia desses?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Faz tempo. E só me levaram um relógio vagabundo. Eu não daria um tiro num cara por causa de um relógio vagabundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E por causa do que você daria um tiro num cara?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não sei. Só precisei fazer isso duas vezes até hoje e os motivos foram justos. Só vendo.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Fica com você. Me paga quando puder. E se você for bonzinho, nem precisa me pagar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E se eu não for bonzinho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você é bonzinho, eu confio.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Obrigado.&lt;/em&gt; - Guardei o revólver na cintura. Levei a arma para casa naquele dia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;strong&gt;Magali Gouveia Engel&lt;/strong&gt;, (*) Professora-adjunta de História na Universidade Federal Fluminense, especialista em História do Brasil e autora do artigo "Paixão, crime e relações de gênero (RJ, 1890–1930)", escreveu: &lt;em&gt;"Matou a esposa com uma punhalada". "Neurastenia sangrenta". "Do ciúme ao crime". "Matou a amante". Manchetes como essas no&lt;/em&gt; Jornal do Commercio &lt;em&gt;e&lt;/em&gt; A Noite &lt;em&gt;agitavam a população do Rio de Janeiro ao final do século 19 e primeiras décadas do 20. As agressões passionais não eram, evidentemente, uma novidade daquele período. Até início do século 19, as situações de infidelidade eram reguladas pelas Ordenações Filipinas, que permitiam ao marido "traído" o direito de matar sua esposa e o rival, desde que este último não fosse de "maior condição que o marido"&lt;/em&gt; – nesses casos exigia-se a intervenção da Justiça Régia.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;br /&gt;Saí do bar, naquela noite, então, e liguei marcando o nosso encontro na rua. Ao lado daquele poste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos paralelepípedos da rua, a camada de gelo brilhando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus olhos, eu dizia, aqueles seus olhos, me cortaram gelado, e eu pensei em você quando chegava ao quarto, e então estava tudo bem com a gente, e você entrava sem me olhar direito, magnífica no seu vestido, fingindo que não sabia que estava sendo olhada e eu fingindo que não estava olhando para você. No quarto que esperava por nós dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tudo bem?” Eu lhe perguntava, cerimoniosamente, lamentando nunca conseguir ser impulsivo e íntimo; mimar você na chegada, liberdade que você nunca me deu. Dizer que sentia a sua falta, ou dizer “você está linda” nessa sua beleza de subúrbio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Comigo tudo, e com você?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tudo”. Eu lhe respondia, já pensando na próxima vez em que você viria. Você ia tirar o vestido em seguida e desfilar de calcinha pelo quarto. A gente ia se amar com ânsia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentei-me na calçada, encostado ao poste, com as costas rentes à base de concreto que havia no ferro gelado. O cimento do chão também era frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma noite de lua; linda e delicada noite. Eu lhe esperava, sentado naquele chão gelado, junto ao poste. Você ia chegar logo em seguida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tirei o revólver da cintura e, olhando bem para ele, pensei que agora, daquele jeito, só me restava acabar, de uma vez, com você, minha Moça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que mesmo que você não pisasse mais nas mesmas ruas e nem recebesse na pele o sol ao mesmo tempo em que eu; e que mesmo que você não desfilasse mais de calcinha no quarto, enquanto um frio na barriga aumentasse a minha vontade de entrar no seu corpo, ainda assim você moraria, para sempre, dentro de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você demorava a chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfiei o cano do revólver na boca e, num arranco, puxei o gatilho. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-4506282100330776305?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/4506282100330776305/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=4506282100330776305&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/4506282100330776305'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/4506282100330776305'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2008/08/moa.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLSxosQNfGI/AAAAAAAABbQ/HT48rlvE0Dc/s72-c/0164.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-9068037162065100462</id><published>2008-08-23T10:16:00.000-07:00</published><updated>2008-08-23T10:33:58.144-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLBITZkMoLI/AAAAAAAABaA/hUk-gtD9LLs/s1600-h/RDVD-CQ23b.gif"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5237765864749310130" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLBITZkMoLI/AAAAAAAABaA/hUk-gtD9LLs/s200/RDVD-CQ23b.gif" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLBITpGojPI/AAAAAAAABaI/c1j_zuuLm74/s1600-h/373331446_74a03a5062_m.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5237765868920278258" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLBITpGojPI/AAAAAAAABaI/c1j_zuuLm74/s200/373331446_74a03a5062_m.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLBGi7TRWHI/AAAAAAAABZw/wvwjgMbf_Pw/s1600-h/RDVD-CQ23b.gif"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLBGi2ZgcGI/AAAAAAAABZ4/Xf82yQYDZ10/s1600-h/373331446_74a03a5062_m.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:180%;color:#cc0000;"&gt;&lt;strong&gt;APARIÇÕES.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:85%;"&gt;Da série &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;em&gt;O ROMANCE DOS COMUNS&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Foi um longo tempo sem ver Virgínia, todo esse tempo marcado por várias “aparições” semelhantes a ela. Eu sou espírita &lt;em&gt;kardecista&lt;/em&gt;. Ou tento ser. Mas não é a isso que me refiro, ao falar em “aparições”. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;“Aparições” são mulheres fisicamente parecidas, ou que nem parecidas eram, mas cuja sugestão me levaram a ela.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Noutro dia eu vinha descendo a escada do bingo e vi uma dessas. Eu vou, aos domingos de tarde, num bingo, quando estou de saco cheio do &lt;em&gt;domingão&lt;/em&gt; na tevê. Moro com a mãe. Sou espírita e a mãe não sabe, porque é evangélica. E ela vai à igreja, aos domingos. Fico sozinho. Cabeça vazia, sementeira do Diabo. E ele, o Diabo, me ronda, provavelmente para se vingar da mãe, que o combate tanto. Ele volta e meia me tenta, o filho de uma puta. E às vezes me vence, pois eu sou fraco. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;O bingo não fica próximo à minha casa, o que me obriga a tomar um ônibus e andar por uns quinze minutos até chegar lá. Mas já é um programa de domingo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Um desses era um domingo carregado, abafado, com um céu cinzento e chamando chuva. Uma chuva que vinha só para que a segunda-feira amanhecesse molhando as calças e as meias da gente na descida do ônibus.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Fui ao bingo. Não ganhei nada. Mentira. Ganhei pouca coisa. Havia uma velha sozinha, professora aposentada, mais ou menos a idade da minha mãe. Sentei-me com ela, sem puxar assunto. Ela puxou. Os filhos não gostavam que ela jogasse, estava ali escondida. A minha mãe também não gostava que eu jogasse; era vício, por isso ela estava na igreja e eu estava ali. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Então a velha professora do bingo, vendo que eu não jogava direito, resolveu “adotar-me”. Fizemos amizade. E ela se distraiu ensinando-se a jogar. Não me senti tão sozinho. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Ela ganhou cento e cinqüenta reais, numa &lt;em&gt;linha&lt;/em&gt;. Ficou eufórica. Disse que eu lhe dei sorte. Achei graça. Ela me pagou duas cartelas de um real cada uma. Joguei as cartelas, mas só ganhei isso, as próprias cartelas. Mais nada. Agradeci, levantei-me e fui embora. A velha disse “fica, você me dá sorte” e eu disse “não, obrigado”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Quando eu estava saindo, surgiu uma lourinha, subindo a mesma escada que eu, descia. Ela não combinava com o clima do lugar. Quando ela passou por mim, não entendi direito, fiquei meio apalermado. Ela não tinha o jeito de “gorducha solteirona acompanhando as velhas aposentadas” que sempre têm em bingos e das quais eu até já comi algumas, em períodos de maior necessidade. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Era magrinha. As pernas um pouco finas, mas vá lá, magrinha, e depois Virgínia também tem as pernas finas. E estava com um vestido rosa. O cabelo também era igual ao de Virgínia, escorrido, despenteado, o que caía extremamente bem naquele vestido e naquele corpo. Ela parecia um presente de aniversário de menina, embrulhado em papel crepom rosa. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Saí do bingo transtornado. A paz dura pouco, para alguém como eu. O Diabo me ronda; minha mãe é evangélica e é inimiga do Chifrudo. É por isso que ele se vinga em mim.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Como aquela no bingo, foram várias as “aparições” de Virgínia que me surgiram em todos esses anos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Da última vez, porém, não foi uma aparição. Era Virgínia de verdade. Mesmo depois de tanto tempo, quando eu a reencontrei – e foi por mero acidente que eu a reencontrei numa farmácia – eu acho que o meu olhar para ela foi o mesmo de sempre. O mesmo. Ele – esse olhar - saía, assim, sem eu mandar nos meus olhos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;No passado, quando a gente tinha alguma coisa, mesmo sem eu ver o meu próprio olhar - e na verdade eu o via refletido na resposta que o olhar dela me dava - pela sua reação eu &lt;em&gt;sentia&lt;/em&gt; que o meu era um olhar molhado, daqueles que uma espécie faz quando encontra (ou, no caso, reencontra) o par ou o complemento que naturalmente que lhe cabem. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Era o olhar do zangão para a abelha; o olhar da tampa para a garrafa; o olhar da flecha para a tomada. O olhar do macho para a sua fêmea. O olhar que só acontece, sinceramente, a quem encontra o que lhe cabe.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Mesmo depois de tanto tempo, Virgínia ainda era o que me cabia. O problema era saber se &lt;em&gt;eu&lt;/em&gt; ainda lhe cabia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Eu mirei direitinho o olhar que ela fazia, para mim, na farmácia. E o dela foi o mesmo olhar da Gwyneth Paltrow (a bela, rica e fria Estella) para o Ethan Hawke (o pobre e apaixonado pintor Finn), no filme &lt;em&gt;Grandes Esperanças&lt;/em&gt;. Um olhar frio. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Por isso eu acho, sinceramente, que não mais. Eu não lhe cabia mais. O Diabo se vinga em mim, porque eu tenho a mãe evangélica.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-9068037162065100462?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/9068037162065100462/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=9068037162065100462&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/9068037162065100462'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/9068037162065100462'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2008/08/aparies.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SLBITZkMoLI/AAAAAAAABaA/hUk-gtD9LLs/s72-c/RDVD-CQ23b.gif' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-7863722993409129651</id><published>2008-08-18T18:12:00.000-07:00</published><updated>2008-08-18T19:02:10.341-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKoikDw7GtI/AAAAAAAABYo/XI40MvNzVVM/s1600-h/5887.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5236035519652764370" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKoikDw7GtI/AAAAAAAABYo/XI40MvNzVVM/s200/5887.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKoil6z2i8I/AAAAAAAABYw/QHVYDMPbOE8/s1600-h/Have%2520a%2520Ball%2520closeup.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5236035551608867778" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKoil6z2i8I/AAAAAAAABYw/QHVYDMPbOE8/s200/Have%2520a%2520Ball%2520closeup.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKoioir-AGI/AAAAAAAABY4/lR9AyboFsoA/s1600-h/womanturquoisedress.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5236035596672958562" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKoioir-AGI/AAAAAAAABY4/lR9AyboFsoA/s200/womanturquoisedress.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKoio_hjVqI/AAAAAAAABZA/1-Tk5WI77HM/s1600-h/s_Lucky-scarf-fashion-finds-PHATAK-TURQUOISE-152.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5236035604413896354" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKoio_hjVqI/AAAAAAAABZA/1-Tk5WI77HM/s200/s_Lucky-scarf-fashion-finds-PHATAK-TURQUOISE-152.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#3366ff;"&gt;O COLAR DA TURQUESA&lt;/span&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:85%;"&gt;Um conto de &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;ROBERTO SCHULTZ&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:Trebuchet MS;font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:Trebuchet MS;font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Entregou a ela um envelope cinza, de papel &lt;em&gt;vergé&lt;/em&gt;, no qual havia uma fita vermelha. Parecia uma carta. Alguém na loja tentou inventar um embrulho para presente diferente dos demais, original. Ela não esperava por aquilo, claro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Por que isso, agora?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Isso o que?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Que pergunta ! “Isso” é o presente que você acabou de me dar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Páscoa.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Tocava Chopin, um &lt;em&gt;Noturno&lt;/em&gt;. O sábado transcorria mormacento, mas era outono. Nada combinava. Provavelmente viria muita chuva, no dia seguinte, Domingo de Páscoa. Noé que tratasse de reunir a bicharada na Arca. Muita chuva seria necessária para arrancar o outono do seu esconderijo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- A Páscoa é amanhã. E isso aqui não me parece chocolate.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Você preferia chocolate? - ele estava contrariado. Ela agia como uma gorda gulosa, que esperava pelo chocolate muito mais do que por um presente original como aquele.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Não é isso. Eu só queria &lt;em&gt;entender &lt;/em&gt;o presente.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Não precisa &lt;em&gt;entender&lt;/em&gt; o presente. Presente não se entende, recebe-se. Hoje é Sábado de Aleluia. Então fica como um presente "de Sábado de Aleluia". Algumas sociedades malham o Judas neste dia. Batem num boneco de pano. No Rio de Janeiro ainda fazem isso.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Você tem mania de surpresas, né, Benjamin?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- &lt;em&gt;Benjamin Nieto, um vino para sorprender, com carácter y autenticidad&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Você não é um vinho. Podia citar uma frase mais autêntica do que um &lt;em&gt;slogan&lt;/em&gt; besta, inventado pelo dono de uma vinícola. O namorado da Andy lê poemas para ela.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Gosto desse &lt;em&gt;slogan&lt;/em&gt; e do vinho. Eu sou um homem simples. O namorado da Andy é um filhinho-de-papai rico que fez um curso fajuto na França. Ela é uma psicóloga riquinha que mia como uma gata, quando fala. Tudo neles é falso. Ela nem se chama "Andy". Se chama Andréia.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Ele estudou na Bélgica. É só um apelido. E a Andy não mia.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Mia, sim. E também falam francês na Bélgica. Fodam-se, os dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Humor de Sábado de Aleluia, hein?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- O humor &lt;em&gt;de sempre&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Ela abriu o envelope. Dentro havia uma carteira de couro e, dentro dela, um cordão preto de seda com uma bolinha azul presa a um elo de ouro.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Que bonita essa bolinha....&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Essa "bolinha" é uma turquesa. E esse é o &lt;em&gt;Colar da Turquesa&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- &lt;em&gt;&lt;strong&gt;De&lt;/strong&gt; &lt;/em&gt;Turquesa, Benjamin.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Não, é &lt;strong&gt;&lt;em&gt;da&lt;/em&gt; &lt;/strong&gt;Turquesa. Quer ouvir a história desse colar?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Quero.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Todo mundo presume que “turquesa” seja apenas o nome de uma pedra preciosa, certo?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Na verdade eu não sei essa resposta...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Então porque você não se limita a &lt;em&gt;mentir&lt;/em&gt;, como todo mundo faz, e responde apenas “certo”, como se soubesse a resposta?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Certo, Benjamin, certo. Todo mundo presume que esse seja apenas o nome de uma pedra preciosa.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- A Turquesa é uma pedra preciosa, composta de Fosfato de Alumínio, Potássio, e que também contém Cobre. Na &lt;em&gt;Escala Mohs&lt;/em&gt; de dureza, ela atinge os graus de 5 a 6, é opaca e apresenta-se celeste, que é o caso dessa que está no colar que acabei de lhe dar. Há também algumas nas cores azul-esverdeada ou maçã.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Você parece querer me impressionar. &lt;em&gt;Un vino para sorprender&lt;/em&gt;...,etc&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Peguei tudo isso na Internet, está ao alcance de qualquer imbecil que saiba pesquisar num mecanismo de busca.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Continua.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Acontece que o que poucos sabem, e que não está em lugar algum da Internet – pode procurar - é que “turquesa” é um título nobiliárquico, como “duquesa”ou “condessa”, e decorre de uma linhagem de nobres da Turquia, que é a antiga Pérsia. Agora o &lt;em&gt;grand finale&lt;/em&gt;...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Puta merda, onde você estudou tudo isso?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Você só se importa com os detalhes bestas. O que importa onde eu estudei? Ouça o final.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Não saio daqui antes de você me contar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Pois a Turquesa ninguém mais era do que a filha bastarda do Imperador Xerxes, persa, feito agora no cinema pelo brasileiro Rodrigo Santoro, no filme &lt;em&gt;&lt;strong&gt;300&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;. Xerxes mandou (e, com isso, matou) muito mais do que 300 homens para extrair das entranhas da terra o mineral azulado com o qual pretendia homenagear, ainda que em segredo, a sua única e lindíssima filha cujos olhos eram, adivinhe de que cor...?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Azuis, como a pedra !&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Errado. Pretos como a noite. O azul era metafórico. As estrelas que pairavam sobre a Pérsia, na noite em que ela nasceu, essas coisas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Qual o nome da princesa?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Degá. Eli Degá.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- "Degas", como o pintor?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Mais ou menos, apenas sem o ‘s’ no final.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Degá, de olhos negros...sei...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- O colar que ele fez com a única pedra encontrada, esférica, ficou conhecido como "O Colar da Turquesa", e para virar ‘turquesa’, também a pedra, foi uma questão de dois ou três séculos. Até nas Escrituras Sagradas há referências a ela. Ligadas a Maria Madalena, inclusive. Ah, e inclusive no Alcorão.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Sério?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Não.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Como assim "não", Ben?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- &lt;em&gt;Soy&lt;/em&gt; Benjamin, &lt;em&gt;um vino para sorprender, com carácter y autenticidad&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Não entendi nada.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Nada disso é sério, acabei de inventar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Pra que você me trata assim, feito uma idiota?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Capacidade de sonhar. Você não tem. Como vai conseguir amar alguém feito eu?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Você precisa se tratar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- Eu sei. &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-7863722993409129651?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/7863722993409129651/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=7863722993409129651&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/7863722993409129651'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/7863722993409129651'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2008/08/o-colar-da-turquesa.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKoikDw7GtI/AAAAAAAABYo/XI40MvNzVVM/s72-c/5887.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-5787126437570543860</id><published>2008-08-16T11:17:00.000-07:00</published><updated>2008-08-16T11:26:25.133-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKcbW2E13ZI/AAAAAAAABX4/HONgpyNT-Hs/s1600-h/108358119_f7e5d9b1bb.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5235183171128384914" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKcbW2E13ZI/AAAAAAAABX4/HONgpyNT-Hs/s200/108358119_f7e5d9b1bb.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKcbXGnFG0I/AAAAAAAABYA/8iqXGajwe30/s1600-h/ist2_5734119-my-half-orange.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5235183175566957378" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKcbXGnFG0I/AAAAAAAABYA/8iqXGajwe30/s200/ist2_5734119-my-half-orange.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ffcc33;"&gt;SEMENTES&lt;/span&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Da série &lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;O ROMANCE DOS COMUNS&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhamos até a beira da praia e, depois, mais um pouco sobre a areia, até escolhermos um ponto aleatório da baía. Eu levava quatro laranjas enroladas na camiseta de algodão, dobrada como se fosse uma sacola. Chegamos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- &lt;em&gt;Está bom aqui&lt;/em&gt; – Paramos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;Ela suspirou e olhou para o mar. Eu também suspirei. Não gosto desse cheiro de peixe podre e de vagina suada que o mar tem aqui. Mas ele se enfia nas narinas da gente e não tem outro jeito, não respeita nem um momento mais sério, mais pomposo. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- &lt;em&gt;Quer comer as laranjas agora? Quantas?&lt;/em&gt; – Ofereci.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;Ela quis. Duas. Ficou fazendo um jogo da velha, no chão, com a ponta do dedão do pé direito, enquanto eu descascava as frutas. A unha dela estava pintada de rosa, mas agora toda suja de areia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Vai estragar o esmalte&lt;/em&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- &lt;em&gt;Não faz mal, eu ia tirar mesmo&lt;/em&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;Descasquei as laranjas com a faquinha com cabo de madeira, todo roído. Chupamos duas laranjas, cada um. Ela cuspia as sementes, no chão, fazendo biquinho. Contei dez sementes cuspidas. Olhei bem para onde as sementes que ela cuspiu caíram e fiquei torcendo para que elas se mantivessem ali, depois que a gente se fosse, meio escondidas sob uma caixa de frutas, onde algumas abelhas zuniam. Insisti para irmos logo para casa, a pretexto de chuva. Vinha chuva mesmo, mas ia demorar. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- &lt;em&gt;Não está bom aqui?&lt;/em&gt; - ela me perguntou. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- &lt;em&gt;Não é isso. É que vai chover&lt;/em&gt;. – apontei para o céu - &lt;em&gt;E eu ainda preciso pescar&lt;/em&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;Estava ótimo ali, e não ia chover tão cedo. De qualquer jeito, as nuvens podiam desmoronar que eu não me importaria. Mas precisava levar ela para longe dali e logo. Fomos para casa. O rosto dela estava sujo de laranja. Ela certamente estranhava a minha pressa em sair da praia. Caminhando, de tempos em tempos me olhava, como se quisesse me perguntar alguma coisa. Mas não perguntava nada. De vez em quando alguém me olha como se eu fosse um maluco, é comum, estou acostumado. Caminhamos mais de um quilômetro. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;-&lt;em&gt;Você nem comeu as laranjas direito&lt;/em&gt; - ela disse.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- &lt;em&gt;Depois eu como. Tem mais lá em casa&lt;/em&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;A deixei no portão de casa e fui para a minha. Peguei a rede e voltei para a praia, passando de novo em frente ao seu portão, arrastando a maçaroca de linhas e de rede, levantando areia do chão, para que ela me visse. A cortina branca e fininha se mexeu, lá dentro da casa. Ela viu que eu voltei mesmo pra pescar. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;Caminhei o quilômetro de volta. A caixa de madeira, manchada de uvas e de laranja, estava no mesmo lugar. A impressão é de que estava virada um pouco para o lado, quem sabe por um cachorro curioso. As abelhas tinham ido embora, espantadas pelo vento. Aquele fedor do mar continuava forte. A praia estava vazia. Me agachei, atolando os dedos dos pés na areia molhada, e comecei a catar as sementes que ela cuspira. Consegui encontrar apenas oito. Estavam no mesmo lugar. Nenhuma delas estava suja de areia. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;Fui pondo, uma a uma, com cuidado, na boca. Salivei nelas. Misturei a minha saliva com aquela que ela deixara nas sementes. Senti um frio na barriga e o início de uma ereção. Uma coisa muito boa. Mas muito boa. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;E que me enchia o coração.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-5787126437570543860?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/5787126437570543860/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=5787126437570543860&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/5787126437570543860'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/5787126437570543860'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2008/08/sementes.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKcbW2E13ZI/AAAAAAAABX4/HONgpyNT-Hs/s72-c/108358119_f7e5d9b1bb.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-644753571533561340</id><published>2008-08-14T15:34:00.000-07:00</published><updated>2008-08-14T16:20:55.620-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKS6IanvThI/AAAAAAAABXY/nMgIq1x56bk/s1600-h/22289572.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5234513320659078674" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKS6IanvThI/AAAAAAAABXY/nMgIq1x56bk/s200/22289572.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKS6ImzANXI/AAAAAAAABXg/SvBe01gQcjY/s1600-h/400_F_3312963_XZXmJuEh0CeSvNLnznGDAzbU5laPVb.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5234513323927549298" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKS6ImzANXI/AAAAAAAABXg/SvBe01gQcjY/s200/400_F_3312963_XZXmJuEh0CeSvNLnznGDAzbU5laPVb.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKS6Igq1LtI/AAAAAAAABXo/LJ6OX9lTMzk/s1600-h/403979.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5234513322282659538" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKS6Igq1LtI/AAAAAAAABXo/LJ6OX9lTMzk/s200/403979.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKS1ovFbsvI/AAAAAAAABXA/9zdzGBePmw8/s1600-h/22289572.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;A CHINESA&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Um conto de &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;ROBERTO SCHULTZ&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desabava água do céu naquela noite em Florianópolis. Era um &lt;em&gt;flat &lt;/em&gt;daqueles limpinhos, modernos, confortáveis e com diárias baratas.Mas do tipo &lt;em&gt;self-service&lt;/em&gt;, nos quais não há nem um sujeito para carregar a mala da gente: vire-se por conta própria. Larguei as malas no quarto e desci para a recepção, louco de fome. Também havia outras intenções, meio “sórdidas”, entendeu? Chamei o recepcionista no canto do balcão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;- &lt;em&gt;Preciso da indicação de um lugar. Um lugar para jantar, mas que tenha moças para se ver, entendeu? Um lugar para me distrair...&lt;/em&gt; – tentei fazer uma cara de safado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Que tipo de lugar o senhor gostaria? Uma boate, para dançar? Hoje é segunda-feira e está chovendo muito, acho que não tem nada de muito bom...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Aquele &lt;em&gt;catarina&lt;/em&gt; da recepção não entendera que eu procurava uma boate com putas e, para completar, ainda me perguntava em voz alta, chamando a atenção dos outros hóspedes. Um coroa com cara de respeitável-hipócrita, daqueles que quando lhe perguntam a profissão respondem “presto consultoria”, folheava um jornal aberto sobre o balcão e prestava, sim, era atenção à minha conversa. Já que só havia homens ali, eu resolvi chutar o balde de uma vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Putas. Eu quero comer num lugar cheio de putas em volta, entendeu?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O recepcionista então me pareceu meio ofendido e o coroa do jornal não piscava e nem me olhava, certamente me achando um inconveniente. Ele, claro, não estava lendo porra nenhuma naquele jornal. O recepcionista começou a folhear as páginas amarelas de um guia telefônico, quem sabe procurando o que eu queria na letra “P” de “putas”. Pouca prática, ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi quando a &lt;span style="color:#3366ff;"&gt;Chinesa&lt;/span&gt; saiu do elevador e passou por mim, de vestido preto, no seu passo marcial. Ela passou de perfil e por isso enganei-me pensando que fosse uma japonesa; confusão de origens que muito a irritava. Por não reconhecê-la, achei que era uma bela japonesa. Que jamais prestaria atenção a mim. Não meto medo em homem algum; não atraio qualquer mulher. Só depois de eu falar um pouco é que isso, às vezes, acontece, com homens ou mulheres, nessa ordem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A &lt;span style="color:#3366ff;"&gt;Chinesa&lt;/span&gt; foi até a frente do hotel, olhou para a chuva, e voltou. Quando ela voltou e olhou-me de frente, afinal, nos reconhecemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Pensei que fosse uma japonesa bonita. E é uma chinesa. Linda. Mas o perfume é japonês: Kenzo. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Achei que você já não se enganasse mais comigo - ela me disse, sorrindo. – Você lembra até do nome do meu perfume. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus lábios eram muito grossos e estavam pintados de vermelho, fortes, bem contornados. Os olhos ainda mais apertados. Ela estava sem os óculos, mas certamente usando lentes de contato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Você está sozinha em Florianópolis? A gente podia comer ou beber alguma coisa, por aí&lt;/em&gt; – a chuva caía forte, o que não podia ser melhor para os planos que eu tracei, naquela mesma hora, para mim e para ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Sozinha. Mas, como você sabe, eu estou vivendo com o Baptista há quase três anos. E está dando certo. Portanto, nada de idéias bobas. A nossa história já era. Eu agora sou séria e casada.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;A segurança não é o forte de vocês, mulheres. Você parece ter mais medo de si mesma do que de mim. Eu falei alguma coisa? Você pode ter um amigo; comer uma pizza e beber um chope com ele, sem deixar de ser “séria e casada”&lt;/em&gt; - eu disse aquilo à &lt;span style="color:#3366ff;"&gt;Chinesa&lt;/span&gt; com ironia e já quase desistindo da noite ao lado dela. Achei que não sairia coelho daquele mato. “A nossa história já era”, ela me disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Pode destilar o seu veneno de sempre. Você já me conhece. E conhece o Baptista. Uma pizza e um chope. Só.&lt;/em&gt; - Fiz um gesto para o recepcionista cancelar a sua busca nas páginas amarelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu conhecia a ela, sim, de todos os jeitos possíveis. E um dos seus jeitos era não combinar com o sangue oriental, para desespero dos pais, chineses tradicionais. Eles queriam que ela se casasse com um chinês. Ela queria um homem brasileiro e safado. Nunca foi garota de programa, mas sempre me dizia – geralmente no motel – que queria ficar rica, abrindo um bordel de orientais: chinesas; japonesas; coreanas, tailandesas. Que faria muita grana, assim, aproveitando o fetiche dos brasileiros. Como uma cafetina oriental de luxo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu também conhecia o Baptista. Bonitão, forte, metido em muita coisa feia. Traiçoeiro. Perigoso. Burrão. Eu não sou bonito nem forte. E nem burro. Por todo o resto, sou igual ao Baptista. Homem bonito e forte geralmente é burro, pois não precisa pensar muito. Basta circular, aparecer. Por isso não circulo muito, sou feio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fomos a uma pizzaria de tijolos à vista, na Beira-Mar Norte. Chovia forte ainda. Comemos a pizza sob o olhar cobiçoso de uns tipos cariocas, que falavam chiado; únicos freqüentadores além de nós, sentados numa mesa ao fundo. Uma chinesa de vestido só chama a atenção dos corvos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&lt;em&gt; Agora eu quero dançar um pouco - ela me disse.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Que seja&lt;/em&gt; - É bom conseguir fazer as vontades de uma mulher bonita, você se sente meio poderoso, forte. Saímos procurando, em vão, um lugar para dançar numa segunda-feira de chuva, em Florianópolis, fora da temporada de verão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto andávamos de carro, ela pôs a mão na minha nuca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;A gente já fez tanta besteira, juntos, né?&lt;/em&gt; – ela me perguntou, sonhadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Muita -&lt;/em&gt; Eu disse, triste, com aquela sensação de solidão numa noite triste e ventosa, de que nunca mais fosse ter aquela mulher na vida. Uma sensação horrível de fim dos tempos, de cataclisma -&lt;em&gt; E, olha, se você vive com o Baptista, e me disse que agora é séria, tira a sua mão daí. &lt;/em&gt;Mesmo assim ela não tirou a mão da minha nuca. E eu fiquei feliz. Feliz de verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia onde dançar, na Cidade. Cogitamos até de ir dançar num puteiro, mas desisti. Eu fatalmente arranjaria confusão grossa com os freqüentadores se entrasse com a &lt;span style="color:#3366ff;"&gt;Chinesa&lt;/span&gt; num puteiro. Voltamos para o hotel, para assistir um filme na TV a cabo e comer chocolate. “Só isso”, ela me alertou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava hospedada uns dois andares acima do meu. Fomos para o quarto dela, assistir à TV e comer chocolate. Só isso. Pedi licença para ir ao banheiro e voltei nu. Meti-me debaixo das cobertas. Ela riu. Não se surpreendeu. Nunca foi uma mulher muito assustada com os homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Eu não preciso ter vergonha de você, já fiquei pelado na sua frente antes. Estou com calor&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Você se sente só? Não sente amor por alguém?&lt;/em&gt; - ela quis saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Muito só&lt;/em&gt; – eu respondi olhando para a TV, olhos brilhosos – &lt;em&gt;há dias em que me falta o ar, como se eu fosse um asmático e não encontrasse a “bombinha” que me ajuda a respirar&lt;/em&gt; – eu estava sendo incrivelmente sincero. &lt;em&gt;- O amor que eu tinha já secou.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Secou mesmo&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Secou&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sorriu e passou a mão no meu cabelo, pondo ele para trás da orelha. Era mesmo verdade que eu me sentia só e ela acreditou em mim. Eu já estava duro, debaixo do lençol. Nos jogamos um contra o outro com sede e fome. Sem uma palavra. Não havia amor; nem emoção; nem ternura; havia o Baptista e acho que sequer haveria uma outra vez entre eu e ela. Chovia em Floripa. Mas esse amor manco me quebrava o galho. Ela era a “bombinha” para o asmático, que era eu. Dormimos. Lá pelas quatro e meia da manhã me surpreendi abraçado nela, &lt;em&gt;de conchinha&lt;/em&gt;, os dois sem roupa. E eu duro, claro. Entrei de novo no corpo da &lt;span style="color:#3366ff;"&gt;Chinesa&lt;/span&gt; e tudo recomeçou, com cara de sono e hálito de sexo oral feito em noite mal dormida; nossos sexos ressecados e ainda sem banho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De manhã bem cedo ela tinha compromisso e também estava na hora de eu dar o fora de Florianópolis, por “n” razões. Tomamos café juntos no salão do hotel e ela, antes de sair, enfática e fria, disse&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Não me procure nunca mais&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma mulher nunca tinha sido tão incisiva assim comigo, na vida. “Não me procure nunca mais”, como quem diz “sai, cachorro, pra rua!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí do hotel acompanhando a &lt;span style="color:#3366ff;"&gt;Chinesa&lt;/span&gt; até o táxi. Fechei a porta do carro onde ela embarcou e fiquei olhando, meio triste, o táxi se afastar. Mais uma “bombinha de asmático” indo embora de mim. Por algum tempo eu não precisaria de uma dessas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aí que eu vi, do outro lado da rua, o Baptista - de camisa preta - me olhando com um sorriso de maldade. Mexia os braços, contraindo os músculos fortes, como um pavão que exibe as penas para impressionar os pássaros comuns. Não havia para onde fugir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encostei-me num carro estacionado no meio-fio e fingi me coçar, roçando as costas no espelho retrovisor. Na verdade enganchei no espelho a trava da pistola semi-automática que eu levava na parte de trás da calça, destravando a arma com um único movimento e sem usar as mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperei o Baptista atravessar a rua, pois sabia que ele viria. Não meto medo em homem algum; não atraio qualquer mulher. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-644753571533561340?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/644753571533561340/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=644753571533561340&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/644753571533561340'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/644753571533561340'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2008/08/chinesa.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKS6IanvThI/AAAAAAAABXY/nMgIq1x56bk/s72-c/22289572.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-6122568193941438777</id><published>2008-08-12T04:00:00.000-07:00</published><updated>2008-08-12T04:24:47.463-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKFwILKotPI/AAAAAAAABWQ/7F-mYLpEBMk/s1600-h/chuva01zr5.gif"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5233587527719892210" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKFwILKotPI/AAAAAAAABWQ/7F-mYLpEBMk/s200/chuva01zr5.gif" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKFwKAdyucI/AAAAAAAABWY/3zfm6VItFq0/s1600-h/1207681938_f.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5233587559207188930" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKFwKAdyucI/AAAAAAAABWY/3zfm6VItFq0/s200/1207681938_f.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;EM &lt;em&gt;SAIGON&lt;/em&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;Da série &lt;em&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;O Romance dos Comuns&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Eu estava um pouco feliz. E chovia. Era uma felicidade passageira e facilmente apagável, desiludida (ou destruída) por mim mesma, em seguida. Soava como a alegria legítima de uma gordinha gulosa abrindo a embalagem de um bombom &lt;em&gt;Sonho de Valsa&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;A chuva tornava o dia úmido, mas não estava frio. Com pouca roupa, frio. Com muita roupa, calor.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Tomei nota, com uma &lt;em&gt;Bic&lt;/em&gt; falhando, de alguma coisa no verso de um panfleto amarelo que um mulato velho me entregara esses dias na esquina. Era um anúncio de cartomante, ou de vidente, ou de mãe-de-santo. Ela anunciava &lt;em&gt;“trago a pessoa amada de volta em cinco dias”&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;- Me tens amor?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Lembrei, então, daquela pergunta que ele me fez. Nunca um cara havia me perguntado isso, assim. Foi estranho e diferente, quando ele perguntou aquele &lt;em&gt;“me tens amor?”&lt;/em&gt;. Antiquado e bom. Parecia a frase de um filme velho. Sinceramente, eu nunca tinha...Bom. Foi bom. Não é isso o que importa? Não é isso o que se leva desta vida?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Bebi, sozinha, meia garrafa de um vinho branco gelado, não mais do que isso. Era um vinho torrontês, com perfume de flores. A bebida deixa-me suscetível. Mas, ainda assim, tenho cabeça suficiente para saber que aquilo que ele me disse foi uma coisa boa. Na minha vida inteira.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Quero morrer, às vezes, depois que bebo. Quero morrer devagar, de uma morte bem fininha; morrer gelado, zunindo; lentamente. Mas não quero mais morrer quando eu me lembro daquela pergunta.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;De que adiantava lembrar-me de algo mais antigo, ou de um cara mais duradouro na minha vida, se aquilo (&lt;em&gt;“me tens amor?”&lt;/em&gt;), dito ali, por uma pessoa como aquele cara, importava mais do que muita, muita, muita coisa mais demorada, mas infinitamente mais rasa, vivida com outro?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Que fim levou o meu &lt;em&gt;CD&lt;/em&gt; do Emilio Santiago com a música &lt;em&gt;Saigon&lt;/em&gt;? Eu chorava e o ranho escorria, como uma clara de ovo, do meu nariz grande e vermelho, quando eu ouvia Saigon. &lt;em&gt;(Anoiteceu! Olho pro céu/ E vejo como é bom/ Ver as estrelas/ Na escuridão. Espero você voltar /Pra Saigon...)&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Eu só ouvia o Emilio Santiago, não podia fazer mais nada. Há coisas que não têm a menor solução.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;Eu andava muito sozinha, resolvendo com a imobiliária um jeito de livrar-me da fiadora do aluguel ou de trocá-la por outra. Dei um tapa barulhento na cara da fiadora antiga, minha amiga. Passional. Agora minha ex-amiga. Uma boa pessoa, mas tínhamos divergências terríveis e, hoje sei, isso não ia se resolver.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Sinto falta da minha amiga, a fiadora. A gente bebia café com bolachas velhas e salgadas num bar vagabundo e ria muito, de qualquer bobagem. Só estando mesmo na merda é que se divide com alguém as coisas importantes da vida. Não é fácil perceber que alguém não deu o valor merecido a isso. A tudo isso tão meu, e bom, e forte. Porque você, amiga, não deu valor a isso, porque? Por essa razão dei-lhe o tapa. Uma questão de honradez. Gosto dessa palavra, “honradez”, e eu dividi a minha com ela. Ex-amiga. Ela triturou e soprou a minha honradez, com a pá de lixo, para dentro do latão.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Não sei como eu consegui sobreviver a uma ingratidão dessas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Naquele dia em que o tal mulato me deu o papel na esquina fazia justamente seis dias que eu não via o cara. Se tivesse pego o papel com o mulato antes, desde ontem talvez eu já o tivesse de volta. Foda-se. Tive de esperar mais um dia, de qualquer jeito. Chovia, como eu disse. E eu deixava chover. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Escrevi uma frase no verso daquele panfleto de mau gosto, apoiando o papel e calcando a caneta na pasta de nylon que eu levava, toda desbotada. A caneta falhava. Dobrei o papelzinho amarelo em quatro e o pus no bolso da calça jeans bordada com flores cor-de-vinho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;em&gt;“Me tens amor?”&lt;/em&gt;, a pergunta ainda batia na minha cabeça como se estivesse dentro de uma lata vazia, das grandes, de &lt;em&gt;Nescau&lt;/em&gt;. Eu ligo tudo a chocolate. Em pó, inclusive. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;- Se eu lhe tenho amor? O amor é uma coisa tão complicada. E ainda dói, né? - Me ocorreu dizer a ele, daquela vez. Eu disse mesmo e suspirei. Foi sincero. O meu peito ardia, ardia, ardia e eu não sabia direito o que sentir.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;- Não dói não - ele me disse. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;E pareceu indignado. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;- Você tem o meu, e não é pouco.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;- Pois é - eu sorri. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Uma espécie de agradecimento pelo amor dele.Foi durante uma mudança de apartamento. Eu tirava o pó de todas as coisas com uma calcinha velha de algodão. E carregava duas caixas de som antigas, daquelas de madeira, e elas eram grandes e pesadas; eu não conseguia segurar mais nada. Aquilo me deixou sem jeito. Não se consegue dizer nada decente estando suada e com duas caixas enormes, de madeira, mas mãos. Meu desodorante estava vencido. Uma mulher não sabe amar cheirando mal.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Isso faz tempo. Não fiz nada, a respeito disso, naquela vez. Deixei como estava. Tentei depois. Fui atrás dele bem depois.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;E no dia de chuva, quando o encontrei ali, parado, sob a aba do ponto do ônibus, encolhido, com os braços cruzados e enfiados numa jaqueta exageradamente alcochoada para aquele dia. Tirei o papel do bolso e lhe entreguei, esticando o braço dramaticamente, como fazem aquelas mulherzinhas infantis nos filmes piegas, querendo parecer ao mesmo tempo românticas e meiguinhas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;No início eu tive medo de entregar a ele a bobagem que eu escrevi, mas os medrosos me irritam e eu entreguei. Fiquei esperando.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Ele me olhou, curioso, e começou a desdobrar o papel quando eu, brusca (não grosseira, apenas firme), arranquei o papel da sua mão e li-o em voz alta, alternando algumas palavras com olhares para os seus olhos rútilos:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;- Você é a &lt;em&gt;única flor delicada&lt;/em&gt; que eu encontro num dia cinzento de tempestade onde nada mais parece ser colorido ou feliz.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;- Obrigado. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Pareceu espantá-lo ser chamado de &lt;em&gt;“única flor delicada”&lt;/em&gt;, um cara. Depois que eu li, achei muito ruim o que eu tinha escrito. E estudei a reação dele. Nada além daquele &lt;em&gt;“obrigado”&lt;/em&gt;. Nenhuma. A mesma coisa que ele diria ao porteiro do edifício, quando aquele lhe dissesse que chegou uma carta. Um agradecimento gentil e amorfo e só isso.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;em&gt;“Me tens amor?”&lt;/em&gt; eu quis perguntar a ele. Mas acho que ele já não me tinha mais amor, como falou da outra vez.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Também não era &lt;em&gt;“um dia cinzento de tempestade”&lt;/em&gt;, como eu escrevi. Era só uma chuvinha chata num dia úmido. Mas a palavra &lt;em&gt;“tempestade”&lt;/em&gt; deixou dramático o dia, como dramático era tudo o que eu sentia por ele nos últimos três anos e cinco meses. Três anos e cinco meses.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Eu chorava ouvindo Saigon. E o ranho, como uma clara de ovo, escorria do meu nariz pontudo, vermelho, ridículo. &lt;em&gt;(Vai minha estrela/Iluminando/Toda esta cidade/Como um céu/De luz neon...)&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-6122568193941438777?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/6122568193941438777/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=6122568193941438777&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/6122568193941438777'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/6122568193941438777'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2008/08/em-saigon.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SKFwILKotPI/AAAAAAAABWQ/7F-mYLpEBMk/s72-c/chuva01zr5.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-2337773508676402377</id><published>2008-08-09T12:25:00.000-07:00</published><updated>2008-08-10T19:41:06.043-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SJ3zynpuhUI/AAAAAAAABVY/1rA35jG2jtE/s1600-h/rania.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5232606393037391170" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SJ3zynpuhUI/AAAAAAAABVY/1rA35jG2jtE/s200/rania.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SJ3zy1I7X8I/AAAAAAAABVg/nte32wuI4NI/s1600-h/1204139943_f.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5232606396657917890" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SJ3zy1I7X8I/AAAAAAAABVg/nte32wuI4NI/s200/1204139943_f.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SJ3zZ4h_CxI/AAAAAAAABVI/mHgW4p_jrB0/s1600-h/rania.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SJ3zZxq2foI/AAAAAAAABVQ/Y4Ixs8Np-xc/s1600-h/1204139943_f.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff6600;"&gt;A RAINHA DA JORDÂNIA&lt;/span&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Da série &lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;O Romance dos Comuns.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;Sentou-se com aquela cara de quem desejava contar algo. Levantou o dedo para o garçom e pediu uma cerveja. Amassou o cigarro no cinzeiro e disse ao Gordo&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Ontem, eu conheci a Rainha da Jordânia. Aqui, neste mesmo bar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;Nem haviam começado a beber, mas o Gordo parecia permanentemente bêbado, tal a sua preguiça. Não era exatamente gordo, era &lt;em&gt;grande&lt;/em&gt;. Tinha os olhos caídos e movimentava-se de uma forma pesada, lenta, sem nenhuma pressa. Chinelo e bermuda, sempre. Falava do mesmo jeito que andava.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Bá, que honra, hein? E o rei não veio atrás, com a espada?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Gordo, vou repetir: ontem conheci a Rainha da Jordânia!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Eu ouvi, não sou surdo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Tudo bem. Só que você não deu a importância necessária ao fato.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Cara, quando você vem vindo com a farinha eu já estou lááá embaixo – apontou com o queixo – voltando com o fubá. A "Rainha da Jordânia" é uma mulher que você conheceu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Pois é, em parte acertou. Mas não vou contar mais. Você nem sabe quem é a Rainha da Jordânia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Pô, que noite, hein? Não bebemos nenhuma e daqui a pouco já vamos brigar. Eu sei quem é a Rainha da Jordânia. Aquela do Marco Aurélio, a Cleópatra. A da cobra. Essa sua também gosta de &lt;em&gt;cobra&lt;/em&gt;?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Eu sabia que você não tinha entendido porra nenhuma do que eu estava falando. A Cleópatra era a rainha &lt;em&gt;&lt;strong&gt;do Egito&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;. Não é a Rainha &lt;strong&gt;da Jordânia&lt;/strong&gt;. Ah, e o cara da Cleópatra era Marco &lt;strong&gt;Antônio&lt;/strong&gt; e não “Aurélio”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Ah, é. &lt;em&gt;Marco Aurélio&lt;/em&gt; é nome de dicionário. Confundi.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;O garçon trouxe uma cerveja de garrafa. Abriu segurando-a no ar. Atirou duas bolachas de papelão usadas na frente de cada um deles. Pos os copos sobre elas. Beberam um gole, sem brindar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Gordô - enfatizou acentuando o último “o” - a Rainha da Jordânia é a Rânia. Ela é hoje, em 2007, a Rainha da Jordânia. Não tem nada a ver com História, com o passado, entendeu? E eu conheci, ontem, aqui mesmo, um clone dela. A mulher é igualzinha. Só tem um sinal na bochecha esquerda. Fora isso, igual. Nem o rei notaria a diferença.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Ah, o rei notaria.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;O Gordo não sabia da existência, hoje, de uma rainha, na Jordânia. Mas estava convicto de que o rei notaria a diferença entre as duas. Então o outro tirou um papel dobrado da carteira. Uma foto, rasgada de uma revista. Rânia, Rainha da Jordânia. E mostrou ao Gordo. Que arregalou os olhos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Tudo isso? A que você conheceu no bar é igual a essa aí?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Igualzinha. Com um sinal na bochecha. E algumas vantagens.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Vantagens, hein? Mais grana do que a rainha?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Não sei. Pelo carro, a minha deve ter alguma grana. Carro novinho. A vantagem é que está aqui pertinho.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- A “minha”, hein? Ela já é “sua”? O negócio andou ligeiro...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;O Gordo dificilmente arranjava namorada. Mas ia nas putas, regularmente. Era um teórico. Tinha uma série de teses.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Modo de falar. Ainda não é minha. Mas quase.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- E que vantagens essa outra aí tem sobre a &lt;em&gt;Hanna&lt;/em&gt;, da Jordânia?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- É &lt;em&gt;Rânia&lt;/em&gt;. A minha é uns cinco anos mais nova do que a Rainha de verdade. A Rainha tem 37 e ela tem 32. Não acreditei, mas ela mostrou a identidade. Sabe como é mulher, a gente diz “não acredito” (retórica!) e elas mostram a identidade. E tem mais: a Rainha tem quatro filhos, a minha não tem nenhum. Portanto, da minha não despencou nada, ainda.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Como é que você sabe tudo isso dessa rainha?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Me informei. Na &lt;em&gt;Internex&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Legal. Mas como é que você sabe que não despencou nada na sua? Já viu ela pelada?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Ainda não. Mas tá com tudo em cima, blusa apertada. Calça bem justinha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Calça engana. Tira a calça dela e você vai ver onde vai parar a bunda. Além disso, inventaram sutiã com enchimento e até calcinha &lt;em&gt;com bundinha&lt;/em&gt;. Vi a propaganda numa revista lá no meu dentista. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Como assim “calcinha com bundinha”?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Bunda &lt;em&gt;fake&lt;/em&gt;, meu garoto. De borracha, silicone. Sei lá, pano. Uma espécie de recurso “enche-baranga”. E os trouxas, tum, caem direitinho. Dançam, apertam aquela bundinha. Na hora de “nanar” e quando todo mundo fica – olhou em volta – mais à vontade, é que surge a surpresa desagradável. Camarada meu até mordeu um negócio desses. Puf !!!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Será, Gordo? O cara mordeu e estourou a bunda da mulher? Até isso?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Por aí, o negócio. Vai por mim. Eu estudo o comportamento das pessoas, com uma certa Antropologia. Sei que tenho essa cara de trouxa. Mas enquanto está todo mundo agitado eu tô ali, quieto, só na mirada...Manja o jacaré, parado na água, esperando pra dar o bote?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- A cobra é quem dá o bote.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- O jacaré também.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- É?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- É.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Gordô...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Fala.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Ela fez e me deu um desenho, na capa do talão de cheques usado. Olha só.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Legal, hein?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Esse aqui sou eu. E essa, com a florzinha na mão, é ela. Legalzinho, né?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Bonito. Talão do &lt;em&gt;Citibank&lt;/em&gt;, hein?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Tô lhe falando. Você não acredita em mim. Desenhou me olhando, com uma cara de inspirada que vou te contar...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Ela não desenha muito bem, né? Esse boneco aqui não parece com você. Muito fortão. Mulher em mesa de bar, com cerveja na cabeça, enxerga tudo errado. Homem também...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Desenhar não desenha. Mas fez pra me agradar. E conseguiu. Só penso nisso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Qual o nome dela?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Da minha? É Ira.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- &lt;em&gt;Ira&lt;/em&gt;? Como o grupo de rock?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Apelido.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Lá vem bomba. Mulher com apelidinho pequeno tem nome horroroso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Iracema. Uma homenagem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Pois então. Eu sabia. Nome de dona de fruteira. Não combina com essa cara de "rainha da Jordânia".&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- O pai lia muito. Homenagem ao autor do livro de mesmo nome.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- &lt;em&gt;Machado de Assis&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Isso. &lt;em&gt;José de Alencar&lt;/em&gt;. Mas, Gordô...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Diz aí, príncipe da Jordânia...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Rei. O príncipe de lá ainda é criança. Porque você acha que o Rei da Jordânia notaria?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Não acho, tenho certeza. Pelo cheiro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Que &lt;em&gt;cheiro&lt;/em&gt;?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Da Rainha. Cada mulher tem um cheiro diferente. Comprovado por uma certa Biologia. Tava no número de março, da &lt;em&gt;Superinteressante&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- "Uma certa Biologia"? E uma mulher dessas tem cheiro, Gordo? É uma rainha, porra!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Igualzinho à nossa mãe; à nossa irmã e até àquela morena que atende ali no caixa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;O Gordo olhava, sonhador; impotente, para a moça que atendia no caixa. As cervejas logo começavam a causar nele aquele costumeiro efeito “minha vida é uma merda”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Você nem tem irmã, Gordo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Não, mas você tem. A &lt;em&gt;sua&lt;/em&gt; já é &lt;em&gt;nossa&lt;/em&gt;. E mãe eu tenho, como todo mundo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- A minha irmã não é &lt;em&gt;nossa&lt;/em&gt; porra nenhuma. Mas será que até a Rainha tem cheiro?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Igual a você ou eu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Pelo amor de Deus, agora exagerou né Gordô? Não eram só as mulheres?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;- Biologia. Vou trazer a &lt;em&gt;Superinteressante&lt;/em&gt; pra você ler.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-2337773508676402377?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/2337773508676402377/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=2337773508676402377&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/2337773508676402377'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/2337773508676402377'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2008/08/rainha-da-jordnia.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_E2GMpxhHSt0/SJ3zynpuhUI/AAAAAAAABVY/1rA35jG2jtE/s72-c/rania.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2472519320195453022.post-5344624801572265650</id><published>2008-07-30T11:41:00.000-07:00</published><updated>2008-08-04T17:07:27.172-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://bp2.blogger.com/_E2GMpxhHSt0/SJC3F8R1TwI/AAAAAAAABTY/93XpOq7d7w4/s1600-h/rene-magritte-os%2520amantes.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5228880480085298946" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp2.blogger.com/_E2GMpxhHSt0/SJC3F8R1TwI/AAAAAAAABTY/93XpOq7d7w4/s320/rene-magritte-os%2520amantes.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;O Romance dos Comuns.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;"&gt;Foi no início de uma tarde nublada e fria. Sentamo-nos num café onde se podia, também, almoçar. Não almoçamos, mesmo passada a hora. Ela estava cada dia mais gorda. E eu, mais velho e mais careca; mais grisalho no cabelo que sobrou; unhas amareladas pela nicotina. Eu apodrecia aos poucos; porém mais rápido do que todo mundo, por causa do cigarro. O que não me impedia de gostar. Com força e persistência, enxergando beleza em tudo, como acontece quando o coração é tomado por essas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um lugar com paredes de tijolos crus, escuros. Havia também mesas na rua, apesar do vento gelado. Sentamos na área interna, num lugar onde havia pouca gente. E pedimos dois copos de vinho, apartadas da garrafa. Não uma garrafa inteira, como seria o razoável, mas dois copos (aos quais eles chamavam de “taças”) individuais, de um vinho sem procedência. Não comemos nada, embora eu adivinhasse nela alguma impaciência em relação às mesas mais próximas, onde as pessoas beliscavam petiscos, no início daquela tarde. A ansiedade a obrigava a comer. Depois de alguns rodeios e goles, ela deu-me o pacote e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu trouxe para você de Montevidéu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela foi ao Uruguai numa daquelas excursões baratas, de ônibus. Tinha um grande salário, na sua alta função pública. Mas era econômica, apegada ao dinheiro; por causa da vidinha miserável que – eu adivinhava – teve na infância. Ao invés de tomar um avião, pois tinha dinheiro para pagar a passagem, passou longas horas dentro de um ônibus cheio de mulheres solitárias, numa excursão. Para economizar alguns trocados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um pequeno livro de poemas, em espanhol, de papel &lt;em&gt;couché&lt;/em&gt; amarelado. Mário Benedetti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tem muitos sebos, por lá. Mas esse eu comprei na livraria, novinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bebi um gole de vinho e folheei o livrinho ao acaso. Comecei a ler, solene, um dos poemas, &lt;em&gt;Táctica y Estrategia&lt;/em&gt;, traduzindo direto para o português, em voz alta. Olhava para ela, enquanto lia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Minha tática é olhar-te, aprender como és, querer-te como és/minha tática é falar-te, e escutar-te, construir com palavras, uma ponte indestrutível/minha tática é ficar na tua lembrança, não sei como e não sei, com que pretexto, mas ficar em você...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Mi táctica es mirarte, aprender como sos, quererte como sos/ mi táctica es hablarte, y escucharte, construir con palabras, um puente indestructible/ mi táctica es quedarme en tu recuerdo, no sé como ni sé, con que pretexto, pero quedarme en vos...)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Eu bebia goles espaçados do vinho, molhando a boca. Ler poemas em espanhol, bebendo vinho, me dava a mesma sensação de quando comia pequenos biscoitos crocantes de milho, desses que acompanham o café. Uma sensação boa e palatável, derretida na boca, mas passageira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faltou-nos um revoar de pássaros. Bem-te-vis piando. Vento. Folhas caindo. Um céu avermelhado. O pôr-do-sol. Mas estávamos dentro do restaurante. Nada disso aconteceu. As mãos dela estavam postas sobre a toalha, com as suas unhas cor de amora. A unha do indicador roçando a ponta rendada da toalha verde mostrava inquietude. Ouviu o poema em silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pena que hoje ainda não é sábado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sábado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É. No sábado eu sempre me sinto tão &lt;em&gt;amena&lt;/em&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achei engraçada aquela expressão “tão amena”, que me pareceu imprópria, ou infantil, como se ela falasse a respeito da temperatura ou da acidez do vinho e não dela mesma, uma mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não deu, ou fingiu não dar, muita bola para o meu poema. Um poema que era do Mario Benedetti e do livro que ela própria me deu. Seguiu falando sobre as já conhecidas banalidades da vida. Sobre o plano de carreira do Serviço Público. O frio e a chuva da véspera. As prisões escandalosas noticiadas na mídia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguma coisa em nós dois; mais nela do que em mim, dizia “não podemos mais”, e eu não me conformava. Esse “não poder” não era afetivo, mas estético. E era dela, não meu. Eu só queria recuperar aquela coisa que nos atingiu no início e que nos cegava ao que realmente éramos e que nos jogava no exclusivo e restrito terreno daquilo que sentíamos. O corpo apodrece; intumesce; enruga; esmorece. E o que foi sentido fica anotado para sempre até num guardanapo de papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor, ali, borbulhava por debaixo da terra, agônico. Não era uma fonte que secou, mas que estava sendo soterrada, aos poucos, por ela. Mas o que se via era apenas a terra. Ainda úmida, com uns filetes de água. Mas indiscutivelmente era só a terra.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2472519320195453022-5344624801572265650?l=caixadecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caixadecontos.blogspot.com/feeds/5344624801572265650/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2472519320195453022&amp;postID=5344624801572265650&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/5344624801572265650'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2472519320195453022/posts/default/5344624801572265650'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caixadecontos.blogspot.com/2008/07/o-romance-dos-comuns.html' title=''/><author><name>ROBERTO SCHULTZ</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15354559761718585865</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp2.blogger.com/_E2GMpxhHSt0/SJC3F8R1TwI/AAAAAAAABTY/93XpOq7d7w4/s72-c/rene-magritte-os%2520amantes.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry></feed>
